Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.212 seguidores
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de
crise dos adolescentes americanos; o da feitic¸aria entre os Azande´ do Suda\u2dco
que permite a Evans-Pritchard compreender alguns aspectos do comunismo
sovie´tico. Este mestre da antropologia brita\u2c6nica recomendava a seus alunos
o estudo de duas sociedades a fim de evitar, dizia ele, o que aconteceu a
Malinowski: \u201dpensar durante toda a sua vida em func¸a\u2dco de um u´nico tipo
de sociedade\u201d, no caso, os Trobriandeses.
Ora, temos de reconhecer que a maioria dos etno´logos de hoje na\u2dco e´ de
antropo´logos. Suas pesquisas tratam de uma cultura particular, ou ate´ de
um segmento, de um aspecto desta cultura, na melhor das hipo´teses de al-
gumas variedades de culturas, mas quase nunca do estudo dos processos de
variabilidade da cultura.
A abordagem comparativa \u2013 que se confunde com a pro´pria antropologia
\u2013 e´ uma das mais ambiciosas e exigentes que ha´. Mas antes de examinar os
problemas que coloca e as dificuldades que encontra, conve´m lembrar algu-
mas grandes posic¸o\u2dces que balizam a histo´ria de nossa disciplina.
A primeira forma de comparatismo \u2013 o evolucionismo \u2013 ordena os fatos co-
lhidos dentro de um discurso que se apresenta como histo´rico. Confrontando
essencialmente costumes (cf. especialmente Frazer), procura reconstituir
uma evoluc¸a\u2dco hipote´tica das sociedades humanas (de todas as sociedades)
na ause\u2c6ncia de documentos histo´ricos. As extrapolac¸o\u2dces e generalizac¸o\u2dces que
operam os pesquisadores eruditos desse per´\u131odo va\u2dco aparecendo aos poucos
como ta\u2dco abusivas que, praticamente, toda a etnologia posterior (a ruptura
epistemolo´gica introduzida nos anos 1910-1920 por Boas e Malinowski) ira´
adotar uma posic¸a\u2dco radicalmente anticomparativa. Com o funcionalismo,
a sociedade estudada adquire uma autonomia na\u2dco apenas emp´\u131rica, mas
tambe´m teo´rica. Na\u2dco se trata mais de comparar as sociedades entre si, mas
de mostrar, atrave´s de monografias, como se realiza a integrac¸a\u2dco das dife-
renc¸as func¸o\u2dces em jogo em uma mesma sociedade.2
1E\u2c6 nessa perspectiva que Maurice Leenhardt, apo´s ter trabalhado durante mais de 20
anos na Nova Caledo\u2c6nia e ter estado na A´frica, escreve: \u201dA A´frica me ensinou muito sobre
a Oceania\u201d.
2O que leva o antropo´logo americano Murdock a dizer que a maioria dos antropo´logos
brita\u2c6nicos, deixando de lado o estudo das diferenc¸as entre as civilizac¸o\u2dces, na\u2dco e´ de an-
tropo´logos, e sim de socio´logos.
135
Se o projeto da antropologia cultural e´, de fato, o de confrontar os com-
portamentos humanos os mais diversificados, de uma a´rea geogra´fica para
outra \u2013 na\u2dco mais por uma \u201dperiodizac¸a\u2dco\u201dno tempo, como na e´poca de Mor-
gan, mas, preferencialmente, por uma extensa\u2dco no espac¸o \u2013, o postulado
da irredutibilidade de cada cultura termina impedindo o pro´prio empreen-
dimento da comparac¸a\u2dco. Detenhamo-nos sobre esse ponto que e´, ao meu
ver, essencial. Claro, sa\u2dco as variac¸o\u2dces que interessam em primeira insta\u2c6ncia
ao antropo´logo: mas, para serem estudadas antropologicamente, e na\u2dco mais
apenas etnograficamente, essas variac¸o\u2dces devem ser relacionadas a um certo
nu´mero de invariantes, pois e´ precisamente o estabelecimento dessa relac¸a\u2dco
que fundamenta a pro´pria abordagem da comparac¸a\u2dco, ta\u2dco caracter´\u131stica de
nossa disciplina.
O empreendimento gigantesco dos Human Relations Area Files, elaborado
por Murdock e seus colaboradores a partir de 1937 e´, a esse respeito, repre-
sentativo. Visa estudar o leque mais completo poss´\u131vel dos comportamentos
e instituic¸o\u2dces humanos, a partir de correlac¸o\u2dces entre um grande nu´mero de
varia´veis (das te´cnicas materiais a`s representac¸o\u2dces religiosas) em 75 culturas
diferentes. Mas esse programa, devido a sua pro´pria preocupac¸a\u2dco de exaus-
tividade, coloca, na realidade, mais problemas do que soluc¸o\u2dces.
Esses exemplos mostram que, entre a tentac¸a\u2dco de um comparatismo sis-
tema´tico (como no evolucionismo) e o ceticismo geral dos que consideram
prematuro, quando na\u2dco imposs´\u131vel, qualquer empreendimento de comparac¸a\u2dco
(e´ a posic¸a\u2dco de Boas), o caminho e´ dos mais estreitos. O pro´prio empreendi-
mento que orienta a antropologia supo\u2dce a tomada em considerac¸a\u2dco de uma
humanidade \u201dplural\u201d. Mas como dar conta de feno\u2c6menos que na\u2dco perten-
cem a`s mesmas sociedades e na\u2dco se inscrevem no mesmo contexto. Como
conceber ao mesmo tempo, sem arriscar-se a ultrapassar os limites de uma
abordagem que se quer cient´\u131fica, as instituic¸o\u2dces pol´\u131ticas dos habitantes da
Patago\u2c6nia e as dos groen-landeses, os ritos religiosos dos bantos e os dos
\u131´ndios da Amazo\u2c6nia?
Lembremos em primeiro lugar que a ana´lise comparativa na\u2dco e´ a primeira
abordagem do antropo´logo. Este deve passar pelo caminho lento e traba-
lhoso que conduz da coleta e impregnac¸a\u2dco etnogra´fica a` compreensa\u2dco da
lo´gica pro´pria da sociedade estudada (etnologia). Em seguida apenas, po-
dera´ interrogar-se sobre a lo´gica das variac¸o\u2dces da cultura (antropologia). Vale
dizer que o pesquisador deve ter uma prude\u2c6ncia considera´vel. Antes de se-
rem confrontados uns aos outros, os materiais recolhidos devem ser meti-
136 CAPI´TULO 15. UMA ABORDAGEM:
culosamente criticados. Pois, se comec¸armos comparando os costumes de
tal populac¸a\u2dco africana com os de tal outra europe´ia, chegaremos apenas a
evidenciar algumas analogias. Mas enta\u2dco, como diz Kroeber, as \u201duniversali-
dades\u201dencontradas poderiam muito bem ser apenas a projec¸a\u2dco de \u201dcategorias
lo´gicas\u201dpro´prias somente da sociedade do observador. Assim o evolucionismo
comparava o que via (ou, na maior parte das vezes, o que outros se encarre-
gavam de ver por procurac¸a\u2dco) nas sociedades \u201dprimitivas\u201d, com o que sabia
(ou melhor, supunha saber) de nossa pro´pria sociedade. Disso decorrem as
analogias que na\u2dco faltaram entre os abor´\u131gines australianos e os habitantes
da Europa na Idade da Pedra.3
Se a antropologia contempora\u2c6nea e´ ta\u2dco comparativa quanto no passado, na\u2dco
deve mais nada a` abordagem do comparatismo dos primeiros etno´logos. Na\u2dco
utiliza mais os mesmos me´todos e na\u2dco tem mais o mesmo objeto. O que se
compara hoje sa\u2dco costumes, comportamentos, instituic¸o\u2dces, na\u2dco mais isola-
dos de seus contextos, e sim fazendo parte destes; sa\u2dco sistemas de relac¸a\u2dco.
A partir de uma descric¸a\u2dco (etnografia), e depois, de uma ana´lise (etnolo-
gia) de tal instituic¸a\u2dco, tal costume, tal comportamento, procura-se descobrir
progressivamente o que Le´vi-Strauss chama de \u201destrutura inconsciente\u201d, que
pode ser encontrado na forma de um arranjo diferente em uma outra insti-
tuic¸a\u2dco, um outro costume, um outro comportamento. Ou seja, os termos da
comparac¸a\u2dco na\u2dco podem ser a realidade dos fatos emp´\u131ricos em si,4 mas siste-
mas de relac¸o\u2dces que o pesquisador constro´i, enquanto hipo´teses operato´rias,
a partir destes fatos. Em suma as diferenc¸as nunca sa\u2dco dadas, sa\u2dco recolhidas
pelo etno´logo, confrontadas umas com as outras, e aquilo que e´ finalmente
comparado e´ o sistema das diferenc¸as, isto e´, dos conjuntos estruturados. 5
3\u201dSe postulamos apressadamente a homogeneidade do campo social e nos confortamos
na ilusa\u2dco de que este e´ imediatamente compara´vel era todos os seus aspectos e n´\u131veis,
deixaremos escapar o essencial. Desconheceremos que as coordenadas necessa´rias para
definir dois feno\u2c6menos aparentemente muito semelhantes, na\u2dco sa\u2dco sempre as mesmas,
nem esta\u2dco sempre em mesmo nu´mero; e pensaremos estar formulando as leis da natureza
social, quando estaremos nos limitando a descrever propriedades superficiais ou a enunciar
tautologias\u201d, escreve Le´vi-Strauss (1973).
4O etno´logo contempora\u2c6neo e´ infinitamente mais modesto que seus predecessores. Ele
na\u2dco procura atingir a natureza da arte, da religia\u2dco, do parentesco, nem em geral e. nem
mesmo, em particular.
5\u201dSo´ e´ estruturado um arranjo que preencha duas condic¸o\u2dces: e´ um sistema regido
por uma coesa\u2dco interna; e essa coesa\u2dco \u2013 que e´ impercept´\u131vel a` observac¸a\u2dco de um sistema