Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.212 seguidores
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de controlar, na medida do poss´\u131vel, as consequ¨e\u2c6ncias, perturbadoras
tanto para mim quanto para meus interlocutores que, como todos os interlo-
cutores, nunca se enganam por muito tempo sobre os sentimentos pelos quais
passa o etno´logo. Da mesma forma, o que me marcou muito na ocasia\u2dco de
minha primeira missa\u2dco etnolo´gica em pa´\u131s bau´le foi o respeito pelos velhos,
o espac¸o ocupado pelos esp´\u131ritos, e a facilidade das relac¸o\u2dces sexuais com as
adolescentes. Se isso me surpreendeu, e´ porque essas condutas questionavam
a minha pro´pria cultura; pois era de fato esta que me questionava em alguns
aspectos da cultura dos bau´les e me questiona quando observo hoje, no Bra-
sil, a aptida\u2dco considera´vel que te\u2c6m os homens e as mulheres para entrar em
transe, ou, mais precisamente, serem \u201dpossu´\u131dos\u201dpelos esp´\u131ritos ancestrais \u2013
\u131´ndios, crista\u2dcos, africanos \u2013 do grupo. E´ prova´vel que o gato veja no cachorro
uma espe´cie particular de gato, enquanto o cachorro, por sua vez, veja em
seu dono uma outra rac¸a de cachorro. Se ambos fazem, respectivamente, ca-
nicentrismo e cinomorfismo, importa muito que o etno´logo (isso faz parte da
aprendizagem de sua profissa\u2dco, e o cara´ter cient´\u131fico dos resultados de suas
pesquisas depende disso) controle as armadilhas, frequ¨entemente inconscien-
tes, da projec¸a\u2dco e do etnocentrismo.
Conve´m aqui interrogar-se sobre as razo\u2dces que levam a reprimir a subje-
tividade do pesquisador, como se esta na\u2dco fosse parte da pesquisa. Por que
esses relato´rios ano\u2c6nimos, redigidos por \u201dcredores\u201d, e que ignoram a relac¸a\u2dco
dos materiais colhidos com a pessoa do coletor ja´ que, se ele tiver talento,
pode sempre escrever suas confisso\u2dces? Como e´ poss´\u131vel que tudo o que faz a
originalidade da situac¸a\u2dco etnolo´gica \u2013 que nunca consiste na observac¸a\u2dco de
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insetos, e sim numa relac¸a\u2dco humana envolvendo necessariamente afetividade
\u2013 possa transformar-se a tal ponto em seu contra´rio? Tornar-se esquecimento
ou recalcamento de uma interac¸a\u2dco entre seres vivos, funcionando em muitos
aspectos como um ritual de exorcismo? Ou seja, por que, segundo a expressa\u2dco
de Edgar Morin, essa \u201desquizofrenia profunda e permanente\u201ddas cie\u2c6ncias do
homem em sua tende\u2c6ncia ortodoxa?
A ide´ia de que se possa construir um objeto de observac¸a\u2dco independentemente
do pro´prio observador prove´m na realidade de um modelo \u201dobjetivista\u201d, que
foi o da f´\u131sica ate´ o final do se´culo XIX, mas que os pro´prios f´\u131sicos abandona-
ram ha´ muito tempo. E´ a crenc¸a de que e´ poss´\u131vel recortar objetos, isola´-los,
e objetivar um campo de estudo do qual o observador estaria ausente, ou
pelo menos substitu´\u131vel. Esse modelo de objetividade por objetivac¸a\u2dco e´,
sem du´vida, pertinente quando se trata de medir ou pesar (pouco importa,
neste caso, que o observador tenha 25 ou 70 anos, que seja africano ou euro-
peu, socialista ou conservador). Na\u2dco pode ser conveniente para compreender
comportamentos humanos que veiculam sempre significac¸o\u2dces, sentimentos e
valores.
Ora, uma das tende\u2c6ncias das cie\u2c6ncias humanas contempora\u2c6neas e´ eliminar
duplamente o sujeito: os atores sociais sa\u2dco objetivados, e os observadores
esta\u2dco ausentes ou, pelo menos, dissimulados. Essa eliminac¸a\u2dco encontra sem-
pre sua justificac¸a\u2dco na ide´ia de que o sujeito seria um res´\u131duo na\u2dco assimila´vel
a um modo de racionalidade que obedec¸a aos crite´rios da \u201dobjetividade\u201d,
ou, como diz Le´vi-Strauss, de que a conscie\u2c6ncia seria \u201da inimiga secreta das
cie\u2c6ncias do homem\u201d. Nessas condic¸o\u2dces, na\u2dco havera´ enta\u2dco outra escolha sena\u2dco
entre uma cientificidade desumana e um humanismo na\u2dco cient´\u131fico?
Paradoxalmente, a volta do observador para o campo da observac¸a\u2dco na\u2dco
se deu atrave´s das cie\u2c6ncias humanas, nem mesmo na filosofia, e sim por in-
terme´dio da f´\u131sica moderna, que reintegra a reflexa\u2dco sobre a problema´tica do
sujeito como condic¸a\u2dco de possibilidade da pro´pria atividade cient´\u131fica. Hei-
senberg mostrou que na\u2dco se podia observar um ele´tron sem criar uma situac¸a\u2dco
que o modifica. Disso tirou (em 1927) seu famoso \u201dprinc´\u131pio de incerteza\u201d,
que o levou a reintroduzir o f´\u131sico na pro´pria experie\u2c6ncia da observac¸a\u2dco f´\u131sica.
E foi Devereux quem, em primeiro lugar (em 1938), mostrou o proveito que a
etnologia podia tirar desse princ´\u131pio, comum a toda abordagem cient´\u131fica. A
perturbac¸a\u2dco que o etno´logo impo\u2dce atrave´s de sua presenc¸a a`quilo que observa
e que perturba a ele pro´prio, longe de ser considerada como um obsta´culo
que seria conveniente neutralizar, e´ uma fonte infinitamente fecunda de co-
nhecimento. Incluir-se na\u2dco apenas socialmente mas subjetivamente faz parte
142CAPI´TULO 17. O OBSERVADOR, PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO:
do objeto cient´\u131fico que procuramos construir, bem como do modo de conhe-
cimento caracter´\u131stico da profissa\u2dco de etno´logo. A ana´lise, na\u2dco apenas das
reac¸o\u2dces dos outros a` presenc¸a deste, mas tambe´m de suas reac¸o\u2dces a`s reac¸o\u2dces
dos outros, e´ o pro´prio instrumento capaz de fornecer a` nossa disciplina van-
tagens cient´\u131ficas considera´veis, desde que se saiba aproveita´-lo.
Cap´\u131tulo 18
Antropologia E Literatura:
O confronto da antropologia com a literatura e´ imprescind´\u131vel. O antropo´logo,
que realiza uma experie\u2c6ncia nascida do encontro do outro, atuando como
uma metamorfose de si, e´ frequ¨entemente levado a procurar formas narra-
tivas (romanescas, poe´ticas e, mais recentemente, cinematogra´ficas) capazes
de expressar e transmitir o mais exatamente poss´\u131vel essa experie\u2c6ncia.
* * *
Uma parte importante da literatura mante´m, como a etnologia, uma relac¸a\u2dco
\u2013 por sinal, extremamente complexa \u2013 com a viagem. Inumera´veis sa\u2dco os es-
critores para os quais o pro´prio ato de escrever implica uma situac¸a\u2dco de
deslocamento. Basta citar O Itinera´rio de Paris a Jerusalem, Atala, Os
Natehez, de Chateaubriand, Viagem no Oriente, de Ner-val, Os Pequenos
Poemas em Prosa, de Baudelaire, Oviri, de Gauguin, Os Tarahumaras, de
Antonin Artaud, Les Nour-ritures Terrestres, de Gide, Aziyade´, de Loti, A
Viagem para Tombuctu, de Caillie´, Impresso\u2dces da A´frica, de Roussel, Bour-
linguer, de Cendrars, Aa`ipi, de Melville, Typhon, de Conrad. . . ou, entre
nossos contempora\u2c6neos, A Modificac¸a\u2dco, de Michel Butor, A Ilha, de Robert
Merle, Equinoxiais, de Gilles Lapouge, Sexta-Feira ou os Limbos do Pac´\u131fico,
de Michel Tournier, A Procura do Ouro, de J. M. le Cle´zio.
Entre as obras que acabamos de citar, algumas se enquadram nessa famosa
literatura de viagem (\u201doriental\u201d, \u201dtropical\u201d, ocea\u2c6nica. . .) conhecida sob o
nome de \u201dexotismo\u201d. Descobrindo novos horizontes, o escritor se da´ conta
(e geralmente aprecia) do fato de que sua cultura na\u2dco e´ a u´nica no mundo:
o que o leva a mudar radicalmente no relato o cena´rio tradicional do campo
litera´rio cla´ssico. Ele e´ tomado pela beleza de um espeta´culo que o encanta
e mobiliza na\u2dco apenas seu olhar, mas o conjunto de seus sentidos: uma na-
tureza grandiosa, populac¸o\u2dces projetadas, de qualquer intrusa\u2dco da civilizac¸a\u2dco
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144 CAPI´TULO 18. ANTROPOLOGIA E LITERATURA:
ocidental. Nesse espac¸o fora do espac¸o e nesse tempo fora do tempo, li-
bertado das obrigac¸o\u2dces da sociedade, faz a experie\u2c6ncia de uma felicidade e
sobretudo de uma liberdade de que na\u2dco suspeitava, enquanto se interroga
sobre sua pro´pria identidade.
Conve´m finalmente lembrar que no Ocidente nossos grandes livros de apren-
dizagem sa\u2dco relatos de viagem: Robinson Crusoe´, Moby Dick, A Volta ao
Mundo em Oitenta Dias, Miguel Strogoff, A Viagem de Nils Olgerson, Alice
no Pa´\u131s das Maravilhas, O Pequeno Pr´\u131ncipe. . .
Na\u2dco nos enganemos sobre a natureza dessas obras \u2013por sinal, elas sa\u2dco muito
diferentes entre si \u2013 nem sobre a nossa intenc¸a\u2dco: essas na\u2dco sa\u2dco, de forma
alguma, livros de etnologia. Alguns, ate´, nos ensinam apenas muito subsidia
riamente a olhar para os outros, pois o escritor