Aprender Antropologia - François Laplantine
172 pág.

Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica52 materiais2.212 seguidores
Pré-visualização44 páginas
familiar (aquilo que vivemos cotidianamente na sociedade na qual nascemos)
e em tornar mais familiar aquilo que nos e´ estranho (os comportamentos, as
crenc¸as, os costumes das sociedades que na\u2dco sa\u2dco as nossas, mas nas quais po-
der´\u131amos ter nascido), esta´ diretamente confrontada hoje a um movimento de
homogeneizac¸a\u2dco, ao meu ver, sem precedente\u2019 na Histo´ria: o desenvolvimento
de uma forma de cultura industrial-urbana e de uma forma de pensamento
que e´ a do racionalismo social. Eu pude, no decorrer de minhas estadias
sucessivas entre os Berberes do Me´dio Atlas e entre os Baule´s da Costa do
Marfim, perceber realmente o fasc´\u131nio que exerce este modelo, perturbando
completamente os modos de vida (a maneira de se alimentar, de se vestir, de
se distrair, de se encontrar, de pensar 12 e levando a novos comportamentos
que na\u2dco decorrem de uma escolha)
A questa\u2dco que esta´ hoje colocada para qualquer antropo´logo e´ a seguinte:
ha´ uma possibilidade em minha sociedade (qualquer que seja) permitindo-
lhe o acesso a um esta´gio de sociedade industrial (ou po´s-industrial) sem
conflito drama´tico, sem risco de despersonalizac¸a\u2dco?
Minha convicc¸a\u2dco e´ de que o antropo´logo, para ajudar os atores sociais a
responder a essa questa\u2dco, na\u2dco deve, pelo menos enquanto antropo´logo, tra-
balhar para a transformac¸a\u2dco das sociedades que estuda. Caso contra´rio, seria
conveniente, de fato, que se convertesse em economista, agro\u2c6nomo, me´dico,
pol´\u131tico, a na\u2dco ser que ele seja motivado por alguma concepc¸a\u2dco messia\u2c6nica
da antropologia. Auxiliar uma determinada cultura na explicitac¸a\u2dco para ela
mesma de sua pro´pria diferenc¸a e´ uma coisa; organizar pol´\u131tica, econo\u2c6mica e
socialmente a evoluc¸a\u2dco dessa diferenc¸a e´ uma outra coisa. Ou seja, a parti-
cipac¸a\u2dco do antropo´logo naquilo que e´ hoje a vanguarda do anticolonialismo
e da luta para os direitos humanos e das minorias e´tnicas e´, a meu ver, uma
consequ¨e\u2c6ncia de nossa profissa\u2dco, mas na\u2dco e´ a nossa profissa\u2dco propriamente
dita.
Somos, por outro lado, diretamente confrontados a uma dupla urge\u2c6ncia a`
qual temos o dever de responder.
12As mutac¸o\u2dces de comportamentos geradas por essa forma de civilizac¸a\u2dco mundialista
podem tambe´m evidentemente ser encontradas nas nossa; pro´prias culturas rurais e ur-
banas. Em compensac¸a\u2dco, parecem-me bastante fracas aqui no Nordeste do Brasil, onde
comec¸ou a redigir este livro
20 CONTEU´DO
a) Urge\u2c6ncia de preservac¸a\u2dco dos patrimo\u2c6nios culturais locais ameac¸ados (e
a respeito disso a etnologia esta´ desde o seu nascimento lutando contra o
tempo para que a transcric¸a\u2dco dos arquivos orais e visuais possa ser realizada
a tempo, enquanto os u´ltimos deposita´rios das tradic¸o\u2dces ainda esta\u2dco vivos)
e, sobretudo, de restituic¸a\u2dco aos habitantes das diversas regio\u2dces nas quais tra-
balhamos, de seu pro´prio saber e saber-fazer. Isso supo\u2dce uma ruptura com
a concepc¸a\u2dco assime´trica da pesquisa, baseada na captac¸a\u2dco de informac¸o\u2dces.
Na\u2dco ha´, de fato, antropologia sem troca, isto e´, sem itinera´rio no decor-
rer do qual as partes envolvidas chegam a se convencer reciprocamente da
necessidade de na\u2dco deixar se perder formas de pensamento e atividade u´nicas.
b) Urge\u2c6ncia de ana´lise das mutac¸o\u2dces culturais impostas pelo desenvolvimento
extremamente ra´pido de todas as sociedades contempora\u2c6neas, que na\u2dco sa\u2dco
mais \u201dsociedades tradicionais\u201d, e sim sociedades que esta\u2dco passando por um
desenvolvimento tecnolo´gico absolutamente ine´dito, por mutac¸o\u2dces de suas
relac¸o\u2dces sociais, por movimentos de migrac¸a\u2dco Interna, e por um processo de
urbanizac¸a\u2dco acelerado. Atrave´s da especificidade de sua abordagem, nossa
disciplina deve, na\u2dco fornecer respostas no lugar dos interessados, e sim for-
mular questo\u2dces com eles, elaborar com eles uma reflexa\u2dco racional (e na\u2dco mais
ma´gica) sobre os problemas colocados pela crise mundial que e tambe´m uma
crise de identidade ou ainda sobre o plurarismo cultural, isto e´, o encontro
de l´\u131nguas, te´cnicas, mentalidades. Em suma, a pesquisa antropolo´gica, que
na\u2dco e´ de forma alguma, como podemos notar, uma atividade de luxo, sem
nunca se substituir aos projetos e a`s deciso\u2dces dos pro´prios atores sociais,
tem hoje como vocac¸a\u2dco maior a de propor na\u2dco soluc¸o\u2dces mas instrumentos
de investigac¸a\u2dco que podera\u2dco ser utilizados em especial para reagir ao choque
da aculturac¸a\u2dco, isto e´, ao risco de um desenvolvimento conflituoso levando a`
viole\u2c6ncia negadora das particularidades econo\u2c6micas, sociais, culturais de um
povo.
5) Uma quinta dificuldade diz respeito, finalmente, a` natureza desta obra que
deve apresentar, em um nu´mero de pa´ginas reduzido, um campo de pesquisa
imenso, cujo desenvolvimento recente e´ extremamente especializado. No fi-
nal do se´culo XIX, um u´nico pesquisador podia, no limite, dominar o campo
global da antropologia (Boas fez pesquisas em antropologia social, cultural,
lingu¨´\u131stica, pre´-histo´rica, e tambe´m mais recentemente o caso de Ktoeber,
provavemente o u´ltimo antropo´logo que explorou: com sucesso uma a´rea ta\u2dco
extensa). Na\u2dco e´, evidentemente, o caso hoje em dia. O antropo´logo considera
agora \u2013 com raza\u2dco \u2013 que e´ competente apenas dentro de uma a´rea restrita 13
13A antropologia das te´cnicas, a antropologia econo\u2c6mica, pol´\u131tica, a antropologia do
CONTEU´DO 21
de sua pro´pria disciplina e para uma a´rea geogra´fica delimitada.
Era-me portanto imposs´\u131vel, dentro de um texto de dimenso\u2dces ta\u2dco restri-
tas, dar conta, mesmo de uma forma parcial, do alcance e da riqueza dos
campos abertos pela antropologia. Muito mais modestamente, tentei colocar
um certo nu´mero de refere\u2c6ncias, definir alguns conceitos a partir dos quais o
leitor podera´, espero, interessar-se em ir mais adiante.
Ver-se-a´ que este livro caminha em espiral. As preocupac¸o\u2dces que esta\u2dco no
centro de qualquer abordagem antropolo´gica e que acabam de ser mencio-
nadas sera\u2dco retomadas, mas de diversos pontos de vista. Eu lembrarei em
primeiro lugar quais foram as principais etapas da constituic¸a\u2dco de nossa dis-
ciplina e como, atrave´s dessa histo´ria da antropologia, foram se colocando
progressivamente as questo\u2dces que continuam nos interessando ate´ hoje. Em
seguida, esboc¸arei os po´los teo´ricos - a meu ver cinco - em volta dos quais
oscilam o pensamento e a pra´tica antropolo´gica. Teria sido, de fato, surpreen-
dente, se, procurando dar conta da pluraridade, a antropologia permanecesse
monol´\u131tica. Ela e´ ao contra´rio claramente plural. Veremos no decorrer deste
livro que existem perspectivas complementares, mas tambe´m mutuamente
exclusivas, entre as quais e´ preciso escolher. E, em vez de fingir ter ado-
tado o ponto de vista de Sirius, em vez de pretender uma neutralidade, que
nas cie\u2c6ncias humanas e´ um engodo, esforc¸ando-me ao mesmo tempo para
apresentar com o ma´ximo de objetividade o pensamento dos outros, na\u2dco
dissimularei as minhas pro´prias opc¸o\u2dces. Finalmente, em uma u´ltima parte,
os principais eixos anteriormente examinados sera\u2dco, em um movimento por
assim dizer retroativo, reavaliados com o objetivo de definir aquilo que cons-
titui, a meu ver, a especificidade da antropologia.
Eu queria finalmente acrescentar que este livro dirige-se \ufffdo mais amplo
pu´blico poss´\u131vel. Na\u2dco a`queles que te\u2c6m por profissa\u2dco a antropologia \u2013 du-
vido que encontrem nele um grande interesse \u2013 mas a todos que, em algum
momento de sua vida (profissional, mas tambe´m pessoal), possam ser levados
a utilizar o modo de conhecimento ta\u2dco caracter´\u131stico da antropologia. Esta
e´ a raza\u2dco pela qual, entre o inconveniente de utilizar uma linguagem te´cnica
e o de adotar uma linguagem menos especializada, optei voluntariamente
pela segunda. Pois a antropologia, que e´ a cie\u2c6ncia do homem por excele\u2c6ncia,
pertence a todo o mundo. Ela diz respeito a todos no´s.
parentesco, das organizac¸o\u2dces sociais, a antropologia religiosa, art´\u131stica,