Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.212 seguidores
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1955),4 ou tais como estou observando neste mo-
mento em Fortaleza, no Nordeste do Brasil, sob a forma de cultos sincre´ticos.
A obra de Roger Bastide aparece ao mesmo tempo muito pro´xima e muito di-
ferente da anterior. Muito diferente cm primeiro lugar, porque a abordagem
desse autor inscreve-se claramente, como vimos acima, no horizonte da an-
tropologia cultural. Mas Bastide, tanto quanto Balandier, procura incluir os
diferentes protagonistas sociais no campo de seu objeto de estudo. Ademais,
tambe´m insiste, de um lado, sobre as mudanc¸as sociais ligadas a` dina\u2c6mica
pro´pria de uma determinada cultura; de outro, sobre a interpenetrac¸a\u2dco das
civilizac¸o\u2dces, que provoca um movimento de transformac¸o\u2dces ininterruptas.
Todas essas pesquisas, mais uma vez frequ¨entemente muito diferentes uma
das outras, inscrevem-se plenamente no projeto mesmo da antropologia, que
e´ dar conta das variac¸o\u2dces, isto e´, notadamente das mudanc¸as. Uma de suas
maiores contribuic¸o\u2dces e´ de ter participado de forma considera´vel do desloca-
mento das preocupac¸o\u2dces tradicionais dos etno´logos, e de ter aberto novos lu-
gares de investigac¸a\u2dco: a cidade em especial, lugar privilegiado de observac¸a\u2dco
dos conflitos, das tenso\u2dces sociais e das reeetruturac¸o\u2dces em andamento (cf.
quanto a isso, ale´m dos trabalhos de Balandier citados acima, Oscar Lewis
(1963), Paul Mercier (1954), Jean-Marie Gibbal (1974) ).
Correlativamente, essa antropologia da modernidade (segundo a expressa\u2dco
de Balandier), que instaura uma ruptura com a tende\u2c6ncia intelectualista da
etnologia francesa, leva o pesquisador a interessar-se diretamente pela sua
pro´pria sociedade. Finalmente, enfatizando a realidade conflitual das si-
tuac¸o\u2dces de depende\u2c6ncia (econo\u2c6mica, tecnolo´gica, militar, lingu¨´\u131stica. . .), ela
na\u2dco opera apenas uma transformac¸a\u2dco do objeto de estudo, mas inicia uma
verdadeira mutac¸a\u2dco da pra´tica da pesquisa.
Dito isso, se essa antropologia reorienta, \u201dcomplexifica\u201de \u201dproblematiza\u201da
antropologia cla´ssica, seria no entanto irriso´rio pensar que a abole.
4Cf. tambe´m V. Lantemari (1962). W E. Mu¨hlmann (1968), F I.awrence (I974V
118 CAPI´TULO 11. A ANTROPOLOGIA DINA\u2c6MICA:
Parte III
A Especificidade Da Pra´tica
Antropolo´gica
119
Cap´\u131tulo 12
Uma Ruptura Metodolo´gica:
a prioridade dada a` experie\u2c6ncia pessoal
do \u201dcampo\u201d
A abordagem antropolo´gica de base, a que todo pesquisador considera hoje
como incontorna´vel, quaisquer que sejam por outro lado suas opc¸o\u2dces teo´ricas,
prove´m de uma ruptura inicial em relac¸a\u2dco a qualquer modo de conhecimento
abstrato e especulativo, isto e´, que na\u2dco estaria baseado na observac¸a\u2dco direta
dos comportamentos sociais a partir de uma relac¸a\u2dco humana.
Na\u2dco se pode, de fato, estudar os homens a` maneira do bota\u2c6nico exami-
nando a samamba´ia ou do zoo´logo observando o crusta´ceo; so´ se pode faze\u2c6-lo
comunicando-se com eles: o que supo\u2dce que se compartilhe sua existe\u2c6ncia de
maneira dura´vel (Griaule, Leenhardt) ou transito´ria (Le´vi-Strauss). Pois a
etnografia, que e´ fundadora da etnologia e da antropologia \u2013 a tal ponto que
alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em
Boas) consideram que toda s´\u131ntese e´ sempre prematura, e que alguns ainda
hoje preferem qualificar-se de \u201detno´grafos\u201d(J. Favret, 1977) \u2013 na\u2dco consiste
apenas em coletar, atrave´s de um me´todo estritamente indutivo, uma grande
quantidade de informac¸o\u2dces, mas em impregnar-se dos temas obsessionais de
uma sociedade, de seus ideais, de suas angu´stias. O etno´grafo e´ aquele que
deve ser capaz de viver nele mesmo a tende\u2c6ncia principal da cultura que es-
tuda. Se, por exemplo, a sociedade tem preocupac¸o\u2dces religiosas, ele pro´prio
deve rezar com seus ho´spedes. Para poder compreender o candomble´, \u201dfoi-me
preciso mudar completamente minhas categorias lo´gicas\u201d, escreve Roger Bas-
tide (1978), acrescentando: \u201dEu procurava uma compreensa\u2dco mineralo´gica e,
mais ainda, ana´loga a organizac¸o\u2dces vegetais, a cipo´s vivos\u201d.
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122 CAPI´TULO 12. UMA RUPTURA METODOLO´GICA:
Assim, a etnografia e´ antes a experie\u2c6ncia de uma imersa\u2dco total, consistindo
em uma verdadeira aculturac¸a\u2dco invertida, na qual, longe de compreender
uma sociedade apenas em suas manifestac¸o\u2dces \u201dexteriores\u201d(Durkheim), devo
interioriza´-la nas significac¸o\u2dces que os pro´prios indiv´\u131duos atribuem a seus
comportamentos. Quanto a isso, e´ significativo que, em sua Lic¸a\u2dco Inaugu-
ral no Colle`ge de France, o autor da Antropologia Estrutural comece sua
exposic¸a\u2dco por uma \u201dhomenagem\u201dao \u201dpensamento supersticioso\u201d, proclame
que, \u201dcontra o teo´rico, o observador deve ficar com a u´ltima palavra; e con-
tra o observador, o ind´\u131gena\u201d, e termine seu discurso insistindo sobre tudo o
que deve a esses \u131´ndios do Brasil, de quem se considera um \u201daluno\u201d.
Essa apreensa\u2dco da sociedade tal como e´ percebida de dentro pelos atores
sociais com os quais mantenho uma relac¸a\u2dco direta (apreensa\u2dco esta, que na\u2dco
e´ de forma alguma exclusiva da evidenciac¸a\u2dco daquilo que lhes escapa, mas
que, pelo contra´rio, abre o caminho para essa etapa ulterior da pesquisa), e´
que distingue essencialmente a pra´tica etnolo´gica \u2013 pra´tica do campo \u2013 da
do historiador ou do socio´logo. O historiador, de fato, se procura, como o
etno´logo, dar conta o mais cientificamente poss´\u131vel da alteridade a` qual e´
confrontado, nunca entra em contato direto com os homens e mulheres das
sociedades que estuda. Recolhe e analisa os testemunhos. Nunca encon-
tra testemunhas vivas. Quanto a` pra´tica da sociologia, pelo menos em suas
principais tende\u2c6ncias cla´ssicas va´rias caracter´\u131sticas a distinguem da pra´tica
etnolo´gica considerada sob o a\u2c6ngulo que dete´m aqui nossa atenc¸a\u2dco.
1) Comporta um distanciamento em relac¸a\u2dco a seu objeto, e algo frio, e \u201dde-
sencarnado\u201d, como diz Le´vi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano.
2) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado, parece ser capaz
de encontrar uma explicac¸a\u2dco e fornecer soluc¸o\u2dces. Objetar-se-a´ que pode, e´
claro, ser o caso do etno´logo. Com a diferenc¸a, pore´m, de que este se esforc¸a,
por razo\u2dces metodolo´gicas (e evidentemente afetivas), em co-colar-se o mais
perto poss´\u131vel do que e´ vivido por homens de carne e osso, arriscando-se a
perder em algum momento sua identidade e a na\u2dco voltar totalmente ileso
dessa experie\u2c6ncia.
3) O etno´logo evita, na\u2dco apenas por temperamento mas tambe´m em con-
sequ¨e\u2c6ncia da especificidade do modo de conhecimento que persegue, uma
programac¸a\u2dco estrita de sua pesquisa, bem como a utilizac¸a\u2dco de protoco-
los r´\u131gidos, de que a sociologia cla´ssica pensou poder tirar tantos benef´\u131cios
cient´\u131ficos. A busca etnogra´fica, pelo contra´rio, tem algo de errante. As ten-
tativas abordadas, os erros cometidos no campo, constituem informac¸o\u2dces
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que o pesquisador deve levar em conta. Como tambe´m o encontro que
surge frequ¨entemente com o imprevisto, o evento que ocorre quando na\u2dco
espera´vamos.
Na\u2dco nos enganemos, pore´m, quanto a`s virtudes do campo. Da mesma forma
que o fato de ter alcanc¸ado uma cura anal´\u131tica na\u2dco garante que voce\u2c6 possa
um dia se tornar psicanalista, um grande nu´mero de temporadas passadas em
contato com uma sociedade que se procura compreender na\u2dco o transformara´
ipso jacto em um etno´logo. Trata-se pore´m de condic¸o\u2dces necessa´rias. Pois a
pra´tica antropolo´gica so´ pode se dar com uma descoberta etnogra´fica, isto e´,
com uma experie\u2c6ncia que comporta uma parte de aventura pessoal.
124 CAPI´TULO 12. UMA RUPTURA METODOLO´GICA:
Cap´\u131tulo 13
Uma Inversa\u2dco Tema´tica:
o estudo do infinitamente pequeno e do
cotidiano
A histo´ria, a sociologia cla´ssica da\u2dco uma prioridade quase sistema´tica a` socie-
dade global, bem como a`s formas de atividades institu´\u131das. Assim, por exem-
plo, quando estudam as associac¸o\u2dces volunta´rias, privilegiam