Aprender Antropologia - François Laplantine
172 pág.

Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.212 seguidores
Pré-visualização44 páginas
Para estes
u´ltimos, longe de ser uma \u201dcie\u2c6ncia natural da sociedade\u201d(Radcliffe-Brown), a
antropologia deve antes ser considerada como uma \u201darte\u201d(Evans-Pritchard).
3) Uma terceira dificuldade prove´m da relac¸a\u2dco amb´\u131gua que a antropolo-
gia mante´m desde sua ge\u2c6nese com a Histo´ria. Estreitamente vinculadas nos
se´culos XVIII e XIX, as duas pra´ticas va\u2dco rapidamente se emancipar uma
da outra no se´culo XX, procurando ao mesmo tempo se reencontrar perio-
dicamente. As rupturas manifestas se devem essencialmente a antropo´logos.
Evans-Pritchard: \u201dO conhecimento da histo´ria das sociedades na\u2dco e´ de ne-
7Para que o leitor que na\u2dco tenha nenhuma familiaridade com esses conceitos possa
localizar-se, vale a pena especificar bem o significado dessas palavras. Estabelec¸amos,
como Le´vi-Strauss, que a etnografia, a etnologia e a antropologia constituem os tre\u2c6s mo-
mentos de uma mesma abordagem. A etnografia e´ a coleta direta, e o mais minuciosa
poss´\u131vel, dos feno\u2c6menos que observamos, por uma impregnac¸a\u2dco duradoura e cont´\u131nua e
um processo que se realiza por aproximac¸o\u2dces sucessivas. Esses feno\u2c6menos podem ser reco-
lhidos tomando-se notas, mas tambe´m por gravac¸a\u2dco sonora, fotogra´fica ou cinematogra´fica.
A etnologia consiste em um primeiro n´\u131vel de abstrac¸a\u2dco: analisando os materiais colhidos,
fazer aparecer a lo´gica espec´\u131fica da sociedade que se estuda. A antropologia, finalmente,
consiste era um segundo n´\u131vel de inteligibilidade: construir modelos que permitam com-
parar as sociedades entre si. Como escreve Le´vi-Strauss, \u201dseu objetivo e´ alcanc¸ar, ale´m da
imagem consciente e sempre diferente que os homens formam de seu devir, um inventa´rio
das possibilidades inconscientes, que na\u2dco existem em nu´mero ilimitado\u201d.
8Ao modelo orga\u2c6nico dos funcionalistas ingleses, Le´vi-Strauss substituiu, como vere-
mos, um modelo lingu¨´\u131stico, e mostrou que trabalhando no ponto de encontro da natureza
(o inato) e da cultura (tudo o que na\u2dco e´ hereditariamente programado e deve ser inven-
tado pelos homens onde a natureza na\u2dco programou nada), a antropologia deve aspirar a
tornar-se uma cie\u2c6ncia natural: \u201dA antropologia pertence a`s cie\u2c6ncias humanas, seu nome o
proclama suficientemente; mas se se resigna em fazer seu purgato´rio entre as cie\u2c6ncias soci-
ais, e´ porque na\u2dco desespera de despertar entre as cie\u2c6ncias naturais na hora do julgamento
final\u201d(Le´vi-Strauss, 1973)
CONTEU´DO 17
nhuma utilidade quando se procura compreender o funcionamento das insti-
tuic¸o\u2dces\u201d. Mais catego´rico ainda, Leach escreve: \u201dA gerac¸a\u2dco de antropo´logos
a` qual pertenc¸o tira seu orgulho de sempre ter-se recusado a tomar a Histo´ria
em considerac¸a\u2dco\u201d. Conve´m tambe´m lembrar aqui a distinc¸a\u2dco agora famosa
de Le´vi-Strauss opondo as \u201dsociedades frias\u201d, isto e´, \u201dpro´ximas do grau zero
de temperatura histo´rica\u201d, que sa\u2dco menos \u201dsociedades sem histo´ria\u201d, do que
\u201dsociedades que na\u2dco querem ter esto´rias\u201d(u´nicos objetos da antropologia
cla´ssica) a nossas pro´prias sociedades qualificadas de \u201dsociedades quentes\u201d.
Essa preocupac¸a\u2dco de separac¸a\u2dco entre as abordagens histo´rica e antropolo´gica
esta´ longe, como veremos, de ser una\u2c6nime, e a histo´ria recente da antropo-
logia testemunha tambe´m um desejo de coabitac¸a\u2dco entre as duas disciplinas.
Aqui, no Nordeste do Brasil, onde comec¸o a escrever este livro, desde 1933,
um autor como Gilberto Freyre, empenhando-se em compreender a formac¸a\u2dco
da sociedade brasileira, mostrou o proveito que a antropologia podia tirar do
conhecimento histo´rico.
4) Uma quarta dificuldade prove´m do fato de que nossa pra´tica oscila sem
parar, e isso desde seu nascimento, entre a pesquisa que se pode qualificar de
fundamental e aquilo que e´ designado sob o termo de \u201dantropologia aplicada\u201d.
Comec¸aremos examinando o segundo termo da alternativa aqui colocada e
que continua dividindo profundamente os pesquisadores. Durkheim conside-
rava que a sociologia na\u2dco valeria sequer uma hora de dedicac¸a\u2dco se ela na\u2dco
pudesse ser u´til, e muitos antropo´logos compartilham sua opinia\u2dco. Margaret
Mead, por exemplo, estudando o comportamento dos adolescentes das ilhas
Samoa (1969), pensava que seus estudos deveriam permitir a instaurac¸a\u2dco de
uma sociedade melhor, e, mais especificamente a aplicac¸a\u2dco de uma pedagogia
menos frustrante a` sociedade americana. Hoje va´rios colegas nossos consi-
deram que a antropologia deve colocar-se \u201da servic¸o da revoluc¸a\u2dco\u201d(segundo
especialmente )ean Copans, 1975). O pesquisador torna-se, enta\u2dco, um mili-
tante, um \u201dantropo´logo revoluciona´rio\u201d, contribuindo na construc¸a\u2dco de uma
\u201dantropologia da libertac¸a\u2dco\u201d. Numerosos pesquisadores ainda reivindicam a
qualidade de especialistas de conselheiros, participando em especial dos pro-
gramas de desenvolvimento e das deciso\u2dces pol´\u131ticas relacionadas a` elaboraca\u2dco
desses programas. Quer´\u131amos simplesmente observai aqui que a \u201dantropolo-
gia aplicada\u201d9 na\u2dco e´ uma grande novidade. E´ por ela que, com a colonizac¸a\u2dco,
a antropologia teve inicio.10
9Sobre a antropologia aplicada, cf. R. Bastide, 1971
10A maioria dos antropo´logos ingleses, especialmente, realizou suas pesquisas a pe-
18 CONTEU´DO
Foi com ela, inclusive, que se deu o in´\u131cio da Antropologia, durante a co-
lonizac¸a\u2dco. No extremo oposto das atitudes \u201dengajadas\u201ddas quais acabamos
de falar, encontramos a posic¸a\u2dco determinada de um Claude Le´vi-Strauss que,
apo´s ter lembrado que o saber cient´\u131fico sobre o homem ainda se encontrava
num esta´gio extremamente primitivo em relac¸a\u2dco ao saber sobre a natureza,
escreve:
\u201dSupondo que nossas cie\u2c6ncias um dia possam ser colocadas a servic¸o da
ac¸a\u2dco pra´tica, elas na\u2dco te\u2c6m, no momento, nada ou quase nada a oferecer. O
verdadeiro meio de permitir sua existe\u2c6ncia, e´ dar muito a elas, mas sobretudo
na\u2dco lhes pedir nada\u201d.
As duas atitudes que acabamos de citar a antropologia \u201dpura\u201dou a antro-
pologia \u201ddiluida\u201dcomo diz ainda Le´vi-Strauss encontram na realidade suas
primeiras formulac¸o\u2dces desde os primo´rdios da confrontac¸a\u2dco do europeu com
o \u201dselvagem\u201d. Desde o se´culo XVI, de fato, comec¸a a se implantar aquilo o
que alguns chamariam de \u201darque´tipos\u201ddo discurso etnolo´gico, que podem ser
ilustrados pelas posic¸o\u2dces respectivas de um Jean de Lery e de um Sahagun.
Jean de Lery foi um huguenote* france\u2c6s que permaneceu algum tempo no
Brasil entre os Tupinamba´s. Longe de procurar convencer seus ho´spedes da
superioridade da cultura europe´ia e da religia\u2dco reformada, ele os interroga
e, sobretudo, se interroga. Sahagun foi um franciscano espanhol que alguns
anos mais tarde realizou uma verdadeira investigac¸a\u2dco no Me´xico.
Perfeitamente a` vontade entre os astecas, ele estava la´ enquanto missiona´rio
a fim de converter a populac¸a\u2dco que estuda.11
O fato da diversidade das ideologias sucessivamente defendidas (a conversa\u2dco
religiosa, a \u201drevoluc¸a\u2dco\u201d, a ajuda ao \u201dTerceiro Mundo\u201d, as estrate´gias daquilo
que e´ hoje chamado \u201ddesenvolvimento\u201dou ainda \u201dmudanc¸a social\u201d) na\u2dco al-
tera nada quanto ao a\u2c6mago do problema, que e´ o seguinte: 0 antropo´logo
deve contribuir, enquanto antropo´logo, para B transformac¸a\u2dco das sociedades
que ele estuda 11
dido das administrac¸o\u2dces: Os Nuers de Evans-Pritchard foram encomendados pelo governo
brita\u2c6nico, Fortes estudou os Tallensi a pedido do governo da Costa do Ouro. Nadei foi
conselheiro do governo do Suda\u2dco, etc
11Essa dupla abordagem da relac¸a\u2dco ao outro pode muito bem sei realizada por um u´nico
pesquisador. Assim Malinowski chegando a`s ilhas Trobriand (trad. franc., 1963) se deixa
literalmente levar pela cultura que descobre e que o encanta. Mas va´rios anos depois (trad.
franc., 1968) participa do que chama \u201duma experie\u2c6ncia controlada\u201ddo desenvolvimento
CONTEU´DO 19
Eu responderia, no que me diz respeito, da seguinte forma: nossa abor-
dagem, que consiste antes em nos surpreender com aquilo que nos e´ mais