Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


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\u201dapreender uma realidade imanente ao homem, colocam-se aque´m de todo
indiv´\u131duo e de toda sociedade\u201d.
O exemplo da primeira obra de Bateson, A Cerimo\u2c6nia do Naven (1936)
parece-me particularmente revelador. Em primeiro lugar, devido a` sila exige\u2c6ncia
de pluridisciplinaridade (e. especialmente, de pluridisciplinaridade entre a
abordagem etnolo´gica e psicolo´gica),1 mas que na\u2dco e´ concebida, de forma
alguma, a` maneira da antropologia cultural. O autor estuda os diferentes
tipos poss´\u131veis de relac¸o\u2dces dos indiv´\u131duos para com a sociedade e, mais espe-
cificamente, as reac¸o\u2dces dos indiv´\u131duos frente a`s reac¸o\u2dces de outros indiv´\u131duos.
Em seguida, e sobretudo, por seu cara´ter inovador no campo da antropolo-
gia anglo-saxo\u2c6nica da e´poca, caracterizada notadamente pela monografia. A
partir da cultura dos latmul da Nova Guine´, mas ale´m dessa cultura, o que
interessa Bateson, e´ a possibilidade de aceder a uma teoria transcultural,
cujos conceitos podera\u2dco ser utilizados na com preensa\u2dco de outras socieda-
des. Ora, ningue´m insistiu mais que Le´vi-Strauss e Devereux sobre o fato de
1Essa problema´tica, que e´ o eixo de toda a obra de Devereux e´ tambe´m uma das
preocupac¸o\u2dces maiores de Le´vi-Strauss, que escreve em La Pense´e Sauvage que \u201da etnologia
e´ antes uma psicologia
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que as culturas particulares na\u2dco podiam antropologicamente ser apreendidas
sem refere\u2c6ncia a` \u201dcultura\u201d(Devereux), \u201desse capital comum\u201d(Le´vi-Strauss)
que utilizamos para elaborar nossas experie\u2c6ncias tanto individuais como co-
letivas. Disso decorre o cara´ter claramente \u201dmetacultural\u201d(Devereux) desse
pensamento, que esta´ rigorosamente no oposto do \u201dculturalismo\u201d, e emi-
nentemente fundador da possibilidade da comunicac¸a\u2dco tanto intersubjetiva
quanto intercultural.
5) Quer´\u131amos finalmente insistir sobre o fato de que essas diferentes abor-
dagens sa\u2dco abordagens da totalidade, refrata´rias a qualquer atitude reduci-
onista, isto e´, considerando apenas um aspecto parcelar da realidade social,
atrave´s de um instrumento u´nico. Para Le´vi-Strauss como para Bateson,
na\u2dco existem nunca relac¸o\u2dces de causalidade unilinear entre dois feno\u2c6menos,
e sim \u201dcorrelac¸o\u2dces funcionais\u201d. E se a abordagem da etnopsiquiatria em
relac¸a\u2dco a` da antropologia estrutural ou siste\u2c6mica e´ claramente anal´\u131tica, e
na\u2dco sinte´tica, enquadra-se dentro de uma epistemologia da complementari-
dade, fundada sobre a necessidade da articulac¸a\u2dco de enfoques habitualmente
tomados como separados. Por todas essas razo\u2dces, a antropologia assim con-
siderada e´, de acordo com o termo proposto por Jean-Marie Auzias (1976),
um \u201dpensamento dos conjuntos\u201d, preocupado em na\u2dco deixar escapar nada na
investigac¸a\u2dco do social, e, por isso, inventivo de modelos que conve´m qualificar
de \u201dcomplexos\u201d.
A abordagem de Le´vi-Strauss ocupara´ portanto agora nossa atenc¸a\u2dco. Essa
abordagem procede de uma se´rie de rupturas radicais.
1) Ruptura em primeiro lugar com o humanismo e a filosofia, isto e´, as
ideologias do sujeito considerado enquanto fonte de significac¸o\u2dces. A meto-
dologia estrutural inverte a ordem dos termos em que se apoiava a filosofia.
O sentido na\u2dco esta´ mais dessa vez ligado a` conscie\u2c6ncia, a qual se ve\u2c6 descen-
trada pelo projeto estrutural, como pelo projeto freudiano. Rompendo com a
tagarelice do sujeito, \u201dessa crianc¸a mimada da filosofia\u201d, como escreve Le´vi-
Strauss, as significac¸o\u2dces devem ser doravante buscadas no \u201dele\u201dda lingu¨´\u131stica,
como no \u201did\u201dda psicana´lise. Ou seja, eu sou pensado, sou falado, sou agido,
sou atravessado por estruturas que me preexistem. Assim, a antropologia
como a psicana´lise intro-duzem uma crise na epistemologia da racionalidade:
o lugar atribu´\u131do ao sujeito transcendental e´ questionado pela irrupc¸a\u2dco da
problema´tica do inconsciente.
2) Ruptura em relac¸a\u2dco ao pensamento histo´rico: o evolucionismo, e´ claro,
mas tambe´m qualquer forma de historicismo. Para este u´ltimo, que e´ ne-
108CAPI´TULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTE\u2c6MICA:
cessariamente gene´tico, explicar e´ procurar uma anterioridade, isto e´, tentar
compreender o presente atrave´s do passado. A` ana´lise dos processos em ter-
mos de explicac¸a\u2dco causai, opo\u2dce-se a inteligibilidade estrutural, inteligibilidade
combinato´ria de uma instituic¸a\u2dco, de um comportamento, de um relato. . .
3) Ruptura com o atomismo, que considera os elementos independentemente
da totalidade. O modelo do estruturalismo sendo lingu¨´\u131stico, o sentido de
um termo so´ pode ser compreendido dentro de sua relac¸a\u2dco a`s outras palavras
da l´\u131ngua ou do que for ana´logo a esta.
4) Ruptura, finalmente, com o empirismo. \u201dPara alcanc¸ar o real, e´ pre-
ciso primeiro repudiar o vivido\u201d, diz Le´vi-Strauss em Tristes Tro´picos. Ou
seja, o objeto cient´\u131fico deve ser arrancado da experie\u2c6ncia da impressa\u2dco, da
percepc¸a\u2dco esponta\u2c6nea. Para isso, conve´m colocar-se ao n´\u131vel na\u2dco mais da
palavra e sim da l´\u131ngua, na\u2dco mais, voltaremos a isso, da histo´ria consciente
do que fazem os homens, e sim do sistema que ignoram. E´ toda a diferenc¸a
entre o estruturalismo ingle\u2c6s e o estruturalismo france\u2c6s. Para Le´vi-Strauss,
Radcliffe-Brown confunde a estrutura social e as relac¸o\u2dces sociais. Ora. estas
sa\u2dco apenas os materiais utilizados para alcanc¸ar a estrutura, a qual na\u2dco tem
como objetivo substituir-se a` realidade e sim explica´-la. Mais precisamente,
uma estrutura e´ um sistema de relac¸o\u2dces suficientemente distante do objeto
que se estuda para que possamos reencontra´-lo em objetos diferentes.
* * *
Assim, atrave´s da inversa\u2dco epistemolo´gica que realiza, abrindo uma compre-
ensa\u2dco nova da sociedade, o pensamento estrutural nos mostra que a extra-
ordina´ria variedade das relac¸o\u2dces emp´\u131ricas so´ se torna intelig´\u131vel a partir do
momento em que percebemos que existe apenas um nu´mero limitado de es-
truturac¸o\u2dces poss´\u131veis dos materiais culturais que encontramos, um nu´mero
limitado de invariantes. As relac¸o\u2dces de alianc¸a entre homens e mulheres pa-
recem, a primeira vista, praticamente infinitas. Mas oscilam sempre entre
alguns grupos: comunismo sexual, levirato, sororato, casamento por rapto,
poligamia, monogamia, unia\u2dco livre. Da mesma forma, as relac¸o\u2dces dos ho-
mens com a divindade sempre se organizam a partir de um pequeno nu´mero
de opc¸o\u2dces poss´\u131veis: o monote´\u131smo, polite´\u131smo, mante´\u131smo, ate´\u131smo, agnos-
ticismo.
Foi a partir do campo do parentesco que se constituiu o estruturalismo de
Le´vi-Strauss. Para este, o parentesco e´ uma linguagem. Na\u2dco se pode compre-
ende\u2c6-lo efetuando a ana´lise ao n´\u131vel dos termos (o pai, o filho, o tio materno
em uma sociedade matrilinear. . .), muito menos ao n´\u131vel dos sentimentos
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que podem animar os diferentes membros da fam\u131´lia. E´ preciso colocar-se
no n´\u131vel das relac¸o\u2dces entre estes termos, regidas por regras de troca ana´logas
a`s leis sinta´ticas da l´\u131ngua. Mas a ana´lise estrutural das relac¸o\u2dces de alianc¸a
e parentesco esta´ longe de ser a aplicac¸a\u2dco pura e simples de um modelo (o
da lingu¨´\u131stica). Quando se estuda o parentesco, a linguagem ou a economia,
estamos na realidade frente a diferentes modalidades de uma u´nica e mesma
func¸a\u2dco: a comunicac¸a\u2dco (ou a troca), que e´ a pro´pria cultura emergindo da
natureza para introduzir uma ordem onde esta u´ltima na\u2dco havia previsto
nada. Mais precisamente, a reciprocidade \u2013 que e´ a troca atuando e que
exige uma teoria da comunicac¸a\u2dco \u2013 pode ser localizada em va´rios n´\u131veis:
\u2022 ao n´\u131vel da cultura: e´ a troca de mulheres (parentesco), de palavras
(lingu¨´\u131stica), de bens (economia), mulheres, palavras e bens sendo ter-
mos que se trocam, informac¸o\u2dces que se comunicam;2
\u2022 no ponto de encontro entre a natureza e a cultura, isto e´, ao n´\u131vel de
um inconsciente estrutural, que, ale´m da continge\u2c6ncia dos materiais
programados, reorganiza incessantemente estes mesmos materiais.
Dois exemplos