Prática Profissional e Interdisciplinariedade

Prática Profissional e Interdisciplinariedade


DisciplinaDireito e Legislacao Social225 materiais9.265 seguidores
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e 
publicado posteriormente. 
Com esse estudo, a pretensão seria o levantamento de questões para a construção das ciências do amanhã, no 
dizer de Levi Strauss ou conforme o que dizia Piaget na ocasião: das ciências em movimento, em ação, aquelas 
que realmente se exerciam (FAZENDA, 1994, p. 20).
Conforme Japiassú (1976), nessa mesma década ocorreu o Seminário sobre interdisciplinaridade 
e transdisciplinaridade, que contou com a participação de um grupo de especialistas na área, como 
Jean Piaget e Georges Gusdorf, por exemplo. Esse e os demais eventos realizados colaboraram para a 
construção das bases conceituais da interdisciplinaridade, que, por sua vez, não se caracterizaram como 
uma única base conceitual, por não terem chegado a um consenso. Os principais conceitos definidos 
foram o de pluridisciplinaridade, multidisciplinaridade, transdisciplinaridade e interdisciplinaridade (que 
serão abordados adiante). 
Nessa mesma época, as discussões acerca da interdisciplinaridade também chegam ao Brasil, 
com algumas distorções, advindas de teóricos que a definiram sem uma construção teórica conveniente. 
Fazenda (1994) argumenta que a interdisciplinaridade virou \u201cmoda\u201d na época. Estava presente no discurso 
de muitas pessoas, principalmente na área da educação. Tornou-se a \u201csemente e o produto das reformas 
educacionais\u201d, nos anos de 1968 a 1971. Entretanto, independente da utilização do termo, houve um 
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Professora Ms. Amanda Boza Gonçalves
EspEcialização Em GEstão social, políticas públicas, 
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significativo avanço dos estudos sobre a interdisciplinaridade, principalmente a partir das análises de 
Hilton Japiassú, com sua obra Interdisciplinaridade e patologia do saber. 
Conforme citado, a década de 1970 foi de extrema relevância para a construção dos percursos 
teóricos sobre a interdisciplinaridade. A década de 1980 continuou perseguindo esse aprofundamento, 
trazendo em seu bojo não somente uma reflexão puramente teórica, mas sim uma reflexão com base 
no que é prático, na realidade cotidiana. Segundo Fazenda (1994), os mais significativos avanços dessa 
época em relação à interdisciplinaridade poderiam ser assim sintetizados:
- A atitude interdisciplinar não seria apenas o resultado de uma simples síntese, mas de sínteses imaginativas
 e audazes.
- Interdisciplinaridade não é categoria de conhecimento, mas de ação.
- A interdisciplinaridade nos conduz a um exercício e conhecimento: o perguntar e o duvidar.
- Entre as disciplinas e a interdisciplinaridade existe uma diferença de categoria.
- Interdisciplinaridade é a arte do tecido que nunca deixa ocorrer o divórcio entre seus elementos, entretanto, de
 um tecido bem trancado e flexível.
- A interdisciplinaridade se desenvolve a partir do desenvolvimento das próprias disciplinas (FAZENDA, 1994, 
 p. 28-29). 
É fundamental assinalar que para compreender os conceitos da interdisciplinaridade, que nos servem 
como base até hoje, devemos ter claro o que acontecia na esfera social na época, mesmo porque as 
definições dos referidos conceitos, foram influenciadas não somente pelos movimentos sociais, como 
também pela crise do capital, em 1970. 
Nessa época, o Estado de Bem Estar Social começa a apresentar seus sinais de esgotamento. As 
primeiras legislações e medidas de proteção social são criadas no final do século XIX, destacando-se a 
Inglaterra como país originário. Em que pese, as medidas de Seguridade Social no sistema capitalista 
se deram claramente a partir do período de Welfare State ou Estado de Bem-Estar Social. Conforme 
Behring (2007), \u201cas políticas sociais vivenciaram forte expansão após s Segunda Guerra Mundial, tendo 
como fator decisivo a intervenção do Estado na regulação das relações sociais e econômicas\u201d.
O Estado de Bem-Estar Social não chegou a ser constituído no Brasil. No período de estruturação 
desse modelo na Europa, o Brasil direcionava os investimentos públicos em meios de desenvolvimento 
como indústrias, geração de energia, transporte, dentre outros. A interferência do Estado em favor do 
desenvolvimento nacional se dava por meio do agenciamento econômico, visando à garantia das formas 
essenciais de acumulação. 
No entanto o Estado de Bem-Estar começou a apresentar sinais de esgotamento devido a uma crise 
estrutural do capital, fazendo com que se apresentasse uma nova forma de acumulação, o capitalismo 
flexível, deixando em destaque o legado neoliberal. 
Trata-se de uma crise global de um modelo social de acumulação, cujas tentativas de resolução têm produzido 
transformações estruturais que dão lugar a um modelo diferente, denominado neoliberal que tem por base a 
informalidade no trabalho, o desemprego, a desproteção trabalhista e, consequentemente, uma nova pobreza 
(SOARES, 2003, p. 20). 
Assim, as ideias neoliberais nasceram por meio de uma reação contra o Estado de Bem-Estar Social, 
um modelo que até então se apresentava como fundamental propulsor do desenvolvimento no pós-guerra.
Outra característica inerente ao ideário neoliberal é a influência que esse causou no mundo do 
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Professora Ms. Amanda Boza Gonçalves
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trabalho. Iniciou-se um ataque frontal aos direitos do trabalho, no qual emergia um trabalho mais 
precarizado, com formas de contratação variadas (temporários, terceirizados, duplas jornadas, dentre 
outros), isso tudo incrementado por uma desconcentração fabril e por um despotismo psicológico operado 
pelo sistema. As lutas sindicais perderam espaço e adesão, individualizando o processo de luta, além de 
torná-las fracas em sua forma macro, e fazendo com que o mercado se torne cada vez mais acirrado, 
individualista e competitivo.
A acumulação flexível proporcionou mudanças à realidade do trabalho provocando um processo de 
redução e precarização, aliado à redução da presença do Estado na intermediação entre capital e trabalho 
e no desenvolvimento das políticas sociais básicas. Os fatores citados contribuem para a exclusão social 
de uma grande parcela da sociedade. Assim, o neoliberalismo se tornou uma categoria que expressa 
terceirização, desemprego, flexibilização das relações de trabalho e direitos sociais, isso com uma 
articulação direta com as políticas de ajuste ditadas pelo Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial 
para países mais pobres, reduzindo os gastos sociais com políticas básicas de atenção a população.
O neoliberalismo juntamente com o modelo japonês toyotista de produção, desencadeou profundas 
alterações nas relações trabalhistas, na organização dos trabalhadores, na automação das empresas, o 
que possibilitou ao mercado uma maior competitividade entre as indústrias e em contrapartida uma maior 
margem de lucro aos gestores. Contratos de trabalho se tornaram mais flexíveis, a terceirização tomou 
espaço nas contratações e um conseqüente aumento do desemprego estrutural com a substituição da 
mão de obra por máquinas ou por terceirizados, contribuiu significativamente para a alteração de uma 
grande parcela da sociedade, que teve também sua qualidade de vida alterada. Com o Estado mínimo, 
a garantia dos direitos sociais, trabalhistas e uma qualidade de vida digna era quase nulo. 
Detendo-nos um pouco mais nesse período, temos que uma de suas características principais foi a busca contínua 
de rendas tecnológicas derivadas da monopolização do progresso técnico, direcionada à diminuição dos custos 
salariais diretos, e cuja expressão maior é a automação. Chama atenção que Mandel, em fins dos anos 1960, já 
identificava alguns elementos em desenvolvimentos e que aparecem hoje de forma mais clara e intensa, que são 
essenciais para desvendar os anos 80 e 90 do século XX, no que se refere à extração