Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.212 seguidores
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tem realmente nada a invejar da nossa:
por exemplo, as grama´ticas indianas, os \u201dsaberes sobre o corpo\u201dasia´ticos, ou
ainda as instituic¸o\u2dces familiares tais como foram elaboradas pelos abor´\u131gines
australianos, ta\u2dco complexas que precisamos, no Ocidente, para compreende\u2c6-
las, apelar para os recursos das matema´ticas modernas.
2) Esses u´ltimos comenta´rios nos levam a nos voltar para o segundo po´lo
dessa tensa\u2dco entre a unidade da cultura (o outro e´ um homem como no´s,
como vemos na trage´dia shakespeariana) e a diversidade das culturas. A par-
tir desse segundo po´lo, organiza-se toda uma corrente, que encontra uma de
suas primeiras expresso\u2dces em Montaigne (os costumes diferem tanto quanto
os trajes, ha´ uma verdade ale´m dos Pireneus. . .), atravessa o pensamento
antropolo´gico contempora\u2c6neo, e consiste dessa vez em considerar as dife-
renc¸as como irredut´\u131veis.
O que e´ evidenciado nessa perspectiva3 e´ o cara´ter assime´trico da relac¸a\u2dco
entre o observador e o observado, a dominac¸a\u2dco que uma civilizac¸a\u2dco estaria
impondo deliberada ou dissimuladamente a todas as outras, e a natureza,
considerada repressiva, da cie\u2c6ncia, que seria a racionalizac¸a\u2dco desse processo.
Preconiza-se enta\u2dco uma relac¸a\u2dco empa´tica, igualita´ria e convivial, que pro-
3Perspectiva ao mesmo tempo antievolucionista. antifuncionalista. antiestruturalista,
antimarxista, mas claramente culturalista, encontrada em autores como Castaneda (1982).
Clastres (1974). Delfendhal (1973), (aulin (1970. 1973).
154CAPI´TULO 19. AS TENSO\u2dcES CONSTITUTIVAS DA PRA´TICA ANTROPOLO´GICA:
porcionaria a possibilidade de dessolidarizar-se do mundo europeu. E´ uma
forma de conhecimento mais humana, que poder´\u131amos qualificar de \u201detnolo-
gia mansa\u201d, como falamos de \u201dmedicina mansa\u201d, visando, contra o cosmopo-
litismo, a reabilitar a identidade das regio\u2dces (cf., por exemplo, P. J. He´lias,
1975). Opo\u2dce-se enta\u2dco radicalmente a sabedoria das sociedades tradicionais
a` viole\u2c6ncia frene´tica da sociedade racionalista, da qual a antropologia seria
cu´mplice. Finalmente, considera-se que o que e´ separado pela barreira das
culturas na\u2dco deve ser reunido, nem mesmo pelo pensamento teo´rico. Disso
decorre a oposic¸a\u2dco aos pro´prios conceitos de homens e de antropologia, aos
quais se prefere o de povo (no plural) e de etnologia.
Procuremos analisar as implicac¸o\u2dces de tal atitude.
1) Em primeiro lugar, a inquietude que demonstram esses autores com res-
peito a uma homogeneizac¸a\u2dco, pelo Ocidente das diferentes culturas do mundo,
me parece pouco fundamentada. De volta de uma missa\u2dco cient´\u131fica no Nor-
deste do Brasil, posso relatar o seguinte: uma populac¸a\u2dco constitu´\u131da em sua
maioria de descendentes de europeus, e confrontada hoje a uma conjuntura
econo\u2c6mica internacional que lhe e´ eminentemente desfavora´vel, soube criar
formas de sociabilidade plenamente originais, encontra´veis no menor com-
portamento da vida cotidiana, e que na\u2dco se deixam de forma alguma alterar
pelos modelos culturais vigentes em Paris, Londres ou Chicago. Sabemos
de fato que, quanto mais uma sociedade tende a uniformizar-se, mais tende
simultaneamente a diversificar-se. Assim, por exemplo, a hegemonia ariana,
que ia levar a` unificac¸a\u2dco da I´ndia, foi acompanhada correlativamente de uma
divisa\u2dco da sociedade em castas. Da mesma forma, foi a influe\u2c6ncia, que pare-
cia exclusivamente niveladora, da revoluc¸a\u2dco industrial do se´culo XVIII que
permtiiu a radicalizac¸a\u2dco dos diferentes estatutos entre os grupos (as classes
sociais). Mais uma vez, o Brasil contempora\u2c6neo me parece particularmente
revelador a esse respeito e nos leva ainda mais adiante. A cultura popular na\u2dco
so´ resiste notavelmente a` cultura dominante, como tambe´m, frequ¨entemente,
consegue se impor a esta, de uma maneira dificilmente imagina´vel no Oci-
dente. Aquilo que Bastide comec¸ava a notar, trinta anos atra´s, ao estudar os
cultos afro-brasileiros, acentuou-se e confirmou-se. Encontrei pessoalmente
membros das classes superiores da sociedade brasileira que, no decorrer das
cerimo\u2c6nias de umbanda, sa\u2dco sucessivamente \u201dpossu´\u131dos\u201dpelos esp´\u131ritos das
divindades dos \u131´ndios e dos ancestrais africanos do tempo da escravida\u2dco. Ora,
esse feno\u2c6meno pode ser melhor apreendido, na\u2dco nas regio\u2dces mais exteriores
em relac¸a\u2dco ao desenvolvimento econo\u2c6mico do pa´\u131s, como o Nordeste, mas no
Rio de Janeiro ou em Sa\u2dco Paulo, que e´ hoje uma das primeiras metro´poles
industriais do mundo.
19.2. A UNIDADE E A PLURALIDADE 155
2) A ide´ia de que o outro e´ radicalmente outro, de que, por exemplo, o
Novo Mundo e´ de fato um outro mundo, e de que na\u2dco se poderia preencher
(e, mesmo se fosse poss´\u131vel, na\u2dco se deveria faze\u2c6-lo) a diferenc¸a absoluta que
o separa de no´s, participa de um etnocentrismo invertido que na\u2dco deixa de
lembrar de Pauw ou Hegel. Para estes, como lembramos, as sociedades selva-
gens sa\u2dco totalmente diferentes das sociedades histo´ricas. E´ \u201dum outro mundo
cultural\u201d, diz Hegel, que tambe´m fala em uma \u201desse\u2c6ncia\u201ddos africanos. O
fato de a alteridade ser aqui valorizada, por um agrada´vel movimento de
pe\u2c6ndulo ao qual nos acostumou o pensamento para-antropolo´gico, na\u2dco afeta
em nada a natureza ideolo´gica do processo em questa\u2dco.
3) Essa celebrac¸a\u2dco da sabedoria e do conv´\u131vio dos outros na\u2dco resiste a` ob-
servac¸a\u2dco dos fatos: decorre da construc¸a\u2dco de uma alteridade fantasma´tica
que se faz passar por realidade. O africano, o \u131´ndio, o breta\u2dco. . . sa\u2dco mobi-
lizados mais uma vez como suportes do imagina´rio do ocidental culto, como
objeto-pretexto utilizado aqui com vistas ao protesto moral, como pode se\u2c6-lo
com vistas a` emoc¸a\u2dco este´tica ou a milita\u2c6ncia pol´\u131tica. E correlativamente
dessa vez, atrave´s dessa deontologia do olhar para o outro \u2013 o qual acaba
inclusive perdendo-se, pois olha-se para si mesmo dentro do espelho do outro
\u2013, aquele que esta´ submetido a um processo de dominac¸a\u2dco e humilhac¸a\u2dco na\u2dco
e´ mais o outro (sadismo), e sim si pro´prio e sua pro´pria sociedade (maso-
quismo). A excelente imagem que se deve ter dos outros acompanha-se de
fato da ma´ imagem que se tem de si (cf., por exemplo, Jean Monod, 1972,
que se acusa de ser um \u201drico canibal\u201d). Ou seja, ha´ uma recusa de assumir
sua pro´pria identidade, o que tem como corola´rio a culpa ou a difamac¸a\u2dco da
ocidentalidade.4Em suma, tudo se passa como se esse protesto indignado \u2013 o
fato de querer devolver sua dignidade aos outros \u2013 devesse passar inelutavel-
mente por um processo consistindo em acusar-se a si pro´prio de indignidade.
4) A ide´ia de que os que visam compreender racionalmente a alteridade es-
tariam se comportando praticamente como Corte\u2c6s com os Astecas, enquanto
que, indo ate´ o fim da ruptura com o Ocidente, se poderia talvez chegar,
atrave´s de um conhecimento por assim dizer amoroso, a coincidir com a ver-
dadeira natureza do outro, enquandra-se mais em uma experie\u2c6ncia religiosa,
4. A descric¸a\u2dco, por Turnbull (1972), de selvagens que na\u2dco te\u2c6m realmente nada de
\u201dbons selvagens\u201d, e o fato de que o etno´logo. como qualquer ser humano, possa sentir
o´dio em relac¸a\u2dco a estes, e escreve\u2c6-lo, causou esca\u2c6ndalo entre os etno´logos. Mas que estes
u´ltimos na\u2dco sejam \u201dnem santos, nem hero´is\u201d, como diz Panoff (1977), \u201dna\u2dco impede que
os trobriandeses sejam matrilineares, nem que os Nuers levem uma vida ritmada p\ufffdlas
necessidades pastorais e pelas condic¸o\u2dces meteorolo´gicas\u201d.
156CAPI´TULO 19. AS TENSO\u2dcES CONSTITUTIVAS DA PRA´TICA ANTROPOLO´GICA:
que faria do etno´logo um iniciado ou um eleito, do que na cie\u2c6ncia. E ale´m
disso, tudo nos impele \u2013 na esteira dessa para-antropologia que identifica a
abordagem do pesquisador com o ponto de vista dos pro´prios atores, que
afirma que e´ preciso ser origina´rio de sua cultura para compreende\u2c6-la real-
mente \u2013 a ficar em casa, a permanecer entre si. Apenas o \u131´ndio (e, a rigor,
aquele que se tornar seu adepto) e´