Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.212 seguidores
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da antropologia social, de que trataremos no pro´ximo
cap´\u131tulo), estes orientam sua atenc¸a\u2dco para os seguintes aspectos: o estudo
das produc¸o\u2dces simbo´licas (artesanato), a literatura de tradic¸a\u2dco oral (mitos,
contos, lendas, prove´rbios. . .) e dos instrumentos atrave´s dos quais essas
produc¸o\u2dces se constituem (particularmente as l´\u131nguas); o estudo da lo´gica dos
saberes (filoso´ficos, religiosos, art´\u131sticos, cient´\u131ficos) existentes num grupo (o
que abre o caminho para uma antropologia do conhecimento e para o que
hoje qualificamos de \u201detnocie\u2c6ncias\u201d). em suma, de tudo que Griaule e seus
sucessores chamam de \u201dfilosofia\u201ddas sociedades dogon, bambara. . . tal
como se expressa atrave´s dos mitos e esto´rias tradicionais, da mu´sica, dos
cantos, danc¸as, ma´scaras e outros objetos culturais.
Para o conjunto dos etno´logos, e para Griaule em especial, esse pensamento
1Cf., por exemplo, M. Griaule (1938, 1966). G. Dielerlcn (1951, 1972), D. Paulme,
1962), M. Griaule e G. Dieterlen (1965). D Zahan (1960, 1963), G. Calame-Griaule (1965).
etc.
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88 CAPI´TULO 7. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBO´LICOS
simbo´lico e as pra´ticas rituais a ele relacionados2 e que constituem com ele o
patrimo\u2c6nio do grupo, na\u2dco se caracterizam apenas por sua profunda coere\u2c6ncia
\u2013 os sistemas de corresponde\u2c6ncia extremamente precisos entre os vivos e os
mortos, o homem e o animal, a natureza e a cultura. . .
Sa\u2dco elaborac¸o\u2dces grandiosas, de uma complexidade e riqueza inestima´veis.
E e´ precisamente esse esplendor e essa grandeza (dos mitos, ritos, ma´scaras.
. .) que acabam impondo-se ao observador ocidental, e que fara\u2dco em es-
pecial, das fale´sias de Bandiagara (Mali) e de seus habitantes (os Dogons),
apo´s os \u131´ndios, os abor´\u131gines australianos e os trobriandeses, um dos mais
importantes lugares da antropologia.
Como estamos longe do tempo era que Morgan considerava que \u201dtodas as
religio\u2dces primitivas sa\u2dco grotescas e de alguma forma inintelig´\u131veis\u201d. Mas
como estamos longe tambe´m das apreciac¸o\u2dces que sa\u2dco no entanto as de mui-
tos pesquisadores contempora\u2c6neos de Griaule. De Frazer, por exemplo, que,
interrogando-se sobre os mitos e as pra´ticas rituais aos quais havia no en-
tanto dedicado sua vida, escreve: \u201dloucuras, va\u2dcos esforc¸os, tempo perdido,
esperanc¸as frustradas\u201d. Ou de Le´vy-.Bruhl, que anota em seus Carnets: os
mitos sa\u2dco \u201desto´rias estranhas, para na\u2dco dizer absurdas e incompreens´\u131veis\u201d,
e acrescenta: \u201dE´ preciso um esforc¸o para se interessar por eles\u201d.
Toda essa tende\u2c6ncia do pensamento antropolo´gico de que procuramos aqui
dar conta coloca-se (a partir de observac¸o\u2dces minuciosas) contra esses julga-
mentos. Da mesma forma, opo\u2dce-se totalmente a` busca de uma determinac¸a\u2dco
pela economia, que explicaria a func¸a\u2dco dos mitos dentro do sistema social.
As pra´ticas simbo´licas em questa\u2dco na\u2dco te\u2c6m de ser fundamentadas sociologica-
mente, pois sa\u2dco, pelo contra´rio, fundadoras da ordem co´smica e social. Sa\u2dco
elas que devem ser tomadas como fundamentais, se aceitarmos finalmente
compreende\u2c6-las de dentro, impregnando-nos de sua sabedoria, recolhendo o
mais fielmente poss´\u131vel o discurso dos iniciados, e na\u2dco projetando, de fora,
categorias caracteristicamente ocidentais. Percebe-se enta\u2dco que o conjunto
do edif´\u131cio das sociedades africanas baseia-se numa filosofia (cf., por exemplo,
Tempels, 1949) e ate´ numa \u201dontologia\u201dque comanda a concepc¸a\u2dco toda que
se tem do mundo e das relac¸o\u2dces dos homens na sociedade.
2O interesse para a a´rea dos mitos, dos ritos de iniciac¸a\u2dco, da religia\u2dco e da magia aparece
como uma constante da antropologia francesa do conjunto do se´culo XX. Cf. por exemplo
Durkheim (1979), M. Mauss (1960), A. Van Gennep (1981), M. Leiris (1958), A. Me´traux
(1958), R. Bastide (1958), J. Rouch (1960), L. de Heusch (1971), C. Le´vi-Strauss (1964),
L. V. Thomas e R. Luneau (1975), G. Durand (1975), [. Favrct-Saada (1977), M. Auge´
(1982).
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Uma abordagem muito pro´xima orienta as pesquisas efetuadas por Mau-
rice Leenhardt (um dos primeiros etno´lo-gos franceses de campo, com Gri-
aule) na Nova Caledo\u2c6nia. Em Do Kamo, a Pessoa e o Mito no Mundo
Melane´sio (1985), apresentado como um \u201dlongo caminhar pelas trilhas cana-
ques, atrave´s do pensamento dos insulares, de sua noc¸a\u2dco de espac¸o, de tempo,
de sociedade, de palavra, de personagem\u201d, Leenhardt considera que o mito e´
fundador da \u201dvida e da ac¸a\u2dco do homem e da sociedade\u201d.
Cr´\u131ticas na\u2dco faltaram a essa antropologia que tem de fato tende\u2c6ncia a apre-
ender as representac¸o\u2dces (religiosas, narrativas, art´\u131sticas. . .) como uma a´rea
\u201da` parte\u201d. Dedicando exclusivamente sua atenc¸a\u2dco ao \u201dso´ta\u2dco\u201d, deixando de
se interessar pelo que acontece \u201dna adega\u201d, ela efetua a reconstituic¸a\u2dco dos
sistemas de pensamento e conhecimento em si pro´prios. As relac¸o\u2dces que estes
mante\u2c6m com as relac¸o\u2dces sociais, pol´\u131ticas, econo\u2c6micas da sociedade em um
determinado momento de sua histo´ria sa\u2dco consideradas secunda´rias, quando
na\u2dco sa\u2dco pura e simplesmente ocultadas. Na\u2dco se pensa um so´ instante, por
exemplo, na hipo´tese de que as sociedades tradicionais possam, como diz
Althusser, \u201dser movidas a` ideologia\u201d. Assim sendo, o discurso etnolo´gico
tende a confundir-se com a teoria que a sociedade estudada elabora para dar
conta de si pro´pria. Trata-se evidentemente mais que de uma renovac¸a\u2dco:
de uma inversa\u2dco de perspectivas em relac¸a\u2dco a` arroga\u2c6ncia dos julgamentos
ocidentaloce\u2c6ntricos sobre o primitivo. Mas sera´ que essa abordagem que se
limita a recolher as representac¸o\u2dces conscientes dos mais sa´bios entre os inici-
ados locais pode servir de explicac¸a\u2dco antropolo´gica?
O que conve´m destacar e´ que essa tende\u2c6ncia da etnologia cla´ssica inscreve-se
num projeto de reabilitac¸a\u2dco das formas de pensamento e expressa\u2dco que na\u2dco
sa\u2dco as nossas. Mostra que, fora o saber cient´\u131fico, o u´nico a beneficiar de
uma plena legitimac¸a\u2dco no Ocidente do se´culo XX, existem outras formas de
conhecimento tambe´m aute\u2c6nticas. Esse protesto para o direito a` existe\u2c6ncia
de identidades culturais e espirituais (o que Senghor, por exemplo, chamara´
de \u201dmetaf´\u131sica negra\u201d), negadas pelas pra´ticas coloniais e que coincide com
a descoberta de \u201darte negra\u201d, e´ profundamente subversivo na primeira me-
tade do se´culo XX. Finalmente, se na\u2dco existe nenhuma teoria griauliana
propriamente dita (retomamos mais uma vez o exemplo de Griaule porque
ele nos parece o mais representativo dessa abordagem), na\u2dco deixa de haver
um acu´mulo de pesquisas extremamente aprofundadas que contribu´\u131ram em
dar a` etnologia francesa seu prest´\u131gio, um trabalho considera´vel sem o qual
a antropologia provavelmente na\u2dco seria o que e´ hoje.
90 CAPI´TULO 7. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBO´LICOS
Cap´\u131tulo 8
A Antropologia Social:
Os princ´\u131pios da antropologia social, tal como se elabora especialmente na In-
glaterra com o impulso de Malinowski e sobretudo de Radcliffe-Brown (1968),
na\u2dco deixam de lembrar os princ´\u131pios da antropologia simbo´lica. Esta insistia,
como acabamos de ver, na coere\u2c6ncia lo´gica dos sistemas de pensamento. A
antropologia social, por sua vez, comec¸a destacando a coesa\u2dco das instituic¸o\u2dces,
o cara´ter integrativo da fam\u131´lia, da moral, e sobretudo da religia\u2dco (Durkheim,
1979).
Mas essas duas perspectivas sa\u2dco muito diferentes. Essa alteridade da qual
procurava-se mostrar o significado profundo (cap´\u131tulo anterior), e tambe´m
o valor inestima´vel, pode ser tambe´m encontrada dentro de cada sociedade,
ta\u2dco grande e´ a diferenciac¸a\u2dco interna dos grupos sociais que compo\u2dcem uma
mesma cultura. Assim, se o interesse para os sistemas de representac¸o\u2dces (mi-
tologia, magia, religia\u2dco. . .) permanece, e´ para mostrar o lugar e a func¸a\u2dco
que sa\u2dco seus dentro de um conjunto maior: a sociedade global em questa\u2dco. O
que e´ enta\u2dco tomado como explicativo precisa ser explicado. A antropologia
simbo´lica