Aprender Antropologia - François Laplantine
172 pág.

Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.211 seguidores
Pré-visualização44 páginas
grupos sexuais, da divisa\u2dco hierarquizada do traba-
lho. . .). Indo ate´ mais adiante, existe o que hoje na\u2dco se hesita mais em
chamar de sociologia celular. Assim, o que distingue a sociedade humana da
sociedade animal, e ate´ da sociedade celular, na\u2dco e´ de forma alguma a trans-
missa\u2dco das informac¸o\u2dces, a divisa\u2dco do trabalho, a especializac¸a\u2dco hiera´rquica
das tarefas (tudo isso existe na\u2dco apenas entre os animais, mas dentro de uma
u´nica ce´lula!), e sim essa forma de comunicac¸a\u2dco propriamente cultural que se
da´ atrave´s da troca na\u2dco mais de signos e sim de s´\u131mbolos, e por elaborac¸a\u2dco
das atividades rituais aferentes a estes. Pois, pelo que se sabe, se os animais
sa\u2dco capazes de muitas coisas, nunca se viu algum soprar as velas de seu bolo
de aniversa´rio. E´ a raza\u2dco pela qual, se pode haver uma sociologia animal
(e ate´, repetimo-lo, celular), a antropologia e´ por sua vez especificamente
humana.
Fechemos aqui esse pare\u2c6ntese, que na\u2dco nos afasta de forma alguma do nosso
propo´sito, mas, pelo contra´rio, define-o melhor, e examinemos mais adiante
1Muito mais afirmada pore´m na antropologia cultural do que na antropologia social.
97
os trac¸os marcantes dessa antropologia que qualifica a si pro´pria de cultural.
Deter-nos-emos em tre\u2c6s deles, que esta\u2dco, como veremos, estreitamente liga-
dos entre si.
1) A antropologia cultural estuda os caracteres distintivos das condutas dos
seres humanos pertencendo a uma mesma cultura, considerada como uma
totalidade irredut´\u131vel a` outra. Atenta a`s descontinuidades (temporais, mas
sobretudo espaciais), salienta a originalidade de tudo que devemos a` socie-
dade a` qual pertencemos.
2) Ela conduz essa pesquisa a partir da observac¸a\u2dco direta dos comporta-
mentos dos indiv´\u131duos, tais como se elaboram em interac¸a\u2dco com o grupo e o
meio no qual nascem e crescem estes indiv´\u131duos. Procurando compreender
a natureza dos processos de aquisic¸a\u2dco e transmissa\u2dco, pelo indiv´\u131duo, de uma
cultura, sempre singular (a forma como esta na\u2dco apenas informa, mas modela
o comportamento dos indiv´\u131duos, sem que estes o percebam), encontra va´rias
preocupac¸o\u2dces comuns aos psico´logos, psicanalistas e psiquiatras. Utiliza por-
tanto frequ¨entemente os modelos conceituais destes, bem como suas te´cnicas
de investigac¸a\u2dco (por exemplo, os testes projetivos, utilizados pela primeira
vez em etnologia por Cora du Bois). Assim, esse campo de pesquisa, desig-
nado pela expressa\u2dco \u201dcultura e personalidade\u201d, extremamente desenvolvido
nos Estados Unidos e relativamente negligenciado na Franc¸a e Gra\u2dc-Bretanha,
impo\u2dce-se, a partir dos anos 30, como uma das a´reas da antropologia na qual
a colaborac¸a\u2dco pluridisciplinar se torna sistema´tica.
3) Finalmente, a antropologia cultural estuda o social em sua evoluc¸a\u2dco, e
particularmente sob o a\u2c6ngulo dos processos de contato, difusa\u2dco, interac¸a\u2dco e
aculturac¸a\u2dco, isto e´, de adoc¸a\u2dco (ou imposic¸a\u2dco) das normas de uma cultura por
outra.
* * *
Um certo nu´mero de obras representativas dessa abordagem \u2013 escritas em
sua maior parte por americanos 2 \u2013 merece ser citado. 1927: Margaret Mead
2Notemos pore´m que a contribuic¸a\u2dco dos pesquisadores franceses na a´rea da antropologia
cultural esta´ longe de ser negligencia´vel. Citemos notadamente, para o per´\u131odo contem-
pora\u2c6neo, os trabalhos de Ortigues (1966), Erny (1972), J. Rabain (1979) e lembremos a
influe\u2c6ncia considera´vel que exerceu e continua exercendo Roger Bastide (1950, 1965, 1972)
que pode ser considerado como o mestre da antropologia cultural francesa.
98 CAPI´TULO 9. A ANTROPOLOGIA CULTURAL:
publica Corning of Age in Samoa, que sera´ retomado em Ha´bitos e Sexuali-
dade na Oceania, em 1935, um livro que foi um marco. 1934: Amostras de
Civilizac¸a\u2dco, de Ruth Benedict, certamente a obra mais caracter´\u131stica do cul-
turalismo americano; 1939: Kardiner, O Indiv´\u131duo e Sua Sociedade-, 1943:
Roheim, Origem e Func¸a\u2dco da Cultura, que desenvolve a ide´ia de que a cultura
e´ uma sublimac¸a\u2dco decorrente da imperfeic¸a\u2dco do feto humano ao nascer; 1944:
Cora du Bois, O Povo de Alor; 1945: Linton, Os Fundamentos Culturais da
Personalidade: 1949: Herskovitz, As Bases da Antropologia Cultural; 1950:
Roheim, Psicana´lise e Antropologia. . .
O que mostram essas diferentes obras, sempre baseadas em numerosas ob-
servac¸o\u2dces, e´ que conve´m na\u2dco atribuir a` natureza o que diz respeito a` cultura;
ou seja, na\u2dco considerar como universal o que e´ relativo.3Essa compreensa\u2dco
da irredut´\u131vel diversidade das culturas que e´ o eixo central da antropologia
cultural \u2013 aparece ao mesmo tempo: 1) ao n´\u131vel dos trac¸os singulares dos
comportamentos; 2) ao n´\u131vel da totalidade da nossa personalidade cultural,
qualificada por Kardiner de \u201dpersonalidade de base\u201d. Como essa corrente de
pesquisa, que procuraremos apresentar o mais fielmente poss´\u131vel, multiplica-
remos os exemplos.
1) A variac¸a\u2dco cultural pode ser encontrada em cada um dos aspectos de
nossas atividades. Assim, a maneira com que descansamos. Nas sociedades
nas quais os homens dormem diretamente no. solo, dificilmente suportam
a maciez de um colcha\u2dco. Inversamente, sentimos dificuldade em dormir \u2013
como me aconteceu no Brasil \u2013 em uma rede, e na\u2dco nos passaria pela cabec¸a
descansar, como alguns na A´sia. apoiando-nos em uma so´ perna.
Tomemos um outro exemplo: a divisa\u2dco do trabalho entre os sexos. Nas
sociedades do Oeste africano, as mulheres se dedicam a` cera\u2c6mica, enquanto
os homens va\u2dco para a roc¸a, quando, na ilha de Alor, sa\u2dco as mulheres que
cultivam a terra enquanto os homens cuidam da educac¸a\u2dco das crianc¸as. As-
sim como na sociedade Chaumbuli, na qual os homens se dedicam aos filhos,
enquanto as mulheres va\u2dco pescar.
Consideremos agora os comportamentos adotados para penetrar nos edif´\u131cios
religiosos. Na Europa, ao penetrar numa igreja, observamos que os fie´is tiram
o chape´u e permanecem com os sapatos. Inversamente, em uma mesquita,
os muc¸ulmanos tiram os sapatos e permanecem com o chape´u.
3Como mostrei em meu livro sobre A Etnopsiquiatria, este ultimo comenta´rio deve
porem ser relativizado no que diz respeito a Rohem.
99
As formas de hospitalidade tambe´m testemunham de uma extrema diversi-
dade podendo, como no exemplo acima, consistir na inversa\u2dco pura e simples
daquilo que toma´vamos espontaneamente por natural. Assim, fiquei pessoal-
mente impressionado, durante minha primeira estadia em pa´\u131s Bau´le (Costa
do Marfim), como ho´spede, com o convite que me era sistematicamente feito
de uma refeic¸a\u2dco preparada em minha homenagem, mas que devia ser consu-
mida isoladamente, isto e´, em um co\u2c6modo e separadamente de meus hospe-
deiros, os quais, por outro lado, reservavam-me um presente muito inesperado
para um ocidental, que na\u2dco era nada menos que a filha mais bonita da casa.
Diferenc¸as significativas, decorrentes da cultura a` qual pertencemos, po-
dem tambe´m ser encontradas nos menores detalhes dos nossos comporta-
mentos mais cotidianos. Assim, nas sociedades a´rabes, sul-americanas e sul-
europe´ias, desviar o olhar e´ considerado como um sinal de ma´ educac¸a\u2dco,
enquanto que nas sociedades asia´ticas e norte-europe´ias, olhar fixamente
algue´m com insiste\u2c6ncia causa um inco\u2c6modo que se traduz por uma impressa\u2dco
de ameac¸a e agressividade.
A saudac¸a\u2dco visual consistindo em levantar rapidamente as sobrancelhas, ace-
nar a cabec¸a e sorrir, assinala um encontro amiga´vel na Nova Guine´ ou na
Europa, mas e´ censurada por ser considerada indecente no Japa\u2dco. As trocas
de contatos cuta\u2c6neos entre dois interlocutores sa\u2dco extremamente reduzidas
nos pa´\u131ses anglo-saxo\u2c6nicos assim como no Japa\u2dco. Impo\u2dce-se pelo contra´rio,
como expressa\u2dco normal do prazer de encontrar o outro nas sociedades medi-
terra\u2c6neas e sul-americanas. Esses mesmos interlocutores, sentados no terrac¸o
de um bar ou passeando na rua, ira\u2dco manter um certo espac¸o entre si na
Europa