Fundamentos da Sociologia do Direito - Explicação
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Fundamentos da Sociologia do Direito - Explicação


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a felicidade humana, a qual não se confunde 
com o gozo grosseiro dos sentidos. O prazer epicurista é a ausência de dor. 
No contexto da moral epicurista, a virtude não é um fim, mas o meio de o 
atingir, pois o fim é o prazer tranquilo.
A justiça, enquanto virtude participa desse mesmo caráter. Assim, ela é 
instrumento e não a medida do que deve caber a cada um, porém o meio 
de evitar a dor, jamais prejudicando a quem quer que seja. A justiça consiste 
em conservar-se longe da possibilidade de causar dano a outrem ou sofrê-lo. 
O meio técnico de tornar efetiva essa moral do prazer tranquilo consiste no 
direito justo, cujo escopo é prescrever as ações que propiciem a felicidade ao 
maior número de pessoas, e vedar, em contrapartida, as ações prejudiciais.
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O fundamento da ética e de todo o conceito de justiça reside na orde-
nação cósmico-natural. A ética estoica caminha no sentido de postular a in-
dependência do homem com relação a tudo que cerca (ataraxia), mas ao 
mesmo tempo, no sentido de afirmar seu profundo atrelamento com causas 
e regularidades universais. Daí advém o direito natural, fundado na reta 
razão, que ordena a conduta humana. Observando-se a natureza das coisas, 
o ser humano haverá de atingir um grau de afinidade e harmonia com as leis 
divinas que regem o todo.
Como bem observa Miguel Reale (1994, p. 627), do ponto de vista da filo-
sofia social, o pensamento pós-socrático acaba por fundamentar uma con-
cepção mais cosmopolita do homem, adaptada à nova realidade do Estado-
-Império, cristalizando a ideia do direito natural que irá impregnar a Roma 
antiga. A jurisprudência romana se desenvolve, então, sob a égide da dou-
trina do direito natural, na esteira das concepções herdadas do pensamento 
clássico. Em Roma, as ideias mais ou menos difusas na moral estoica, de que 
os postulados da razão teriam força e alcance universais, encontraram am-
biência favorável à sua aplicação prática. O direito natural passa a ser, então, 
concebido como a própria natureza baseada na razão, traduzida em princí-
pios de valor universal.
Decerto, os grandes jurisconsultos romanos, especialmente Cícero, eram 
orientados pelo estoicismo, pelo que o humanismo estoico passou a conce-
ber o dever e a determinar a escolha da atitude racionalmente mais aceitável 
para a edificação de uma ordem justa. Para Cícero, existiria uma verdadeira 
lei: a reta razão conforme a natureza, difusa em todos e sempre eterna. Nesta 
definição o jurisconsulto identifica a razão com a lei natural, centralizando 
as tendências estoicas à fundamentação racional de uma visão cosmopolita 
do direito e da justiça, inaugurando um direito natural racionalista, oposto 
à fundamentação metafísica da antiga tradição pré-socrática. Essa lei, con-
substanciada na razão, fundamentava não só o jus naturale, como também 
o jus civile e o jus gentium, não havendo, portanto, oposição entre as três 
expressões do direito, pois cada uma delas corresponderia a determinações 
graduais do mesmo princípio da reta ratio.
Sendo assim, no mundo romano, o direito se desenvolve em consonân-
cia com o pensamento estoico, conferindo ênfase à natureza, que devia ser 
obedecida necessariamente. O que os romanos, notadamente com Cícero, 
nos dão de novo é a ideia de ratio naturalis, isto é, a conexão íntima entre a 
natureza e a razão.
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Na idade média, a filosofia social se desenvolve sob a decisiva influência 
do cristianismo. A doutrina cristã veio introduzir novas dimensões ao proble-
ma da lei e da justiça na sociedade.
Segundo Paulo Nader (2000, p. 117), tratando-se de uma concepção reli-
giosa de justiça, deve se dizer que a justiça humana é identificada como uma 
justiça transitória e sujeita ao poder temporal. Para o cristianismo, não é nela 
que reside necessariamente a verdade, mas na lei de Deus, que age de modo 
absoluto, eterno e imutável.
No período medieval, o jusnaturalismo apresentava um conteúdo teoló-
gico, pois os fundamentos do direito natural eram a inteligência e a vontade 
divina, pela vigência do credo religioso e o predomínio da fé. Os princípios 
imutáveis e universais do direito natural podiam ser sintetizados na fórmula 
segundo a qual o bem deve ser feito, daí advindo os deveres dos homens para 
consigo mesmos, para com os outros homens e para com Deus. As demais 
normas, construídas pelos legisladores, seriam aplicações destes princípios 
às contingências da vida, v.g, do princípio jusnatural de que o homem não 
deve lesar o próximo, decorreria a norma positivada que veda os atos ilíci-
tos. Segundo o jusnaturalismo teológico, o fundamento dos direitos naturais 
seria a vontade de Deus: o direito positivo deveria estar em consonância com 
as exigências perenes e imutáveis da divindade.
Podem ser identificados dois grandes movimentos partidários do jusna-
turalismo teológico: a patrística e a escolástica.
Entre os Santos Padres, destacam-se Tertuliano, Latâncio, Santo Ambró-
sio, São João Crisóstomo e, principalmente, Santo Agostinho.
Santo Agostinho, indubitavelmente, é o maior expoente da patrística e 
um dos mais célebres pensadores de todas as épocas. As contribuições e for-
mulações filosóficas agostinianas são vastas e relevantes. Inicialmente, trata 
de dois conceitos de Estado: o conceito helênico pagão que corresponde 
à civitas terrena, e o conceito cristão que corresponde à civitas caelestis. A 
primeira povoada por homens vivendo no mundo (Estado Pagão), a segun-
da composta por almas libertas do pecado e próximas de Deus. O homem 
deve procurar o estabelecimento da cidade celeste (submissão do Estado à 
Igreja).
A respeito da doutrina geral da lei, difere a lex aeterna da lex naturalis. Deus 
é o autor da lei eterna, enquanto a lei natural é a manifestação daquela no 
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coração do homem. Portanto, a lei natural é a lei eterna transcrita na alma do 
homem, em razão do seu coração, também chamada lei íntima. A lei humana 
deve derivar da lei natural, do contrário não será autêntica. Preceito humano 
injusto não é a lei. O legislador deve procurar não só restringir tudo que per-
turbe a ordem das coisas, como também ordenar o que favoreça esta ordem. 
A lei humana tem por fim o governo dos homens, manter a paz entre eles. En-
quanto a lei eterna e a natural se referem ao campo da moralidade. No que se 
refere à justiça, Santo Agostinho compartilha da definição de Cícero, segundo 
a qual a justiça é a tendência da alma de dar a cada um o que é seu.
Por sua vez, a escolástica tem seu início marcado pela anexação de Grécia 
e Roma por Carlos Magno ao Império Franco. Nessa época, a característica 
denunciante da genialidade dos homens transparecia pelo equilíbrio entre a 
razão e a fé, o qual fora alcançado por Santo Tomás de Aquino ao demonstrar 
que fé e razão são diferentes caminhos que levam ao verdadeiro conheci-
mento. Por seus grandes trabalhos intelectuais, o Doutor Angélico foi consi-
derado o maior pensador da doutrina escolástica.
Santo Tomás de Aquino admite uma diversidade de leis: a lei divina re-
velada ao homem, a lei humana, a lei eterna e a lei natural, contudo, não as 
considera como compartimentos estanques. A lei eterna é a razão oriunda do 
divino que coordena todo o universo, incluindo o homem. Afirma ele a neces-
sidade da complementação desta pelas leis divina e humana, a fim de se con-
seguir a certeza jurídica e a paz social, bem como facilitar a interpretação dos 
juízes. Para Santo Tomás de Aquino, por ser
Pedro
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