Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica52 materiais2.212 seguidores
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material, o conhecimento da histo´ria comec¸a a ser posto sobre bases total-
mente diferentes das do idealismo filoso´fico.
2) Os elementos da ana´lise comparativa na\u2dco sa\u2dco mais, a partir de Morgan, cos-
tumes considerados bizarros, e sim redes de interac¸a\u2dco formando \u201dsistemas\u201d,
termo que o antropo´logo americano utiliza para as relac¸o\u2dces de parentesco.9
Na\u2dco ha´, como mostrou Kuhn (1983), conhecimento cient´\u131fico poss´\u131vel sem
que se constitua uma teoria servindo de \u201dparadigma\u201d, isto e´, de modelo or-
ganizador do saber, e a teoria da evoluc¸a\u2dco teve incontestavelmente, no caso,
um papel decisivo. Foi ela que deu seu impulso a antropologia. O paradoxo
(aparente, pois o conhecimento cient´\u131fico se da´ sempre mais por descontinui-
dades teo´ricas do que por acumulac¸a\u2dco), e´ que a antropologia so´ se tornara´
cient´\u131fica( no sentido que entendemos) introduzindo uma ruptura em relac¸a\u2dco
a esse modo de pensamento que lhe havia no entanto aberto o caminho. E´ o
que examinaremos agora.
9Por essas duas razo\u2dces, compreende-se qual sera´ a influe\u2c6ncia a` Morgan sobre o mar-
xismo, e particularmente, sobre Engels (1954)
56 CAPI´TULO 3. O TEMPO DOS PIONEIROS:
Cap´\u131tulo 4
Os Pais Fundadores Da
Etnografia:
Boas e Malinowski
Se existiam no final do se´culo XIX homens (geralmente missiona´rios e ad-
ministradores) que possu´\u131am um excelente conhecimento das populac¸o\u2dces no
meio das quais viviam \u2013 e´ o caso de Codrington, que publica em 1891 uma
obra sobre os melane´sios, de Spencer e Gillen, que relatam em 1899 suas
observac¸o\u2dces sobre os abor´\u131gines australianos, ou de Junod, que escreve A
Vida de uma Tribo Sul-africana (1898) \u2013 a etnografia propriamente dita so´
comec¸a a existir a partir do momento no qual se percebe que o pesquisador
deve ele mesmo efetuar no campo sua pro´pria pesquisa, e que esse trabalho
de observac¸a\u2dco direta e´ parte integrante da pesquisa.
A revoluc¸a\u2dco que ocorrera´ da nossa disciplina durante o primeiro terc¸o do
se´culo XX e´ considera´vel: ela po\u2dce fim a` repartic¸a\u2dco das tarefas, ate´ enta\u2dco
habitualmente divididas entre o observador (viajante, missiona´rio, adminis-
trador) entregue ao papel subalterno de provedor de informac¸o\u2dces, e o pes-
quisador erudito, que, tendo permanecido na metro´pole, recebe, analisa e
interpreta \u2013 atividade nobre! \u2013 essas informac¸o\u2dces. O pesquisador compre-
ende a partir desse momento que ele deve deixar seu gabinete de trabalho
para ir compartilhar a intimidade dos que devem ser considerados na\u2dco mais
como informadores a serem questionados, e sim como ho´spedes que o rece-
bem e mestres que o ensinam. Ele aprende enta\u2dco, como aluno atento, na\u2dco
apenas a viver entre eles, mas a viver como eles, a falar sua l´\u131ngua e a pensar
nessa l´\u131ngua, a sentir suas pro´prias emoc¸o\u2dces dentro dele mesmo. Trata-se,
como podemos ver, de condic¸o\u2dces de estudo radicalmente diferentes das que
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58 CAPI´TULO 4. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA:
conheciam o viajante do se´culo XVIII e ate´ o missiona´rio ou o administrador
do se´culo XIX, residindo geralmente fora da sociedade ind´\u131gena e obtendo
informac¸o\u2dces por interme´dio de tradutores e informadores: este u´ltimo termo
merece ser repetido. Em suma, a antropologia se torna pela primeira vez
uma atividade ao ar livre, levada, como diz Malinowski, \u201dao vivo\u201d, em uma
\u201dnatureza imensa, virgem e aberta\u201d.
Esse trabalho de campo, como o chamamos ainda hoje, longe de ser visto
como um modo de conhecimento secunda´rio servindo para ilustrar uma tese,
e´ .onsiderado como a pro´pria fonte de pesquisa. Orientou a partir desse
momento a abordagem da nova gerac¸a\u2dco de etno´logos que, desde os primei-
ros anos do se´culo XX, realizou estadias prolongadas entre as populac¸o\u2dces do
mundo inteiro. Em 1906 e 1908, Radcliffe-Brown estuda os habitantes das
ilhas Andaman. Em 1909 e 1910, Seligman dirige uma missa\u2dco no Suda\u2dco.
Alguns anos mais tarde, Malinowski volta para a Gra\u2dc-Bretanha, impregnado
do pensamento e dos sistemas de valores que lhe revelou a populac¸a\u2dco de
um minu´sculo arquipe´lago melane´sio. A partir da´\u131, as misso\u2dces de pesquisas
etnogra´ficas e a publicac¸a\u2dco das obras que delas resultam se seguem em um
ritmo ininterrupto. Em 1901, Rivers, um dos fundadores da antropologia
inglesa, estuda os Todas da \u131´ndia; apo´s a .Primeira Guerra Mundial, Evans-
Pritchard estuda os Azande´s (trad. franc. 1972) e os Nuer (trad. franc.
1968); Nadei, as Nupes da Nige´ria; Fortes, os Tallensi; Margaret Mead, os
insulares da Nova Guine´, etc
Como na\u2dco e´ poss´\u131vel examinar, dentro dos limites deste Inibalho, a con-
tribuic¸a\u2dco desses diferentes pesquisadores na elaborac¸a\u2dco da etnografia e da
etnologia contempora\u2c6nea, dois entre eles, a meu ver os mais importantes, de-
tera\u2dco nossa Hlenc¸a\u2dco: um americano de origem alema\u2dc: Franz Boas; o outro,
polone\u2c6s naturalizado ingle\u2c6s: Bronislaw Malinowski.
4.1 BOAS (1858-1942)
Com ele assistimos a uma verdadeira virada da pra´tica antropolo´gica. Boas
era antes de tudo um homem de campo. Suas pesquisas, totalmente pioneiras,
iniciadas, notamo-lo, a partir dos u´ltimos anos do se´culo XIX (em particular
entre os Kwakiutl e os Chinook de Colu´mbia Brita\u2c6nica), eram conduzidas de
um ponto de vista que hoje qualificar´\u131amos de microssociolo´gico. No campo,
ensina Boas, tudo deve ser anotado: desde os materiais constitutivos das
4.1. BOAS (1858-1942) 59
casas ate´ as notas das melodias cantadas pelos Esquimo´s, e isso detalhada-
mente, e no detalhe do detalhe. Tudo deve ser objeto da descric¸a\u2dco mais
meticulosa, da retranscric¸a\u2dco mais fiel (por exemplo, as diferentes verso\u2dces de
um mito, ou diversos ingredientes entrando na composic¸a\u2dco de um alimento).
Por outro lado, enquanto raramente antes dele as sociedades tinham sido
realmente consideradas em si e para si mesmas, cada uma dentre elas ad-
quire o estatuto de uma totalidade auto\u2c6noma. O primeiro a formular com
seus colaboradores (cf. em particular Lowie, 1971) a cr´\u131tica mais radical e
mais elaborada das noc¸o\u2dces de origem e de reconstituic¸a\u2dco dos esta´gios,1 ele
mostra que um costume so´ tem significac¸a\u2dco se for relacionado ao contexto
particular no qual se inscreve. Claro, Morgan e, muito antes dele, Montes-
quieu tinham aberto o caminho a essa pesquisa cujo objeto e´ a totalidade das
relac¸o\u2dces sociais e dos elementos que a constituem. Mas a diferenc¸a e´ que,ia
partir de Boas, estima-se que para compreender o lugar particular ocupado
por esse costume na\u2dco se pode mais confiar nos investigadores e, muito menos
nos que, da \u201dmetro´pole\u201d, confiam neles. Apenas o antropo´logo pode elaborar
uma monografia, isto e´, dar conta cientificamente de uma microssociedade,
apreendida em sua totalidade e considerada em sua autonomia teo´rica. Pela
primeira vez, o teo´rico e o observador esta\u2dco finalmente reunidos. Assistimos
ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional que na\u2dco se contenta
mais em coletar materiais a` maneira dos antiqua´rios, mas procura detectar
o que faz a unidade da cultura que se expressa atrave´s desses diferentes ma-
teriais.
Por outro lado, Boas considera, e isso muito antes de Griaule, do qual fala-
remos mais adiante, que na\u2dco ha´ objeto nobre nem objeto indigno da cie\u2c6ncia.
As piadas de um contador sa\u2dco ta\u2dco importantes quanto a mitologia que ex-
pressa o patrimo\u2c6nio metaf´\u131sico do grupo. Em especial, a maneira pela qual as
sociedades tradicionais, na voz dos mais humildes entre eles, classificam suas
atividades mentais e sociais, deve ser levada em considerac¸a\u2dco. Boas anuncia
assim a constituic¸a\u2dco do que hoje chamamos de \u201detnocie\u2c6ncias\u201d.
Finalmente, ele foi um dos primeiros a nos mostrar na\u2dco apenas a importa\u2c6ncia,
mas tambe´m a necessidade, para o etno´logo, do acesso a` l´\u131ngua da cultura
na qual trabalha. As tradic¸o\u2dces que estuda na\u2dco poderiam ser-lhe traduzidas.
1Da qual Radcliffe-Brown e Malinowski tirara\u2dco as consequ¨e\u2c6ncias tec ricas: