Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.212 seguidores
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em muitos aspectos, como uma ocultac¸a\u2dco da realidade.
Pois as sociedades emp´\u131ricas a`s quais o etno´logo do se´culo XX e´ confrontado
na\u2dco sa\u2dco nunca essas sociedades atem porais inencontra´veis, ficticiamente ar-
rancadas da histo´ria, e sim sempre sociedades\u2019 em plena mutac¸a\u2dco, nas quais,
pegando apenas um exemplo, as misso\u2dces cato´licas e protestantes abalaram
ha´ muito tempo o edif´\u131cio das religio\u2dces tradicionais Recusando-se a tomar
em considerac¸a\u2dco a amplitude e a profundidade das mudanc¸as sociais, somos
levados a apagar tudo o que na\u2dco entra no quadro que se pretende estudar
\u2013um pouco como nesses filmes magn´\u131ficos sobre os \u131´ndios da Amazo\u2c6nia ou
os abor´\u131gines da Austra´lia, em que evacuam-se as garrafas de Coca-Cola e
tanques de gasolina da Standard Oil para preservar a beleza das imagens.
Mas enta\u2dco, devemos temer que essa quase-transmutac¸a\u2dco este´tica, essa preo-
cupac¸a\u2dco que tem o etno´logo na realidade, menos em realizar ele pro´prio uma
obra de arte do que contemplar modos de vida que seriam em si obras de
arte (de Malinowski a Le´vi-Strauss, passando por Griaule e Margaret Mead),
fac¸a esquecer a realidade das relac¸o\u2dces sociais.
Ora, e´ precisamente contra essa tende\u2c6ncia do pensamento etnolo´gico que
um certo nu´mero de antropo´logos contempora\u2c6neos se levantam. A partir de
uma cr´\u131tica vigorosa tanto do funcionalismo quanto do estruturalismo, toda
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sua abordagem consiste, de acordo com as palavras de Paul Mercier (1966),
em aceitar \u201da morte do primitivo\u201de \u201dreabilitar\u201da mudanc¸a. Para eles, esta
na\u2dco e´ mais de forma alguma apreendida como a destruic¸a\u2dco de uma identi-
dade que se caracteriza por um estado de equil´\u131brio e harmonia. Ou seja,
conve´m deixar de ter uma compreensa\u2dco negativa da mudanc¸a social, pois esta
e´ co-extensiva ao pro´prio social, e deve, portanto, se tornar um dos pontos
centrais da ana´lise do social. A consequ¨e\u2c6ncia desse novo enfoque e´ o desa-
parecimento da oposic¸a\u2dco, essencial para Le´vi-Strauss, e.\u2019.tre as \u201dsociedades
frias\u201de as \u201dsociedades quentes\u201d; desaparecimento que pode levar a` recusa de
uma outra distinc¸a\u2dco que tambe´m deixa de ser reconhecida como pertinente:
a da antropologia e da sociologia.1 Esse neo-evolucionismo, particularmente
forte nos Estados Unidos; e do qual encontramos uma das mais importantes
realizac¸o\u2dces nos trabalhos de Marshall Sahlins (1980), insiste notadamente
sobre o seguinte ponto: prolongar a problema´tica, ja´ instaurada por Morgan
ha´ um se´culo, mas sobre bases dessa vez indiscutivelmente etnolo´gicas, que
na\u2dco devem mais nada a`s reconstituic¸o\u2dces hipote´ticas do se´culo XIX e que per-
mitem pensar numa evoluc¸a\u2dco resolutamente \u201dplural\u201dda humanidade.
Na\u2dco e´ evidentemente poss´\u131vel, dentro do quadro limita do desse trabalho,
dar conta da riqueza e diversidade das pesquisas que de uma forma ou de
outra participam hoje do desenvolvimento extremamente ativo dessa antro-
pologia que qualificamos de dina\u2c6mica. Seria conveniente, por exemplo, falar
dos trabalhos de Max Gluckman (1966), de Jacques Bergue (1964), ou ainda,
da contribuic¸a\u2dco de um certo nu´mero de antropo´logos franceses de orientac¸a\u2dco
marxista, que notadamente renovaram, durante os u´ltimos 25 anos, a a´rea
1Se praticamente toda a antropologia do se´culo XX teve tende\u2c6ncia, ate´ recentemente,
a considerar que as sociedades \u201dtradicionais\u201dsa\u2dco sociedades imuta´veis, tal tende\u2c6ncia
e´ provavelmente mais forte na franc¸a, devido notadamente a` preocupac¸a\u2dco de muitos
etno´logos de nosso pa´\u131s em relac¸a\u2dco aos sistemas m\u131´tico-cosmolo´gicos. Disso decorre
a reac¸a\u2dco que leva na Franc¸a um certo nu´mero de pesquisadores (Baslide. Desroclic,
Balandier, Thomas...) a libertarem-se desse ponto de vista considerado passadista e a
preferirem a terminologia de \u201dsociologia\u201d.
Uma das correntes contempora\u2c6neas mais marcantes desse pensamento e´ certamente
a que nasceu nos Estados Unidos, durante os anos 50, com o impulso de Leslie White
(1959), e que qualifica a si pro´pria de neo-evolucionismo. Este realiza, em primeiro lugar,
uma releitura e uma reabilitac¸a\u2dco da obra de Morgan, relegada ate´ enta\u2dco, pela maioria
dos pesquisadores, ao esquecimento. Descobre assim que essa obra conte´m uma intuic¸a\u2dco
fecunda que conve´m explorar: na\u2dco se trata, e´ claro, dessa \u201dperiodizac¸a\u2dco\u201dsistema´tica, sobre
a qual os adversa´rios do antropo´logo americano tanto insistiram para desacredita´-lo, mas
de sua descoberta de uma indissociabilidade de n´\u131veis do social (a tecnologia, a ecologia,
a fam\u131´lia, as instituic¸o\u2dces pol´\u131ticas, a religia\u2dco) estreitamente imbricadas, formando o que o
pro´prio Morgan chama de \u201destruturas\u201d, que evoluem dentro de per´\u131odos sucessivos.2
116 CAPI´TULO 11. A ANTROPOLOGIA DINA\u2c6MICA:
da antropologia econo\u2c6mica.3 Dois autores ira\u2dco deter mais demo-radamente
nossa atenc¸a\u2dco: Georges Balandier e Roger Bastide.
Uma das preocupac¸o\u2dces de Balandier, desde a publicac¸a\u2dco de suas primeiras
obras sobre a A´frica negra (1955), e´ mostrar que conve´m interessar-se para to-
dos os atores sociais presentes (na\u2dco mais apenas os \u201dind´\u131genas\u201d, mas tambe´m
os missiona´rios, os administradores e outros agentes da colonizac¸a\u2dco), pois to-
dos fazem parte do campo de investigac¸a\u2dco do pesquisador. Por outro lado,
Balandier nos propo\u2dce uma cr´\u131tica radical da noc¸a\u2dco de \u201dintegrac¸a\u2dco\u201dsocial,
que seria localiza´vel a partir da observac¸a\u2dco de grupos sociais \u201dpreservados\u201d.
Considera, pelo contra´rio, que toda sociedade e´ \u201dproblema´tica\u201d. Ou seja, da
mesma forma que Griaule havia, como dissemos, mostrado que o complexo
na\u2dco e´ um produto derivado de formas originais \u2013 que seriam, por sua vez,
simples \u2013 Balandier considera que na\u2dco se deve opor uma ine´rcia \u2013 para ele
absolutamente fict´\u131cia \u2013 que seria perturbada de fora por um dinamismo,
caracter´\u131stico apenas das nossas sociedades. Mas a comparac¸a\u2dco entre Gri-
aule e Balandier pa´ra evidentemente a´\u131. O primeiro efetua o levantamento
de uma tradic¸a\u2dco ancestral, concebida por ele como quase imuta´vel, enquanto
o segundo coloca as bases de uma teoria da mudanc¸a social, que o levara´ a
empreender, no decorrer de suas obras a constituic¸a\u2dco de uma antropologia
da modernidade.
Essa perspecitva de um estudo da mudanc¸a social integrado ao pro´prio ob-
jeto de investigac¸a\u2dco do pesquisador na\u2dco tinha sido. na realidade, totalmente
ausente da cena antropolo´gica da metade do se´culo XX. Conve´m lembrar
que, antes mesmo da Primeira Guerra Mundial, Malinowski, renunciando a`
atitude \u201droma\u2c6ntica\u201dque era sua na e´poca de suas estadias nas ilhas Trobri-
and, envolve-se, no final de sua vida, em uma perspectiva dina\u2c6mica (1970).
E o mesmo se da´, na mesma e´poca e em muitos aspectos, para a reflexa\u2dco
de Margaret Mead, assim como para os trabalhos da antropologia cultural
que se desenvolve durante o po´s-guerra. Mas os conceitos que sa\u2dco enta\u2dco uti-
lizados (especialmente nos Estados Unidos) para dar conta da mudanc¸a, sa\u2dco
sempre conceitos neutros, dissimulando uma realidade colonial. Fala-se em
\u201dcontatos culturais\u201d, \u201dchoques culturais\u201d, e sobretudo em \u201daculturac¸a\u2dco\u201d, ter-
minologia que fara´ sucesso. Balandier propo\u2dce a substituic¸a\u2dco pura e simples
deste u´ltimo termo pelo de \u201dsituac¸a\u2dco colonial\u201d, que implica a realidade de
uma relac¸a\u2dco social de dominac¸a\u2dco, quase sempre sistematicamente ocultada
na antropologia cla´ssica.
3Cf. Cl. Meillassoux (1964), E. Terray (1969), P. P Rey (1971), M. Godelier (1973)
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A partir disso, na\u2dco se fala mais em primitivos ou selvagens e sim em \u201dpovos
colonizados\u201d, enquanto o processo da colonizac¸a\u2dco, e depois, da descolonizac¸a\u2dco
se torna parte integrante do campo que se deve estudar. Esse processo, ou
outros semelhantes, e´ que nos permitem apreender na\u2dco apenas as mudanc¸as
estruturais em andamento, mas as respostas a`s mudanc¸as tais como se ela-
boram, por exemplo, nas metro´poles congolesas, sob a forma de movimentos
messia\u2c6nicos (Balandier,