Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.213 seguidores
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mente objetos na\u2dco cabe no modo de conhecimento pro´prio da antropologia,
pois o que esta pretende estudar e´ o pro´prio contexto no qual se situam esses
objetos, e´ a rede densa das interac¸o\u2dces que estas constituem com a totalidade
social em movimento.
A especializac¸a\u2dco cient´\u131fica e´ mais problema´tica para o antropo´logo do que
para qualquer outro pesquisador em cie\u2c6ncias humanas. O antropo´logo na\u2dco
pode, de fato, se tornar um especialista, isto e´, um perito de tal ou tal a´rea
particular (econo\u2c6mica, demogra´fica, jur´\u131dica. . .) sem correr o risco de abolir
o que e´ a base da pro´pria especificidade de sua pra´tica. As cie\u2c6ncias pol´\u131ticas
se da\u2dco por objeto de investigac¸a\u2dco um certo aspecto do real: as instituic¸o\u2dces
que regem as relac¸o\u2dces do poder; as cie\u2c6ncias econo\u2c6micas, um outro: os siste-
mas de produc¸a\u2dco e troca de bens; as cie\u2c6ncias jur´\u131dicas, o direito; as cie\u2c6ncias
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130 CAPI´TULO 14. UMA EXIGE\u2c6NCIA:
psicolo´gicas, os processos cognitivos e afetivos; as cie\u2c6ncias religiosas, os sis-
temas de crenc¸a. . . Mas todos estes sa\u2dco para o antropo´logo feno\u2c6menos
parciais, isto e´, abstrac¸o\u2dces em relac¸a\u2dco ao enfoque na\u2dco parcelar que orienta
sua abordagem. O parcelamento disciplinar comporta, de fato, no horizonte
cient´\u131fico contempora\u2c6neo, um risco essencial: o de um desmantelamento do
homem em produtor, consumidor, cidada\u2dco, parente. . . Assim, por exemplo,
a pesquisa sociolo´gica esta´ cada vez mais especializada: estuda feno\u2c6menos
particulares: a delinqu¨e\u2c6ncia, a criminalidade, o divo´rcio, o alcoolismo. . . e
o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: soci-
ologia dos lazeres, do esporte, das condutas suicidas. . .
A pro´pria antropologia, e´ claro, e´ frequ¨entemente levada a participar desse
processo que pode causar uma verdadeira mutilac¸a\u2dco do ser humano, de que se
procura, em um segundo tempo (a pluridisciplinaridade), costurar de novo os
retalhos recortados. Mas permanece, a meu ver, dentro do espac¸o da cultura
cient´\u131fica (e na\u2dco da cultura humanista, como pode ser a cultura filoso´fica ou
litera´ria), um lugar privilegiado a partir do qual ainda se pode perceber que
toda pra´tica hiperespecializada, atrave´s da fragmentac¸a\u2dco e do desmembra-
mento que impo\u2dce ao real, acaba destruindo o pro´prio objeto que pretendia
estudar.
Pessoalmente, a antropologia me parece ser o ant´\u131doto na\u2dco filoso´fico de uma
concepc¸a\u2dco tayloriana da pesquisa, que consiste em: 1) cumprir sempre a
mesma tarefa, ser o especialista de uma u´nica a´rea; 2) tentar, de uma ma-
neira pragma´tica, modificar, ou ate´ transformar os feno\u2c6menos que se estuda.
O drama das cie\u2c6ncias humanas contempora\u2c6neas e´ a fratura entre uma atitude
extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral) mas que corre o risco de
cair no vazio, dada a fraca positividade de seus objetos de investigac¸a\u2dco, e
uma cientificidade extremamente positiva, mas pouco reflexiva, por estar ba-
seada no parcelamento de territo´rios e, voltaremos a isso, sobre uma forma
de objetividade que as pro´prias cie\u2c6ncias exatas descartaram ha´ muito tempo.1
Essa preocupac¸a\u2dco que tem a antropologia de dar conta, a partir de um
feno\u2c6meno concreto singular, do multidimensionamento de seus aspectos e da
totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significac¸a\u2dco inconsci-
ente, esta´ relacionada a` abordagem menos diretiva e programa´tica da pro´pria
pra´tica etnogra´fica, comparada a outros modos de coleta de informac¸o\u2dces:
1Na\u2dco posso deixar de recomendar particularmente, a respeito desse aspecto, a leitura
da obra de um socio´logo, Edgar Morin (1974), e em especial do cap´\u131tulo intitulado \u201dDa
pauperizac¸a\u2dco das ide´ias gerais em um meio especializado\u201d
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trata-se, de fato, para no´s, ale´m de todos os questiona´rios, por mais aper-
feic¸oados que sejam, de fazer surgir um questionamento mu´tuo. Tal preo-
cupac¸a\u2dco diz respeito tambe´m, mais uma vez, a` natureza das sociedades nas
quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homoge\u2c6neos,
nos quais as atividades sa\u2dco pouco especializadas, e que se da\u2dco uma ideologia
mestra (de tipo mitolo´gico) dando conta da totalidade social.
A pra´tica da antropologia finalmente, baseada sobre uma extrema proxi-
midade da realidade social estudada, supo\u2dce tambe´m, paradoxalmente, um
grande distanciamento (em relac¸a\u2dco a` sociedade que procuro compreender,
em relac¸a\u2dco a` sociedade a` qual pertenc¸o). E´ a raza\u2dco pela qual somos prova-
velmente, enquanto antropo´logos, mais tocados do que outros, e, em primeiro
lugar, mais surpreendidos, pela dis-, junc¸a\u2dco histo´rica absolutamente singular
u´nica ate´ na histo´ria da humanidade, que nossa pro´pria cultura realizou entre
a cie\u2c6ncia e a moral, a cie\u2c6ncia e a religia\u2dco, a cie\u2c6ncia e a filosofia.
Se olharmos de mais perto, esta u´ltima disciplina na\u2dco e´ mais hoje um pen-
samento da totalidade dando-se como objetivo compreender os mu´ltiplos as-
pectos do homem. Como escreve Le´vi-Strauss, apenas tre\u2c6s formas de pensa-
mento sa\u2dco, no mundo contempora\u2c6neo, capazes de responder a essa definic¸a\u2dco:
o islamismo, o marxismo e a antropologia. O projeto antropolo´gico retoma,
a meu ver, hoje, mas sobre bases completamente diversas (na\u2dco mais a espe-
culac¸a\u2dco sobre as categorias do esp´\u131rito humano, mas a observac¸a\u2dco direta de
suas produc¸o\u2dces concretas), o projeto que foi o da filosofia cla´ssica. E´ a raza\u2dco
pela qual muitos entre no´s se recusam a entrar nas vias de uma hiperespeci-
alizac¸a\u2dco, podendo tornar-se, como mostrou Husserl, antagonista da reflexa\u2dco,
e podendo ate´, como sugere hoje em dia Laborit, chegar a impedir o pro´prio
exerc´\u131cio do pensamento.
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Cap´\u131tulo 15
Uma Abordagem:
a ana´lise comparativa
Esta´ ligada a` problema´tica maior de nossa disciplina que e´ a da diferenc¸a,
implicando uma descentrac¸a\u2dco radical em relac¸a\u2dco a` sociedade de que faz parte
o observador, isto e´, uma ruptura com qualquer forma, dissimulada ou delibe-
rada, de etnocentrismo. Pois, apenas o que percebemos (em estado manifesto
ou latente) em uma outra sociedade nos permite visualizar o que esta´ em jogo
na nossa, mas que na\u2dco suspeita´vamos. Essa experie\u2c6ncia de arrancamento de
si pro´prio age, na realidade, como um verdadeiro revelador de si. Cada um
ja´ notou que, quando uma crianc¸a nasce, os parentes e amigos da fam\u131´lia
enderec¸am seus cumprimentos ao novo pai. Esse costume aparentemente
insignificante ganha todo seu significado se o olharmos a` luz da couvade,
praticada, por exemplo, na A´frica, e que se encontrava tambe´m na Franc¸a,
notadamente na Borgonha, ate´ o in´\u131cio do se´culo. Tudo se passa como se a
parturiente na\u2dco fosse outra sena\u2dco o pro´prio pai. Participando efetivamente
do nascimento da crianc¸a, o marido recupera seus direitos de paternidade
(nas sociedades, notadamente, nas quais o parentesco biolo´gico e´ dissociado
da paternidade social), se ve\u2c6 totalmente integrado a sua pro´pria fam\u131´lia, e
adquire com isso um estatuto de perfeito genitor.
Todos no´s participamos, pelo menos uma vez na vida, da inaugurac¸a\u2dco de
um edif´\u131cio; amigos nos convidaram para festejar a entrada em uma nova
casa ou em um novo apartamento. Ora, esse cerimonial, tambe´m bastante
insignificante, permanece totalmente incompreens´\u131vel se na\u2dco o relacionarmos
a`s cerimo\u2c6nias de apropriac¸a\u2dco do espac¸o que, nas sociedades tradicionais, con-
sistem no sacrif´\u131cio de um animal ou numa libac¸a\u2dco de a´lcool aos esp´\u131ritos.
O mesmo se da´ quando nos interessamos para a defesa de uma tese de dou-
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134 CAPI´TULO 15. UMA ABORDAGEM:
torado, que adquire todo o seu significado a partir do momento em que a
confrontamos com os ritos de iniciac¸a\u2dco e passagem que pudemos observar em
outras sociedades.1 Poder´\u131amos multiplicar os exemplos: o estudo dos jovens
de Samoa que permite a Margaret Mead dar conta dos comportamentos