Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.211 seguidores
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a que Le´vi-Strauss recorre va´rias vezes em sua obra, permitem
compreender essa inversa\u2dco de perspectiva que realiza a metodologia estrutu-
ral. Sa\u2dco os exemplos do baralho e do caleidosco´pio:
\u201dO homem e´ semelhante ao jogador pegando na ma\u2dco, ao sentar a` mesa,
cartas que na\u2dco inventou, ja´ que o jogo de baralho e´ um dado da histo´ria
e da civilizac¸a\u2dco. Fm segundo lugar, cada repartic¸a\u2dco das cartas resulta de
uma distribuic¸a\u2dco contingente entre os jogadores, e se da´ independentemente
da vontade de cada um. Existem as distribuic¸o\u2dces que sa\u2dco sofridas, mas que
cada sociedade, como cada jogador, interpreta nos termos dc va´rios sistemas,
que podem ser comuns ou particulares: regras de um jogo, ou regras de uma
ta´tica. E sabe-se bem que, com a mesma distribuic¸a\u2dco, jogadores diferentes
na\u2dco fornecera\u2dco a mesma partida, embora na\u2dco possam, compelidos tambe´m
pelas regras, fornecer com uma determinada distribuic¸a\u2dco qualquer partida\u201d.
\u201dEm um caleidosco´pio, a combinac¸a\u2dco de elementos ide\u2c6nticos sempre da´ no-
vos resultados. Mas e´ porque a histo´ria dos historiadores esta´ presente nele
\u2013 nem que seja na sucessa\u2dco de chacoalhadas que provocam as reorganizac¸o\u2dces
2\u201dAs pro´prias mulheres\u201d, escreve Le´vi-Strauss. \u201dsa\u2dco tratadas como signos dos quais se
abusa quando na\u2dco se da´ a elas o uso reservado aos signos, que e´ de serem comunicados\u201d.
E a antropologia tem como tarefa a de estabelecer as regras da troca, diferentes dc uma
sociedade para outra, mas que permanecem em todos os casos independentes da natureza
dos parceiros
110CAPI´TULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTE\u2c6MICA:
da estrutura \u2013 e as chances para que reaparec¸a duas vezes o mesmo arranjo
sa\u2dco praticamente nulas.\u201d
Todo o programa e toda a abordagem do estruturalismo esta\u2dco nesses dois
textos:
1) a existe\u2c6ncia de um certo nu´mero de materiais culturais sempre ide\u2c6nticos,
que, como as cartas ou os elementos do caleidosco´pio, podem ser qualificados
de invariantes;
2) as diferentes estruturac¸o\u2dces poss´\u131veis destes materiais (isto e´, as manei-
ras com as quais se organizam entre si quando passamos de uma cultura
para outra, ou de uma e´poca outra) que na\u2dco esta\u2dco em nu´mero ilimitado, pois
sa\u2dco comandadas pelo que Le´vi-Strauss chama de \u201dleis universais que regem
as atividades inconscientes do esp´\u131rito\u201d;
3) finalmente, compara´veis a` aplicac¸a\u2dco de leis gramaticais, o pro´prio de-
senrolar do jogo de baralho ou os movimentos do caleidosco´pio que na\u2dco para
de girar, com algue´m que observa esse processo \u2013 o etno´logo \u2013 dirigindo, no
caso do autor de Tristes Tro´picos, sobre o que percebe, um olhar que conve´m
qualificar de este´tico.
Le´vi-Strauss na\u2dco ignora a diversidade das culturas \u2013 ja´ que procurara´ preci-
samente dar conta dela \u2013 nem a histo´ria. Mas, de um lado desconfia de um
\u201decletismo apressado\u201dque confundiria as tarefas e misturaria os programas\u201d.
E, de outro, considera que para compreender o movimento das sociedades e´
preciso na\u2dco se situar ao n´\u131vel da conscie\u2c6ncia que o Ocidente tem da histo´ria.
Essa conscie\u2c6ncia histo´rica do \u201dprogresso\u201dna\u2dco carrega consigo nenhuma ver-
dade, e´ um mito que conve´m estudar como os outros mitos, isto e´, estendendo
no espac¸o aquilo que o historiador percebe como escalonado no tempo.
Tal e´ o significado do conceito de estrutura que Pouil-lon (1966) define como
\u201da sintaxe das transformac¸o\u2dces que In/em passar de uma variante para ou-
tra\u201d, pois \u201de´ essa sintaxe que da´ conta de seu nu´mero limitado, da explorac¸a\u2dco
restrita das possibilidades teo´ricas\u201d. Ou seja, a histo´ria e´ um jogo no qual
a identidade dos parceiros tem menos importa\u2c6ncia que as partidas jogadas,
e mais ainda as regras das partidas joga´veis. Ao comentar o pensamento
de Le´vi-Strauss, Pouillon recorre notadamente a` dupla meta´fora do bridge e
do jogo de xadrez. Enquanto no bridge e´ indispensa´vel conhecer as cartas
que acabaram de ser jogadas, no xadrez, qualquer posic¸a\u2dco do jogo pode ser
compreendida sem que se tenha conhecimento das jogadas anteriores. Ora,
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Le´vi-Strauss considera que o esta´gio da partida jogada pelas sociedades oci-
dentais e´ hoje desastroso, enquanto que as que foram jogadas pelas sociedades
que se insiste em qualificai de \u201dprimitivas\u201dsa\u2dco infinitamente mais humanas.
112CAPI´TULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTE\u2c6MICA:
Cap´\u131tulo 11
A Antropologia Dina\u2c6mica:
A antropologia cultural insiste ao mesmo tempo sobre a diferenc¸a das cul-
turas umas em relac¸a\u2dco a`s outras, e sobre a unidade de cada uma delas. A
antropologia que qualificamos de simbo´lica abre, notadamente atrave´s de
sua reivindicac¸a\u2dco antietnocentrista, uma perspectiva muito pro´xima da an-
terior, mas que se empenha em explorar particularmente um certo nu´mero
de conteu´dos materiais (os mitos, os ritos) e de estruturas formais (a espe-
cificidade das lo´gicas do conhecimento expressando-se notadamente atrave´s
das l´\u131nguas). A antropologia estrutural, por sua vez, faz aparecer, como
acabamos de ver, uma identidade formal (um inconsciente universal) infor-
mando uma multiplicidade de conteu´dos materiais diferentes. O u´ltimo po´lo
do pensamento e da pra´tica antropolo´gicos que estudaremos agora aparece
como ao mesmo tempo pro´ximo e diferente da antropologia social cla´ssica.
Pro´ximo, porque evidencia a articulac¸a\u2dco de diferentes n´\u131veis do social dentro
de uma determinada cultura. Diferente, porque opera uma ruptura total com
a concepc¸a\u2dco de Malinowski ou de Durkheim, mas tambe´m de Le´vi-Strauss,
de sociedades (\u201dprimitivas\u201d, \u201dselvagens\u201dou \u201dtradicionais\u201d)harmoniosas e in-
tegradas, em proveito do estudo dos processos de mudanc¸a, ligados tanto ao
dinamismo interno que e´ caracter´\u131stico de toda sociedade, quanto a`s relac¸o\u2dces
que mante\u2c6m necessariamente as sociedades entre si.
O que caracteriza essencialmente as diferentes tende\u2c6ncias dessa antropologia
que qualificamos aqui de dina\u2c6mica, e´ sua reac¸a\u2dco comum frente a` orientac¸a\u2dco,
do seu ponto de vista conservadora, que pode ser encontrada dentro dos qua-
tro po´los de pesquisa que, para maior clareza, acabamos de distinguir. Prati-
camente, de fato, todas as perspectivas etnolo´gicas que se elaboram a partir
dos anos 30 (a antropologia social, simbo´lica, cultural) e que conhecem, para
muitas, uma renovac¸a\u2dco durante os anos 50, com o impulso particularmente
da ana´lise estrutural, esta\u2dco animadas por uma abordagem claramente anti-
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114 CAPI´TULO 11. A ANTROPOLOGIA DINA\u2c6MICA:
evolucionista. O cara´ter especulativo da antropologia dominante do se´culo
passado explica em grande parte essa reac¸a\u2dco a-histo´rica de nossa disciplina.
No entanto, tudo se passa frequ¨entemente como se as sociedades preferen-
cial, ou ate´ exclusivamente estudadas pela maioria dos antropo´logos do se´culo
XX, fossem isentas de relac¸o\u2dces com seus vizinhos, existissem dentro de um
quadro econo\u2c6mico e geogra´fico mundial, e ignorassem tudo das contradic¸o\u2dces,
dos antagonismos e das rupturas que seriam pro´prias apenas das sociedades
ocidentais.
Insistindo tanto sobre a natureza repetitiva e rotineira das sociedades vistas
como imo´veis ou, como diz Le´vi-Strauss, \u201dpro´ximas do grau zero de tempera-
tura histo´rica\u201d, chega-se a considerar anormal a transformac¸a\u2dco. E dissocia-se,
por isso mesmo, um nu´cleo considerado essencial, u´nico objeto da \u201dcie\u2c6ncia\u201d(a
integridade, estabilidade e harmonia dos grupos humanos que souberam pre-
servar uma arte de viver), e uma sujeic¸a\u2dco julgada acidental (as peripe´cias
da reac¸a\u2dco com o colonialismo), Essa separac¸a\u2dco artificial de um objeto que
poderia ser apreendido em estado puro, pois estaria cm si ainda puro de qual-
quer esco´ria da modernidade, e de um contexto (os grandes acontecimentos
mundiais do se´culo XX) considerado como aleato´rio, so´ e´ poss´\u131vel porque se
consegue enquadrar o feno\u2c6meno assim recortado nos moldes de um quadro
teo´rico que funciona,