Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica52 materiais2.212 seguidores
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da forma
como seus atores sociais a vivem, mas tambe´m, mas sobretudo, em entender
o que lhes escapa e so´ pode lhes escapar. De fato, o que vivem os membros
de uma determinada sociedade na\u2dco poderia ser compreendido situando-se
apenas dentro dessa sociedade. O olhar distanciado, exterior, diferente, do
estranho, e´ inclusive a condic¸a\u2dco que torna poss´\u131vel a compreensa\u2dco das lo´gicas
que escapam aos atores sociais. Ao familiarizar-se com o que de in´\u131cio parecia
estranho, o etno´logo vai tornar estranho para esses atores o que lhes parecia
familiar.
Conve´m portanto insistir aqui sobre a opacidade das estrate´gias sociais.
Parece-nos de fato, que, de um determinado ponto de vista, os camponeses de
Cevennes sa\u2dco os pior situados para compreender os camponeses de Cevennes,
e os professores de filosofia para compreender os professores de filosofia, ou
ainda, os franceses para compreender os franceses;1 pois as significac¸o\u2dces pro-
duzidas na\u2dco residem apenas naquilo que uma cultura ou microcultura afirma,
mas naquilo que na\u2dco diz. Nenhuma sociedade e´ de fato perfeitamente trans-
parente a si mesma, nenhuma escapa de suas armadilhas conscientes. Cada
grupo humano, como tambe´m cada indiv´\u131duo, fornece a si pro´prio e aos ou-
1Cf., sobre esse ponto, os trabalhos de L. Wylie (1968), que e´ americano, ou de Zeldin
C983). que e´ ingle\u2c6s
19.1. O DENTRO E O FORA 151
tros racionalizac¸o\u2dces de suas condutas, que consistem em modelos conscientes
que o etno´logo na\u2dco deve cortejar e adaptar, nem contornar e exorcisar, e sim
analisar.
Assim, o risco do primeiro momento (habitualmente designado pela expressa\u2dco
\u201dcompreensa\u2dco por dentro\u201d) e´, seja uma participac¸a\u2dco cega e uma \u201dempa-
tia\u201dque na\u2dco se consegue mais controlar, seja a retranscric¸a\u2dco, em termos eru-
ditos e na forma de uma redunda\u2c6ncia, do que foi expresso, por exemplo,
pelo campone\u2c6s ou pelo opera´rio em termos populares. Alguns etno´logos te\u2c6m
tende\u2c6ncia a supervalorizar o discurso do outro, isto e´, a abandonar um mo-
delo de pensamento por outro. Mas em tais condic¸o\u2dces, como diz MarcAuge´
(1979), \u201do etno´logo que tentasse compreender o universo dos bororos e ex-
plica´-lo de dentro, na\u2dco seria mais um etno´logo e sim um bororo\u201d.
O risco inverso pode apresentar-se na ocasia\u2dco do segundo momento do pro-
cesso (a \u201dcompreensa\u2dco de fora\u201d). Quando o discurso sobre o outro tende
a dominar o discurso do outro, degenera habitualmente em um discurso a`
revelia do outro, podendo contribuir na morte do outro (e na morte das ci-
vilizac¸o\u2dces). O paradoxo merece ser sublinhado. Enquanto nossa profissa\u2dco de
etno´logo exige que comecemos toda pesquisa pela aprendizagem da mode´stia,
por uma ruptura cultural, ou ate´ por uma \u201dconversa\u2dco\u201d, deixando-nos ensinar
e aculturar como crianc¸as, nossas produc¸o\u2dces eruditas terminam quase sem-
pre tomando as outras sociedades conformes a` inteligibilidade que organiza
a nossa. O risco., na\u2dco desprez´\u131vel, e´ de estarmos carregando conosco um
modelo de leitura, de sociedade em sociedade, com a convicc¸a\u2dco de sempre
permanecer com a u´ltima palavra. Se a etnologia conseguir superar a ide-
ologia da idealizac¸a\u2dco amorosa, da fusa\u2dco e da confusa\u2dco, parece-me que na\u2dco
deve ser para voltar ao estatuto etnoce\u2c6ntrico da racionalidade ocidental, que
e´ apenas uma forma de lo´gica entre tantas outras.
Le´vi-Strauss compara frequ¨entemente a antropologia a` astronomia. Qualifica
a primeira de \u201dastronomia das cie\u2c6ncias sociais\u201d, e diz do olhar antropolo´gico
que e´ um \u201dolhar de astro\u2c6nomo\u201d. E´ a proximidade desse olhar sobre soci-
edades long´\u131nquas que permite notadamente que o pesquisador, de volta a
sua pro´pria sociedade, possa olha´-la a dista\u2c6ncia E e´ o cara´ter microsco´pico
de sua abordagem que fundamenta paradoxalmente a natureza telesco´pica
de sua abordagem. Existe, e´ claro, uma contradic¸a\u2dco aparente nesse olhar
pro´ximo do long´\u131nquo que age como um olhar long´\u131nquo do pro´ximo; mas
essa contradic¸a\u2dco, todo etno´logo a encontrou pelo menos uma vez na vida.
Em suma, parece-nos que essa tensa\u2dco entre pesquisadores, mas sobretudo,
152CAPI´TULO 19. AS TENSO\u2dcES CONSTITUTIVAS DA PRA´TICA ANTROPOLO´GICA:
em um mesmo pesquisador,2 entre a situac¸a\u2dco de outsider e a de insider \u2013 que
e´ a pro´pria definic¸a\u2dco da \u201dobservac¸a\u2dco participante\u201d, essa vontade de \u201dpoder
pensar e sentir alternadamente como um selvagem e como um europeu\u201d(E.
Evans-Pritchard, 1969) \u2013 e´ constitutiva de nossa profissa\u2dco. Como escrevia,
ha´ mais de um se´culo, Tylor, um dos primeiros antropo´logos:
\u201dExiste uma espe´cie de fronteira aque´m da qual e´ preciso estar para sim-
patizar com o mito, e ale´m da qual e´ preciso estar para estuda´-lo. Temos a
sorte de viver perto dessa faixa fronteiric¸a e de poder passar e repassa´-la a`
vontade\u201d.
19.2 A Unidade E A Pluralidade
Fazer antropologia e´ segurar as duas extremidades da cadeia e afirmar com
a mesma forc¸a:
\u2022 existe, como escreve Mauss, uma \u201dunidade do ge\u2c6nero humano\u201d
\u2022 tal costume, tal instituic¸a\u2dco, tal comportamento, estranhos a minha
sociedade, sa\u2dco realmente diferentes
1) Esse descentramento teo´rico de si por abertura ao outro e´ frequ¨entemente,
na pra´tica, apenas uma traduc¸a\u2dco de um discurso em outro, de uma mentali-
dade em outra, uma extensa\u2dco e anexac¸a\u2dco do outro, reduzido a mera figura do
mesmo. E´ notadamente o caso do evolucionismo que dissolve a alteridade na
unidade, pois, como vimos, o \u201dprimitivo\u201dna\u2dco e´ visto como sendo realmente
diferente de no´s. Encarna a forma social ultrapassada do que fomos outrora,
e e´ utilizado como a ilustrac¸a\u2dco de um processo u´nico que sempre conduz ao
ide\u2c6ntico. Mas essa tende\u2c6ncia da pra´tica antropolo´gica atua tambe´m em abor-
dagens que, no entanto, apresentam-se como radicalmente opostas. E´, por
exemplo, fa´cil encontrar uma contradic¸a\u2dco, na obra de Malinowski, entre, de
um lado a experie\u2c6ncia pessoal do observador, que se esforc¸a em dar conta da
especificidade irredut´\u131vel dos insulares trobriandeses, e a convicc¸a\u2dco do teo´rico
que, no final de sua vida, reflete sobre o funcionamento da humanidade em
geral, pois considera que, finalmente, os homens sa\u2dco em toda parte os mes-
mos. A abordagem ta\u2dco exigente do etno´grafo, que evidencia as diferenc¸as que
observa, termina dis-solvendo-se no dogmatismo unita´rio da func¸a\u2dco. Com-
preendemos, dentro desse quadro, o questionamento de nossa disciplina, que
2Lembramos, por exemplo, que Malinowski no in´\u131cio de sua carreira, ao estudar os
Trobriandeses (1963), privilegia um modo de conhecimento por \u201ddentro\u201d, em seguida,
quando elabora sua Teoria Cient´\u131fica da Cultura (1968), da´ prioridade a um mo\u2019do de
conhecimento claramente distanciado.
19.2. A UNIDADE E A PLURALIDADE 153
se expressa notadamente pela voz dos intelectuais do \u201dterceiro mundo\u201d(cf.
por exemplo Fanon, 1952, Baldwin, 1972, Adotevi, 1972) pedindo o fim da
antropologia, este mono´logo tranqu¨ilo do Ocidente consigo mesmo, no qual
a u´nica racionalidade presente estaria conferida por um sujeito ativo a um
objeto passivo.
Essa acusac¸a\u2dco segundo a qual o conhecimento dos outros estaria reduzido
ao Saber verdadeiro por um observador possuindo infalivelmente a verdade
do observado, e procurando menos o advento com os outros daquilo que na\u2dco
pensava, do que a verificac¸a\u2dco sobre os outros daquilo que pensava, coloca um
problema essencial: a u´nica cie\u2c6ncia e´ ocidental? e a antropologia teria apenas
uma modalidade do conhecimento por objetivac¸a\u2dco? Nossa disciplina \u2013 pelo
menos tal como a concebo \u2013 aspira a uma forma de racionalidade que na\u2dco
e´ a das cie\u2c6ncias sociais, tais como a economia, a sociologia ou a demografia,
as quais \u201daceitam sem retice\u2c6ncias\u201d, como diz Le´vi-Strauss, \u201destabelecer-se
dentro mesmo de suas sociedades\u201d. E, por outro lado, embora na\u2dco se trate
de cie\u2c6ncias, no sentido ocidental do termo, existem, em outras culturas, for-
mas de conhecimento cuja lo´gica na\u2dco