Prática Profissional e Interdisciplinariedade

Prática Profissional e Interdisciplinariedade


DisciplinaDireito e Legislacao Social265 materiais9.319 seguidores
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da mais-valia e ao mundo 
do trabalho: o forte deslocamento do trabalho vivo pelo trabalho morto; a perda ainda maior da importância do 
trabalho individual a partir de um amplo processo de integração da capacidade social de trabalho; a mudança da 
proporção de funções desempenhadas pela força de trabalho no processo de valorização do capital, quais sejam 
de criar e preservar valor; as mudanças nas proporções entre criação de mais-valia na própria empresa e aquela 
gerada em outras empresas; o aumento no investimento em equipamentos; a diminuição do período de rotação 
do capital; a aceleração da inovação tecnológica com fortes investimentos em pesquisa; e por fim, uma vida útil 
mais curta do capital fixo e a consequente tendência ao planejamento (BEHRING, 2007, p. 47).
À luz dos autores citados, o que se pode identificar, em síntese, é que as relações sociais se tornam 
fragmentadas e individualizadas. Os círculos de qualidade, criados no modelo toyotista, configuram-se 
como uma organização do trabalho pautada na colaboração de cada trabalhador, no que tange a propor 
soluções, detectar problemas, avaliar, e inovar. Para tanto, é necessário à existência de \u201ccolaboradores\u201d 
polivalentes, multifuncionais, a fim de garantir não somente a inovação, como também a rentabilidade e 
produtividade. É sob essa ótica que o trabalho em equipe se torna cada vez mais valorizado no modelo 
japonês de produção e que a interdisciplinaridade vai sendo discutida no mundo do trabalho.
Dessa forma, os donos dos meios de produção compreenderam que os trabalhadores não se 
resumem à força física somente, e que têm outras qualidades \u201cprodutivas\u201d como a inteligência, por 
exemplo. Foi então que os empresários perceberam que seria interessante colocar a serviço do capital 
essas capacidades intelectuais de um determinado grupo ou até mesmo individualmente. Aplicar a 
interdisciplinaridade no meio empresarial visava garantir um trabalhador multi-habilitado, ao contrário 
daqueles de possuíam uma formação restrita a uma exclusiva demanda de atuação. Era necessário ter 
o domínio subjetivo dos trabalhadores, e não somente da sua força física, assim, se sentiriam parte do 
processo, bem como buscariam atingir cada vez mais os objetivos da organização.
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Professora Ms. Amanda Boza Gonçalves
EspEcialização Em GEstão social, políticas públicas, 
REdEs E dEfEsa dE diREitos
 PRÁTICA PROFISSIONAL E INTERDISCIPLINARIDADE
Nessa conjuntura, percebemos que a interdisciplinaridade foi pensada não somente no bojo dos 
movimentos estudantis, como também no mundo do trabalho, o qual proporcionou uma adequação da 
mesma para o sistema de produção vigente. Foi um dos impulsos para a transição do movimento taylorista 
e fordista - que mantinha os trabalhadores no \u201cchão de fábrica\u201d com tarefas repetitivas, simplificadas e 
rotineiras, para o toyotista. Ademais, podemos afirmar que:
As ideias genericamente veiculadas a respeito da interdisciplinaridade seduzem o trabalhador para o desenvolvimento 
de uma subjetividade adequada ao novo momento de acumulação de capital. Nessa perspectiva a interdisciplin-
aridade é tomada como uma atitude de abertura ao sujeito individual ou coletivo (equipe), disposto à: integração, 
interação, coordenação, colaboração e à cooperação. Além de disposição e abertura, é fundamental desenvolver 
uma posição flexível em face das mudanças, das novidades e das diferenças. O sujeito interdisciplinar é um 
aventureiro que busca ultrapassar as barreiras do conhecimento e inovar, ou seja, ser transdisciplinar. O apelo à 
interdisciplinaridade ajuda a inculcar na mente dos trabalhadores que sem cooperação e compromisso é impossível 
aumentar a produtividade. O trabalhador precisa desenvolver, com o auxílio da perspectiva interdisciplinar, uma 
visão do conjunto do processo produtivo para se adaptar às flutuações da produção com flexibilidade, agilidade e 
eficiência. A interdisciplinaridade seria um meio de estimular a criatividade do trabalhador, sendo ela necessária 
para conferir personificação aos produtos que, no toyotismo, devem ser fabricados de acordo com as preferências 
do cliente. (ANTUNES, 2005 apud MIOTO; MANGINI, 2009, p. 205).
Destarte, não é por acaso que a interdisciplinaridade foi absorvida pelo mundo do trabalho! 
Começaram a pensar mais no ser humano e sua habilidade com as inter-relações, a relação do \u201ceu com 
o outro ou com outros\u201d. Não se tratava somente de força física, e sim da intelectual também, com o foco 
no aumento da produtividade e, consequentemente, dos lucros. E isso acontece na contemporaneidade? 
A resposta é sim, os trabalhadores desenvolvem essas e outras habilidades a fim de se manterem no 
mercado de trabalho! O nosso cotidiano profissional também está imerso nessa teoria. As referidas autoras 
destacam que a categoria interdisciplinaridade foi cooptada pelo modo de produção capitalista, e que, 
tanto no mundo do conhecimento, como no do trabalho, a interdisciplinaridade tem sido invocada para 
fins puramente instrumentais. 
Mioto e Mangini (2009) afirmam que \u201ccom a difusão do conceito de interdisciplinaridade, as exigências 
de trabalho em equipe, competência, polivalência, multifuncionalidade, desespecialização, ganham 
respaldo acadêmico/científico, ou seja, base teórico-metodológica\u201d. A não absorção desses conceitos, 
somada a falta de conhecimentos técnicos, por sua vez, geram motivos para que se aumente o número 
de demissões no mercado de trabalho. 
A partir do percurso histórico supracitado, desde os anos 60, podemos compreender que não se 
trata de uma nova perspectiva de atuação, na área do conhecimento e do trabalho, mas de conceitos e 
práticas que vêm ao longo dos anos se desenvolvendo e se incorporando ao cotidiano. Neste prisma, 
quais os principais pressupostos teóricos sumariados acerca da interdisciplinaridade? Compreendemos 
que a mesma é aplicável em áreas distintas, entretanto, o que podemos entender por tal termo?
Interdisciplinaridade não é um conceito que mantém o mesmo sentido em empregos diferentes. 
Mesmo porque \u201ca partir da constatação de que a condição da ciência não está no acerto, mas no erro, 
passou-se a exercer e a viver a interdisciplinaridade das mais inusitadas formas\u201d (FAZENDA, 1994, p. 
24). Atualmente o termo é utilizado em muitos eventos, sem uma base comum e com uma demanda 
proveniente de diferentes naturezas, visões de conhecimento e de mundo.
Segundo Pombo (2006, p. 130): 
A interdisciplinaridade traduz-se na constante emergência de novas disciplinas que não são mais do que a estabili-
zação institucional e epistemológica de rotinas de cruzamento de disciplinas. Este fenômeno, não apenas torna mais 
articulado o conjunto dos diversos \u201cramos\u201c do saber (depois de os ramos principais se terem constituído, as novas 
ciências, resultantes da sua subdivisão sucessiva, vêm ocupar espaços vazios), como o fazem dilatar, constituindo 
mesmo novos espaços de investigação, surpreendentes campos de visibilidade.
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Professora Ms. Amanda Boza Gonçalves
EspEcialização Em GEstão social, políticas públicas, 
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 PRÁTICA PROFISSIONAL E INTERDISCIPLINARIDADE
Conforme a autora, esse fenômeno rompe com uma concepção exclusivamente fragmentada 
do conhecimento, para uma concepção com um cunho mais unitário. Tem características práticas e a 
identificamos em distintas experiências como pesquisas universitárias, departamentos empresariais, 
programas de pesquisas de laboratórios, que, por sua vez, podem criar novas organizações ou ciências. 
Japiassú (1976, p. 82) diz que \u201ca atitude interdisciplinar nos ajuda a viver o drama da incerteza e da 
insegurança. Possibilita-nos darmos um passo no processo de libertação do mito do porto seguro. Sabemos 
o quanto é doloroso descobrirmos os limites de nosso pensamento, mas é preciso que façamos\u201d. O autor 
também afirma que a interdisciplinaridade se efetiva por meio