Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.212 seguidores
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Mas as representac¸o\u2dces inversas, chamadas \u201dadorc´\u131sticas\u201de que correspondem
a`s duas figuras do me´dico-louco e do paciente-ora´culo, nem por isso esta\u2dco au-
sentes. Esta\u2dco simplesmente recalcadas, e tornam-se manifestas se passarmos
de uma cultura para outra (dos exorcistas thonga aos xama\u2dcs shongai), ou de
uma cultura para ela mesma no tempo (da nossa psiquiatria cla´ssica para
a corrente que qualifica a si pro´pria de \u201dantipsiquiatria\u201d, que na\u2dco produz
realmente algo novo, mas reatualiza antes algo recalcado).
Da mesma forma, os cultos de possessa\u2dco afro-brasilei-ros, tais como os estou
estudando neste momento em uma grande cidade do Nordeste, podem ser
utilizados como reveladores da abordagem antipsiquia´trica inglesa \u2013 e parti-
cularmente de Laing \u2013 que expressa ao n´\u131vel do discurso o que os brasileiros
realizam ao n´\u131vel do corpo.
Poder´\u131amos assim multiplicar os exemplos, e mostrar que o processo, co-
nhecido dos psicossocio´logos, da exclusa\u2dco em um grupo que se quer ho-
moge\u2c6neo, torna-se particularmente claro e \u201ddesocultado\u201dquando nos refe-
rimos a` feitic¸aria que e´ uma regulac¸a\u2dco social estruturalmente universal, etc.
De tudo isso, resulta que o objetivo da etnologia na\u2dco e´ o de traduzir a alteri-
dade nos moldes do que e´, para minha sociedade, conhecido e correto (o que
equivaleria a suprimir essa alteridade); nem o de estender a racionalidade a`s
dimenso\u2dces do universo, nos modos missiona´rios ou messia\u2c6nicos da conquista
(pois essa racionalidade e´ provinciana, isto e´, limitada no espac¸o e no tempo).
A etnologia, pelo contra´rio, abre essa estreiteza monocultural. E no entanto,
para que o pro´prio empreendimento que caracteriza \u201dnossa disciplina, na\u2dco
apenas como experie\u2c6ncia e como aventura, mas como cie\u2c6ncia, seja poss´\u131vel,
algo desse pensamento ocidental tera´ sido utilizado como mediador e como
instrumento: na\u2dco uma cultura (a nossa) que serviria de referencial absoluto
e daria sentido a feno\u2c6menos que inicialmente na\u2dco tinham, e sim um me´todo,
ocidental, e´ claro, pela sua origem histo´rica e cultural, mas que subverte a
racionalidade ocidental.5
5Seria ta\u2dco absurdo dizer que a antropologia, que nasceu no Ocidente, e´ indefectivel-
mente ocidentalo-ce\u2c6ntrica, como dizer que a psicana´lise, que nasceu em Viena, e´ espec´\u131fica
e exclusivamente vienense. Se a antropologia e´ \u201dfilha do colonialismo\u201d, \u201dnada seria mais
falso\u201d, como escreve Le´vi-Strauss (1973), \u201ddo que considera´-la como a u´ltima reencarnac¸a\u2dco
do esp´\u131rito colonial\u201d.
160CAPI´TULO 19. AS TENSO\u2dcES CONSTITUTIVAS DA PRA´TICA ANTROPOLO´GICA:
Dito isso, a lo´gica das condutas e das insttiuic¸o\u2dces que o etno´logo procura evi-
denciar tambe´m na\u2dco se confunde com os sistemas de interpretac¸o\u2dces auto´ctones,
com os modelos conscientes, \u201dfeitos em casa\u201d(Le´vi-Strauss), com os ge\u2c6neros
que sa\u2dco classificac¸o\u2dces ind´\u131genas expl´\u131citas. Sistemas de interpretac¸o\u2dces auto´ctones,
modelos conscientes e ge\u2c6neros sa\u2dco frequ¨entemente deformac¸o\u2dces e raciona-
lizac¸o\u2dces de estruturas inconscientes (que fornecem no entanto possibilidades
de acesso a estas u´ltimas), e este e´ o n´\u131vel de inteligibilidade que a antropo-
logia pretende alcanc¸ar: na\u2dco o consciente, mas o inconsciente em sua relac¸a\u2dco
com o consciente, o tipo em sua relac¸a\u2dco com o ge\u2c6nero, etc.
Concluiremos essas reflexo\u2dces com as observac¸o\u2dces seguintes. As pra´ticas simbo´licas
e os discursos vividos (que podem ser sistematizados em qualquer lugar, pois
cada sociedade tem seus pro´prios teo´ricos) na\u2dco sa\u2dco interpretados pela antro-
pologia segundo a maneira como seus atores sociais os vivem, nem segundo
a maneira com a qual os observadores os percebem. Isso na\u2dco significa que o
antropo´logo seja o homem de nenhum lugar, e que a antropologia seja uma
metalinguagem. O conhecimento antropolo´gico surge do encontro, na\u2dco ape-
nas de dois discursos expl´\u131citos, mas de dois inconscientes em espelho, que
espelham uma imagem deformada. E´ o discurso sobre a diferenc¸a (e sobre
minha diferenc¸a) baseado em uma pra´tica da diferenc¸a que trabalha sobre os
limites e as fronteiras.
Tomemos o exemplo de uma conduta que na\u2dco e´ minha, como a feitic¸aria, e
que pertence seja a uma \u201dmatriz prima´ria\u201dde uma sociedade outra, seja a um
segmento marginal de uma sociedade minha. Seu significado antropolo´gico
so´ pode ser apreendido relacionando-a aquilo que para minha sociedade tem
um sentido, ou aquilo que a pra´tica e a lo´gica da feitic¸aria dizem por si mes-
mas, nos gestos e discursos dos interessados, mas na sua junc¸a\u2dco e na sua
intersecc¸a\u2dco.
Nesse caso espec´\u131fico, a realidade, para o antropo´logo, constitui-se do con-
fronto de dois discursos interpretativos que se juntam, e constituem, o pri-
meiro, a realidade normalizante do discurso \u201derudito\u201d(do psiquiatra, do pa-
dre, do professor prima´rio. . .), o segundo, a realidade alucinada e desviante,
mas que e´ tambe´m a expressa\u2dco de uma realidade social. A antropologia,
portanto, so´ comec¸a a adquirir um estatuto cient´\u131fico partir do momento em
que integra, para analisa´-lo, esse envolvimento do pesquisador (ao mesmo
tempo psicoafetivo e so´cio-histo´rico) a`s voltas com a diferenc¸a.
Resumiremos da seguinte forma essa ambigu¨idade e essa tensa\u2dco (que atua
evidentemente muito mais no estudo dos sistemas de representac¸o\u2dces e valo-
19.3. O CONCRETO E O ABSTRATO 161
res do que da cultura material). Na\u2dco posso ser ao mesmo tempo eu mesmo e
um outro, e no entanto, para ser totalmente eu, eu devo tambe´m sair de mim
a fim de apreender uma figura recalcada, mas poss´\u131vel- de mim. Na\u2dco posso
situar-me simultaneamente dentro e fora de minha sociedade, e no entanto,
para compreender minha sociedade no que nunca diz de si pro´pria por que
na\u2dco o percebe, devo fazer a experie\u2c6ncia de uma descentrac¸a\u2dco radical.
Finalmente essa atividade continua interrogando-me na pro´pria atividade
pela qual contribuo a fabrica´-la como objeto cient´\u131fico.
* * *
A separac¸a\u2dco teolo´gica, filoso´fica, e depois cient´\u131fica, do homem e da natu-
reza (especialmente os animais, mas tambe´m nossa animalidade), do homem
e de seu semelhante, a separac¸a\u2dco do sujeito e do objeto, do sens´\u131vel e do
intelig´\u131vel, constituem os termos de uma tensa\u2dco que, a meu ver, na\u2dco admite
resoluc¸a\u2dco em uma unidade superior como em Hegel. Esses termos, a na\u2dco ser
em uma soluc¸a\u2dco fisiolo´gica, formam uma complementaridade conflitual, mas
na\u2dco uma \u201ddiale´tica\u201d, conceito para o qual se apela (na verdade, cada vez me-
nos) quando se procura uma receita, uma tre´gua poss´\u131vel, e que tem, como
diz Jean Grenier, \u201duma virtude ma´gica infal´\u131vel\u201d. Sa\u2dco as diferentes dosagens
realizadas, as diferentes combinac¸o\u2dces obtidas entre uma compreensa\u2dco \u201dpor
dentro\u201de uma compreensa\u2dco \u201dpor fora\u201d, entre a alteridade e a identidade, a
diferenc¸a e a unidade, a subjetividade e a objetividade (mas tambe´m a sin-
cronia e a diacronia, a estrutura e o evento) que comandam o pluralismo
antropolo´gico, mas tambe´m as incompreenso\u2dces, ou mesmo as discorda\u2c6ncias
entre antropo´logos. Se, por exemplo, minimizo a alteridade cultural, arrisco-
me a realizar uma atividade de descodificac¸a\u2dco, isto e´, de transcric¸a\u2dco de um
discurso em outro. Mas ao superestimar essa alteridade (ponto de vista do
culturalismo), torno totalmente imposs´\u131vel e impensa´vel aquilo que precisa-
mente fundamenta o projeto antropolo´gico: a comunicac¸a\u2dco dos seres e das
culturas.
A aposta da antropologia e´ precisamente a de viver esse movimento ininter-
rupto. Na\u2dco pretendo pessoalmente te\u2c6-lo conseguido profissionalmente. Digo
apenas que tentei essa experie\u2c6ncia. Esse empreendimento, por mais exigente
e cheio de armadilhas que seja, na\u2dco tem nada de imposs´\u131vel. Roger Bastide
entendeu de dentro o que chamava de \u201dpensamento obscuro e confuso\u201ddos
s´\u131mbolos, e, mais que qualquer um, empenhou-se no pensamento \u201dclaro e
distinto\u201ddos conceitos. Totalmente integrado ao candomble´