Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.211 seguidores
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na\u2dco e´
mais poss´\u131vel opor sociedades \u201dsimples\u201de sociedades \u201dcomplexas\u201d, sociedades \u201dinferio-
res\u201devoluindo para o \u201dsuperior\u201d, sociedades \u201dprimitivas\u201da caminho da \u201dcivilizac¸a\u2dco\u201d. As
primeiras na\u2dco sa\u2dco as formas An nraanizaco\u2dces originais das quais as segundas teriam deri-
vado.
60 CAPI´TULO 4. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA:
Ele pro´prio deve recolhe\u2c6-las na l´\u131ngua de seus interlocutores.2
Pode parecer surpreendente, levando em conta o que foi dito, que Boas, ex-
ceto entre os profissionais da antropologia, seja praticamente desconhecido.
Isso se deve principalmente a duas razo\u2dces:
1) multiplicando as comunicac¸o\u2dces e os artigos, ele nunca escreveu nenhum
livro destinado ao pu´blico erudito, e os textos que nos deixou sa\u2dco de uma
concisa\u2dco e de um rigor asce´tico. Nada que anuncie, por exemplo, a emoc¸a\u2dco
que se pode sentir (como veremos logo) na leitura de um Malinowski; ou que
lembre o charme ultrapassado da prosa enfeitada de um Frazer;
2) nunca formulou uma verdadeira teoria, ta\u2dco estranho era-lhe o esp´\u131rito
de sistema; e a generalizac¸a\u2dco apressada parecia-lhe o que ha´ de mais distante
do esp´\u131rito cient´\u131fico. A`s ambic¸o\u2dces dos primeiros tempos \u2013 quero falar dos
afrescos gigantescos do se´culo XIX, que retratam os primo´rdios da humani-
dade mas expressam simultaneamente os primo´rdios da antropologia, isto e´
uma antropologia principalmente \u2013 sucedem, com ele, a mode´stia e a sobri-
edade da maturidade.
De qualquer modo, a influe\u2c6ncia de Boas foi considera´vel. Foi um dos pri-
meiros etno´grafos. A sua preocupac¸a\u2dco de precisa\u2dco na descric¸a\u2dco dos fatos
observados, acrescentava-se a de conservac¸a\u2dco meto´dica do patrimo\u2c6nio reco-
lhido (foi conservador do museu de Nova Iorque). Finalmente, foi, enquanto
professor, o grande pedagogo que formou a primeira gerac¸a\u2dco de antropo´logos
americanos (Kroeber, Lowie, Sapir, Herskovitz, Linton. . . e, em seguida,
R. Benedict, M. Mead). Ele permanece sendo o mestre incontestado da an-
tropologia americana na primeira metade do se´culo XX.
4.2 MALINOWSKI (1884-1942)
Malinowski dominou incontestavelmente a cena antropolo´gica, de 1922, ano
de publicac¸a\u2dco de sua primeira obra, Os Argonautas do Pac´\u131fico Ocidental,
ate´ sua morte, em 1942.
1) Se na\u2dco foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experie\u2c6ncia et-
nogra´fica, isto e´, em primeiro lugar, a viver com as populac¸o\u2dces que estudava
2Sobre a relac¸a\u2dco da cultura, da l´\u131ngua e do etno´logo, cf. particular-mente. apo´s Boas.
Sapir (1967) e Leenhardt (1946).
4.2. MALINOWSKI (1884-1942) 61
e a recolher seus materiais de seus idiomas, radicalizou essa compreensa\u2dco por
dentro, e para isso, procurou romper ao ma´ximo os contatos com o mundo
europeu.
Ningue´m antes dele tinha se esforc¸ado em penetrar tanto, como ele fez
no decorrer de duas estadias sucessivas nas ilhas Trobriand, na mentali-
dade dos outros, e em compreender de dentro, por uma verdadeira busca
de despersonaliza-c¸a\u2dco, o que sentem os homens e as mulheres que perten-
cem a uma cultura que na\u2dco e´ nossa. Boas procurava estabelecer reperto´rios
exaustivos, e muitos entre seus seguidores nos Estados Unidos (Kroeber, Mur-
dock. . .) procuraram definir correlac¸o\u2dces entre o maior nu´mero poss´\u131vel de
varia´veis. Malinowski considera esse trabalho uma aberrac¸a\u2dco. Conve´m pelo
contra´rio, segundo ele, conforme o primeiro exemplo que da´ em seu primeiro
livro, mostrar que a partir de um u´nico costume, ou mesmo de um u´nico ob-
jeto (por exemplo, a canoa trobriandesa \u2013 voltaremos a isso) aparentemente
muito simples, aparece o perfil do conjunto de uma sociedade.
2) Instaurando uma ruptura com a histo´ria conjetural (a reconstituic¸a\u2dco es-
peculativa dos esta´gios), e tambe´m com a geografia especulativa (a teoria di-
fusionista, que tende, no in´\u131cio do se´culo, a ocupar o lugar do evolucionismo,
e postula a existe\u2c6ncia de centros de difusa\u2dco da cultura, a qual se transmite
por empre´stimos), Malinowski considera que uma sociedade deve ser estu-
dada enquanto uma totalidade, tal como funciona no momento mesmo onde
a observamos. Medimos o caminho percorrido desde Frazer, que foi no en-
tanto o mestre de Malinowski. Quando pergunta´vamos ao primeiro por que
ele pro´prio na\u2dco ia observar as sociedades a partir das quais tinha constru´\u131do
sua obra, respondia: \u201dDeus me livre!\u201d. Os Argonautas do Pac´\u131fico Ociden-
tal, embora tenha sido editado alguns anos apenas apo´s o fim da publicac¸a\u2dco
de O Ramo de Ouro, com um prefa´cio, notamo-lo, do pro´prio Frazer, adota
uma abordagem rigorosamente inversa: analisar de uma forma intensiva e
cont´\u131nua uma microssociedade sem referir-se a sua histo´ria. Enquanto Frazer
procurava responder a` pergunta: \u201dComo nossa sociedade chegou a se tornar
o que e´?\u201d; e respondia escrevendo essa \u201dobra e´pica da humanidade\u201dque e´ O
Ramo de Ouro, Malinowski se pergunta o que e´ uma sociedade dada em si
mesma e o que a torna via´vel para os que a ela pertencem, observando-a no
presente atrave´s da interac¸a\u2dco dos aspectos que a constituem.
(Com Malinowski, a antropologia se torna uma \u201dcie\u2c6ncia\u201dda alteridade que
vira as costas ao empreendimento evolucionista de reconstituic¸a\u2dco das origens
da civilizac¸a\u2dco, e se dedica ao estudo das lo´gicas particulares caracter´\u131sticas de
cada cultura. O que o leitor aprende ao ler Os Argonautas e´ que os costumes
62 CAPI´TULO 4. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA:
dos Trobriandeses, ta\u2dco profundamente diferentes dos nossos, te\u2c6m uma signi-
ficac¸a\u2dco e uma coere\u2c6ncia. Na\u2dco sa\u2dco puerilidades que testemunham de alguns
vest´\u131gios da humanidade, e sim sistemas lo´gicos perfeitamente elaborados.
Hoje, todos os etno´logos esta\u2dco convencidos de que as sociedades diferentes
da nossa sa\u2dco sociedades humanas tanto quanto a nossa, que os homens e
mulheres que nelas vivem sa\u2dco adultos que se comportam diferentemente de
no´s, e na\u2dco primitivos\u201d, auto\u2c6matos atrasados (em todos os sentidos do termo)
que pararam em uma e´poca distante e vivem presos a tradic¸o\u2dces estu´pidas.
Mas nos anos 20 isso era propriamente revoluciona´rio.
3) A fim de pensar essa coere\u2c6ncia interna, Malinowski elabora uma teoria
(o funcionalismo) que tira seu modelo das cie\u2c6ncias da natureza: o indiv´\u131duo
sente um certo nu´mero de necessidades, e cada cultura tem precisamente
como func¸a\u2dco a de satisfazer a` sua maneira essas necessidades fundamen-
tais. Cada uma realiza isso elaborando instituic¸o\u2dces (econo\u2c6micas, pol´\u131ticas,
jur´\u131dicas, educativas. . .), fornecendo respostas coletivas organizadas, que
constituem, cada uma a seu modo,soluc¸o\u2dces originais que permitem atender
a essas necessidades.
4) Uma outra caracter´\u131stica do pensamento do autor de Os Argonautas e´,
ao nosso ver, sua preocupac¸a\u2dco em abrir as fronteiras disciplinares, devendo o
homem ser estudado atrave´s da tripla articulac¸a\u2dco do social, do psicolo´gico e
do biolo´gico. Conve´m em primeiro lugar, para Malinowski, localizar a relac¸a\u2dco
estreita do social e do biolo´gico; o que decorre do ponto anterior, ja´ que, para
ele, uma sociedade funcionando como um organismo, as relac¸o\u2dces biolo´gicas
devem ser consideradas na\u2dco apenas como o modelo epistemolo´gico que per-
mite pensar as relac¸o\u2dces sociais, e sim como o seu pro´prio fundamento. Ale´m
disso, uma verdadeira cie\u2c6ncia da sociedade implica, ou melhor, inclui o es-
tudo das motivac¸o\u2dces psicolo´gicas, dos comportamentos, o estudo dos sonhos e
dos desejos do indiv´\u131duo.3E Malinowski, quanto a esse aspecto (que o separa
radicalmente, como veremos, de Durkheim), vai muito ale´m da ana´lise da
afetividade de seus interlocutores. Ele procura reviver nele pro´prio os sen-
timentos dos outros, fazendo da observac¸a\u2dco participante uma participac¸a\u2dco
psicolo´gica do pesquisador, que deve \u201dcompreender e compartilhar os senti-
mentos\u201ddestes u´ltimos \u201dinteriorizando suas reac¸o\u2dces emotivas\u201d.
3E´ essa vontade de alcanc¸ar o homem em todas as suas dimenso\u2dces, e,