Aprender Antropologia - François Laplantine
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Aprender Antropologia - François Laplantine


DisciplinaAntropologia Geral e Juridica50 materiais2.211 seguidores
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sem Estado, sem conscie\u2c6ncia, sem raza\u2dco, sem objetivo, sem arte, sem pas-
sado, sem futuro.6 Cornelius de Pauw acrescentara´ ate´, no se´culo XVIII:
\u201dsem barba\u201d, \u201dsem sobrancelhas\u201d, \u201dsem pe\u2c6los\u201d, \u201dsem esp´\u131ritosem ardor para
com sua fe\u2c6mea\u201d.
\u201dE´ a grande glo´ria e a honra de nossos reis e dos espanho´is, escreve Go-
mara em sua Histo´ria Geral dos \u131´ndios, ter feito aceitar aos \u131´ndios um u´nico
Deus, uma u´nica fe´ e um u´nico batismo e ter tirado deles a idolatria, os sa-
crif´\u131cios humanos, o canibalismo, a sodomia; e ainda outras grandes e maus
pecados, que nosso bom Deus detesta e que pune. Da mesma forma, tiramos
deles a poligamia, velho costume e prazer de todos esses homens sensuais;
4\u201dAssim\u201d, escreve Le´vi-Strauss (1961), \u201dOcorrem curiosas situac¸o\u2dces onde dois interlo-
cutores da\u2dco-se´ cruelmente a re´plica. Nas Grandes Antilhas, alguns anos apo´s a descoberta
da Ame´rica, enquanto os espanho´is enviavam comisso\u2dces de inque´rito para pesquisar se os
ind´\u131genas possu´\u131am ou na\u2dco uma alma, estes empenhavam-se em imergir brancos prisio-
neiros a fim de verificar, por uma observac¸a\u2dco demorada, se seus cada´veres eram ou na\u2dco
sujeitos a` putrefac¸a\u2dco\u201d
5Cf. especialmente Hans Staden, Ve´ritable Histoire et Descriptiou d\u2019un Pays Habite´
par des Hommes Sauvages, Nus. Fe´roces et Anthropo phages, 1557, reed. Paris, A. M.
JVle´tailie´, 1979.
6Essa falta pode ser apreendida atrave´s de duas variantes: I) na\u2dco te\u2c6m, irremediavel-
mente, futuro e na\u2dco temos realmente nada a esperar dele (Hegel); 2) e´ poss´\u131vel faze\u2c6-los
evoluir. Pela ac¸a\u2dco missiona´ria (a partir se´culo XVI). Assim como pela ac¸a\u2dco administrativa
1.1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 29
mostramo-lhes o alfabeto sem o qual os homens sa\u2dco como animais e o uso do
ferro que e´ ta\u2dco necessa´rio ao homem. Tambe´m lhes mostramos va´rios bons
ha´bitos, artes, costumes policiados para poder melhor viver. Tudo isso \u2013 e
ate´ cada uma dessas coisas \u2013 vale mais que as penas, as pe´rolas, o ouro que
tomamos deles, ainda mais porque na\u2dco utilizavam esses metais como moeda\u201d.
\u201dAs pessoas desse pa´\u131s, por sua natureza, sa\u2dco ta\u2dco ociosas, viciosas, de pouco
trabalho, melanco´licas, covardes, sujas, de ma´ condic¸a\u2dco, mentirosas, de mole
consta\u2c6ncia e firmeza (...). Nosso Senhor permitiu, para os grandes, abo-
mina´veis pecados dessas pessoas selvagens, ru´sticas e bestiais, que fossem
atirados e banidos da superf´\u131cie da Terra\u201d. escreve na mesma e´poca (1555)
Oviedo em sua Histo´ria das \u131´ndias.
Opinio\u2dces desse tipo sa\u2dco inumera´veis, e passaram tranqu¨ilamente para nossa
e´poca. No se´culo XIX, Stanley, em seu livro dedicado a` pesquisa de Li-
vingstone, compara os africanos aos \u201dmacacos de um jardim zoolo´gico\u201d, e
convidamos o leitor a ler ou reler Franz Fanon (1968), que nos lembra o que
foi o discurso colonial dos franceses na Arge´lia.
Mais dois textos ira\u2dco deter mais demoradamente nossa atenc¸a\u2dco, por nos pa-
recerem muito reveladores desse pensamento que faz do selvagem o inverso
do civilizado. Sa\u2dco as Pesquisas sobre os Americanos ou Relatos Interessantes
para servir a` Histo´ria da Espe´cie Humana, de Cornelius de Pauw, publicado
em 1774, e a famosa Introduc¸a\u2dco a` Filosofia da Histo´ria, de Hegel.
1) De Pauw nos propo\u2dce suas reflexo\u2dces sobre os \u131´ndios da Ame´rica do Norte.
Sua convicc¸a\u2dco e´ a de que sobre estes l´\u131llimos a influe\u2c6ncia da natureza e´ total,
ou mais precisamente negativa. Se essa rac¸a inferior na\u2dco tem histo´ria e esta´
pura sempre condenada, por seu estado \u201ddegenerado\u201d, a permanecer fora do
movimento da Histo´ria, a raza\u2dco deve ser atribu´\u131da ao clima de uma extrema
umidade:
\u201dDeve existir, na organizac¸a\u2dco dos americanos, uma causa qualquer que em-
brutece sua sensibilidade e seu esp´\u131rito. A qualidade do clima, a grosseria
de seus humores, o v´\u131cio radical do sangue, a constituic¸a\u2dco de seu tempera-
mento excessivamente fleuma´tico podem ter diminu´\u131do o tom e o saracoteio
dos nervos desses homens embrutecidos\u201d.
Eles te\u2c6m, prossegue Pauw, um \u201dtemperamento ta\u2dco u´mido quanto o ar e
a terra onde vegetam\u201de que explica que eles na\u2dco tenham nenhum desejo se-
xual. Em suma, sa\u2dco \u201dinfelizes que suportam todo o peso da vida agreste
30 CAPI´TULO 1. A PRE´-HISTO´RIA DA ANTROPOLOGIA:
na escurida\u2dco das florestas, parecem mais animais do que vegetais\u201d. Apo´s a
degeneresce\u2c6ncia ligada a um \u201dv´\u131cio de constituic¸a\u2dco f´\u131sica\u201d, Pauw chega a` de-
gradac¸a\u2dco moral. E´ a quinta parte do livro, cuja primeira sec¸a\u2dco e´ intitulada:
\u201dO ge\u2c6nio embrutecido dos Americanos\u201d.
\u201dA insensibilidade, escreve nosso autor, e´ neles um v´\u131cio de sua constituic¸a\u2dco
alterada; eles sa\u2dco de uma preguic¸a imperdoa´vel, na\u2dco inventam nada, na\u2dco em-
preendem nada, e na\u2dco estendem a esfera de sua concepc¸a\u2dco ale´m do que ve\u2c6em
pusila\u2c6nimes, covardes, irritados, sem nobreza de esp´\u131rito, o desa\u2c6nimo e a
falta absoluta daquilo que constitui o animal racional os tornam inu´teis para
si mesmos e para a sociedade. Enfim, os californianos vegetam mais do que
vivem, e somos tentados a recusar-lhes uma alma.
Essa separac¸a\u2dco entre um estado de natureza concebido por Pauw como ir-
remediavelmente imuta´vel, e o estado de civilizac¸a\u2dco, pode ser visualizado
num mapa mu´ndi. No se´culo XVIII, a enciclope´dia efetua dois trac¸ados: um
longitudinal, que passa por Londres e Paris, situando de um lado a Europa,
a A´frica e a A´sia, de outro a Ame´rica, e um latitudinal dividindo o que se
encontra ao norte e ao sul do equador. Mas, enquanto para Buffon, a proxi-
midade ou o afastamento da linha equatorial sa\u2dco explicativos na\u2dco apenas da
constituic¸a\u2dco f´\u131sica mas do moral dos povos, o autor das Pesquisas Filoso´ficas
sobre os Americanos escolhe claramente o crite´rio latitudinal, fundamento
aos seus olhos da distribuic¸a\u2dco da populac¸a\u2dco mundial, distribuic¸a\u2dco essa na\u2dco
cultural e sim natural da civilizac¸a\u2dco e da barba´rie: \u201dA natureza tirou tudo
de um hemisfe´rio deste globo para da´-lo ao outro\u201d. \u201dA diferenc¸a entre um
hemisfe´rio e o outro (o Antigo e o Novo Mundo) e´ total, ta\u2dco grande quanto
poderia ser e quanto podemos imagina´-la\u201d: de um lado, a humanidade, e de
outro, a \u201destupidez na qual vegetam\u201desses seres indiferenciados:
\u201dIgualmente ba´rbaros, vivendo igualmente da cac¸a e da pesca, em pa´\u131ses
frios, este´reis, cobertos de florestas, que desproporc¸a\u2dco se queria imaginar
entre eles? Onde se sente as mesmas necessidades, onde os meios de sa-
tisfaze\u2c6-los sa\u2dco os mesmos, onde as influe\u2c6ncias do ar sa\u2dco ta\u2dco semelhantes, e´
poss´\u131vel haver contradic¸a\u2dco nos costumes ou variac¸o\u2dces nas ide´ias?\u201d
Pauw responde, evidentemente, de forma negativa. Os ind´\u131genas america-
nos vivem em um \u201destado de embrutecimento\u201dgeral. Ta\u2dco degenerados uns
quanto os outros, seria em va\u2dco procurar entre eles variedades distintivas da-
quilo que se pareceria com uma cultura e com uma histo´ria.7
7Sobre C. de Pauw, cf. os trabalhos de M. Duchet (1971, 1985).
1.1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 31
2) Os julgamentos que acabamos de relatar \u2013 que esta\u2dco, notamos, em ruptura
com a ideologia dominante do se´culo XVIII, da qual falaremos mais adiante,
e em especial com o Discurso sobre a Desigualdade, de Rousseau, publicado
vinte anos antes \u2013 por excessivos que sejam, apenas radicalizam ide´ias com-
partilhadas por muitas pessoas nessa e´poca. Ide´ias que sera\u2dco retomadas e
expressas nos mesmos termos em 1830 por Hegel, o qual, em sua Introduc¸a\u2dco
a` Filosofia da Histo´ria, nos expo\u2dce o horror que ele ressente frente ao es-
tado de natureza, que e´ o desses povos que jamais-ascendera\u2dco a` \u201dhisto´ria\u201de
a` \u201dconscie\u2c6ncia de si\u201d.
Na leitura dessa Introduc¸a\u2dco, a Ame´rica do Sul parece mais estu´pida ainda
do que a do Norte. A A´sia aparentemente na\u2dco esta´ muito melhor. Mas e´
a A´frica, e, em especial, a A´frica profunda do interior, onde a civilizac¸a\u2dco
nessa e´poca ainda na\u2dco penetrou, que representa para o