Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.212 seguidores
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isolado \u2013 se revela no estudo das transformac¸o\u2dces, grac¸as a`s quais descobrimos propriedades
similares em sistemas aparentemente diferentes\u201d, escreve Le´vi-Strauss (1973).
Cap´\u131tulo 16
As Condic¸o\u2dces De Produc¸a\u2dco
Social Do Discurso
Antropolo´gico
A antropologia nunca existe em estado puro. Seria inge\u2c6nuo, sobretudo da
parte de um antropo´logo, isola´-la de seu pro´prio contexto. Seria paradoxal,
sobretudo para uma pra´tica da qual um dos objetivos e´ situar os compor-
tamentos dos que ela estuda em uma cultura, classe social, Estado, nac¸a\u2dco,
ou momento da histo´ria deixar de aplicar a si pro´prio o mesmo tratamento.
Como escreve Le´vi-Strauss, \u201dse a sociedade esta´ na antropologia, a antro-
pologia por sua vez esta´ na sociedade\u201d(1973). Seu atestado de nascimento
inscreve-se em uma determinada e´poca e cultura. Em seguida, transforma-se,
em contato com as grandes mudanc¸as sociais que se produzem, e se torna, um
se´culo depois, praticamente irreconhec´\u131vel. Conve´m, portanto, interrogar-se
agora, na\u2dco mais sobre o saber etnolo´gico em si, que nunca e´ um produto
acabado, mas sobre suas condic¸o\u2dces de produc¸a\u2dco; pois o estudo dos textos
etnolo´gicos nos informa tanto sobre a sociedade do observador quanto sobre
a do observado.
Retomemos rapidamente aqui, dentro dessa nova perspectiva, alguns exem-
plos estudados anteriormente. O que interessa a antropologia filoso´fica do
se´culo XVIII nas sociedades da \u201dnatureza\u201d, e´ que estas podem dar ao Oci-
dente lic¸o\u2dces sobre a natureza das sociedades, e permitir fundar um novo \u201dcon-
trato social\u201d, A antropologia evolucionista que lhe sucede esta´ estreitamente
ligada a`s pra´ticas coloniais conquistadoras da e´poca vitoriana. Sustentada
pelo ideal de uma missa\u2dco civilizadora (a certeza que se tem de si), consiste
na racionalizac¸a\u2dco do expansionismo colonial. O funcionalismo, quanto a si,
empresta seu vocabula´rio a`s cie\u2c6ncias da natureza que lhes parecem a garantia
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138CAPI´TULO 16. AS CONDIC¸O\u2dcES DE PRODUC¸A\u2dcO SOCIAL DO DISCURSO ANTROPOLO´GICO
da cientificidade. Mas o objeto da antropologia na\u2dco leva em conta as pra´ticas
coloniais, ao contra´rio do evolucionismo, que as justificava, e de outras for-
mas de antropologia que as combatem. Um u´ltimo exemplo nos sera´ dado
pela antropologia americana em sua tende\u2c6ncia culturalista. O \u201drelativismo
cultural\u201d, termo forjado por Herskovitz, e´ qualificado por este de \u201dresultado
das cie\u2c6ncias humanas\u201d. Mas esta´, na realidade, ligado a` crise histo´rica do
pensamento teo´rico do Ocidente confrontado com a alteridade. Ale´m disso, o
cara´ter nitidamente mais anticolonialista dessa antropologia, comparando-a
com a antropologia brita\u2c6nica ou francesa, explica-se notadamente pelo fato de
que os Estados Unidos nunca tiveram colo\u2c6nias (mas apenas minorias e´tnicas).
Seria conveniente, afinal, perguntar-se por que essa preocupac¸a\u2dco pelas \u201dco-
lorac¸o\u2dces nacionais\u201dde nossos comportamentos, em detrimento do funciona-
mento de nossas instituic¸o\u2dces, foi (e ainda e´) ta\u2dco forte nos Estados Unidos,
essa sociedade formada de uma pluralidade de culturas.
Esses exemplos bastam para nos convencer de que a antropologia e´ o es-
tudo do social em condic¸o\u2dces histo´ricas e culturais determinadas. A pro´pria
observac¸a\u2dco nunca e´ efetuada em qualquer momento e por qualquer pessoa.
A dista\u2c6ncia ou participac¸a\u2dco etnogra´fica maior ou menor esta´ eminentemente
ligada ao contexto social no qual se exerce a pra´tica em questa\u2dco, que e´ neces-
sariamente a de um pesquisador pertencendo a uma e´poca e a uma sociedade.
Quando pensa estar fazendo aparecer a racionalidade imanente ao grupo que
estuda, o etno´logo pode esquecer (frequ¨entemente de boa-fe´) as condic¸o\u2dces\u2013
sempre particulares \u2013 de produc¸a\u2dco de seu discurso. Mas estas nunca sa\u2dco
histo´rica, pol´\u131tica, cultural, e socialmente neutras; expressam diferentes for-
mas da cultura ocidental quando esta encontra os outros de uma maneira
teo´rica.
Isso posto, seria irriso´rio reduzir a antropologia apenas a`s condic¸o\u2dces de seu
surgimento e desenvolvimento. Ale´m disso, se se tem raza\u2dco em insistir sobre
o fato de que o pesquisador deve considerar o lugar so´cio-histo´rico a partir do
qual fala, como parte integrante de seu objeto de estudo, seria erro\u2c6neo con-
cluir \u2013 como faz, por exemplo, Foucault \u2013 que, em consequ¨e\u2c6ncia das distorc¸o\u2dces
perceptivas atribu´\u131das a` nossa relac¸a\u2dco com o social, \u201das cie\u2c6ncias humanas
sa\u2dco falsas Cie\u2c6ncias, na\u2dco sa\u2dco cie\u2c6ncias\u201d. Nosso pertencer e nossa implicac¸a\u2dco
social, longe de serem um obsta´culo ao conhecimento cient´\u131fico, podem pelo
contra´rio, a meu ver, ser considerados como um instrumento. Permitem colo-
car as questo\u2dces que na\u2dco se colocavam em outra e´poca, variar as perspectivas,
estudar objetos novos.
Cap´\u131tulo 17
O Observador, Parte Integrante
Do Objeto De Estudo:
Quando o antropo´logo pretende uma neutralidade absoluta, pensa ter reco-
lhido fatos \u201dobjetivos\u201d, elimina dos resultados de sua pesquisa tudo o que
contribuiu na sua realizac¸a\u2dco e apaga cuidadosamente as marcas de sua im-
plicac¸a\u2dco pessoal no objeto de seu estudo, e´ que ele corre o maior risco de
afastar-se do tipo de objetividade (necessariamente aproximada) e do modo
de conhecimento espec´\u131fico de sua disciplina.
Essa auto-suficie\u2c6ncia do pesquisador, convencido de ser \u201dobjetivo\u201dao libertar-
se definitivamente de qualquer problema´tica do sujeito, e´ sempre, a meu ver,
sintoma´tica da insuficie\u2c6ncia de sua pra´tica. Esquece (na realidade, de uma
forma estrate´gica e reivindicada) do princ´\u131pio de totalidade tal como foi ex-
posto acima; pois o estudo da totalidade de um feno\u2c6meno social supo\u2dce a
integrac¸a\u2dco do observador no pro´prio campo de observac¸a\u2dco.
Se e´ poss´\u131vel, e ate´ necessa´rio, distinguir aquele que observa daquele que
e´ observado, parece-me, em compensac¸a\u2dco, impensa´vel dissocia´-los. Nunca
somos testemunhas objetivas observando objetos, e sim sujeitos observando
outros sujeitos. Ou seja, nunca observamos os comportamentos de um grupo
tais como se dariam se na\u2dco estive´ssemos ou se os sujeitos da observac¸a\u2dco fos-
sem outros. Ale´m disso, se o etno´grafo perturba determinada situac¸a\u2dco, e ate´
cria uma situac¸a\u2dco nova, devido a sua presenc¸a, e´ por sua vez eminentemente
perturbado por essa situac¸a\u2dco. Aquilo que o pesquisador vive, em sua relac¸a\u2dco
com seus interlocutores (o que reprime ou sublima, o que detesta ou gosta),
e´ parte integrante de sua pesquisa. Assim uma verdadeira antropologia ci-
ent´\u131fica deve sempre colocar o problema das motivac¸o\u2dces extracient´\u131ficas do
observador e da natureza da interac¸a\u2dco em jogo. Pois a antropologia e´ tambe´m
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140CAPI´TULO 17. O OBSERVADOR, PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO:
a cie\u2c6ncia dos observadores capazes de observarem a si pro´prios, e visando a
que uma situac¸a\u2dco de interac¸a\u2dco (sempre particular) se torne o mais consciente
poss´\u131vel, isso e´ realmente o m\u131´nimo que se possa exigir do antropo´logo.
Alguns anos atra´s, estava realizando, a pedido do CNRS, uma pesquisa no sul
da Tun´\u131sia sobre um feno\u2c6meno chamado hajba (que significa em a´rabe: claus-
trac¸a\u2dco, trancamento) que se inscreve no quadro da preparac¸a\u2dco das jovens ao
casamento. No decorrer de um per´\u131odo variando de algumas semanas a alguns
meses, a noiva permanece rigorosamente separada do mundo exterior, e par-
ticularmente do universo masculino. Passa por um tratamento este´tico cujo
objetivo e´ deixar sua pele o mais branca poss´\u131vel, e por um regime alimen-
tar que deve engorda´-la. Essa pra´tica de superalimentac¸a\u2dco (a` -base de ovos,
ac¸u´car, torradas com o´leo), aplicada a jovens djerbianas que sera\u2dco entregues
a maridos que na\u2dco conhecem, de in´\u131cio repugnava-me. Ora, longe de eliminar
a natureza afetiva (mas, com certeza, ligada a` cultura a` qual pertenc¸o) de
minha reac¸a\u2dco, tive, pelo contra´rio, de leva´-la em conta, de tentar elucida´-la,
a fim