03_-_03_-_A_verdade_-_As_concepcoes_da_verdade
7 pág.

03_-_03_-_A_verdade_-_As_concepcoes_da_verdade


DisciplinaLógica I9.712 materiais140.263 seguidores
Pré-visualização5 páginas
onde devo colocar o \u201ccatálogo dos catálogos\u201d? 
Isto é, o catálogo dos catálogos é um catálogo catalogado por ele mesmo junto com os outros catálogos, 
ou é um catálogo que não faz parte de nenhum catálogo? Se estiver catalogado, não pode ser catálogo de 
todos os catálogos, pois será necessário um outro catálogo que o contenha; mas se não estiver 
catalogado, não é o catálogo de todos os catálogos, pois em tal catálogo está faltando ele próprio. 
O que se percebeu nesse paradoxo é que a estrutura e o funcionamento da linguagem não correspondem 
exatamente à estrutura e ao funcionamento das coisas. Essa descoberta conduziu a filosofia analítica à 
idéia da verdade como algo puramente lingüístico e lógico, isto é, a verdade é a coerência interna de uma 
linguagem que oferece axiomas, postulados e regras para os enunciados e que é verdadeira ou falsa 
conforme respeite ou desrespeite as normas de seu próprio funcionamento. 
Cada campo do conhecimento cria sua própria linguagem, seus axiomas, seus postulados, suas regras de 
demonstração e de verificação de seus resultados e é a coerência interna entre os procedimentos e os 
resultados com os princípios que fundamentam um certo campo de conhecimento que define o verdadeiro 
e o falso. Verdade e falsidade não estão nas coisas nem nas idéias, mas são valores dos enunciados, 
segundo o critério da coerência lógica. 
A concepção pragmática da verdade 
Os filósofos empiristas tendem a considerar que os critérios anteriores são puramente teóricos e que, para 
decidir sobre a verdade de um fato ou de uma idéia, eles não são suficientes e podem gerar ceticismo, 
isto é, como há variados critérios e como há mudanças históricas no conceito da verdade, acaba-se 
julgando que a verdade não existe ou é inalcançável pelos seres humanos. 
Para muitos filósofos empiristas, a verdade, além de ser sempre verdade de fato e de ser obtida por 
indução e por experimentação, deve ter como critério sua eficácia ou utilidade. Um conhecimento é 
verdadeiro não só quando explica alguma coisa ou algum fato, mas sobretudo quando permite retirar 
conseqüências práticas e aplicáveis. Por considerarem como critério da verdade a eficácia e a utilidade, 
essa concepção é chamada de pragmática e a corrente filosófica que a defende, de pragmatismo. 
As concepções da verdade e a História 
As várias concepções da verdade que foram expostas estão articuladas com mudanças históricas, tanto no 
sentido de mudanças na estrutura e organização das sociedades, como quanto no sentido de mudanças 
no interior da própria Filosofia. 
Assim, por exemplo, nas sociedades antigas, baseadas no trabalho escravo, a idéia da verdade como 
utilidade e eficácia prática não poderia aparecer, pois a verdade é considerada a forma superior do 
espírito humano, portanto, desligada do trabalho e das técnicas, e tomada como um valor autônomo do 
conhecimento enquanto pura contemplação da realidade, isto é, como theoria. 
Nas sociedades nascidas com o capitalismo, em que o trabalho escravo e servil é substituído pelo trabalho 
livre e em que é elaborada a idéia de indivíduo como um átomo social, isto é, como um ser que pode ser 
conhecido e pensado por si mesmo e sem os outros, a verdade tenderá a ser concebida como dependendo 
exclusivamente das operações do sujeito do conhecimento ou da consciência de si reflexiva autônoma. 
Também nas sociedades capitalistas, regidas pelo princípio do crescimento ou acumulação do capital por 
meio do crescimento das forças produtivas (trabalho e técnicas) e por meio do aumento da capacidade 
industrial para dominar e controlar as forças da Natureza e a sociedade, a verdade tenderá a aparecer 
como utilidade e eficácia, ou seja, como algo que tenha uso prático e verificável. Assim como o trabalho 
deve produzir lucro, também o conhecimento deve produzir resultados úteis. 
Numa sociedade altamente tecnológica, como a do século XX ocidental europeu e norte-americano, em 
que as pesquisas científicas tendem a criar nos laboratórios o próprio objeto do conhecimento, isto é, em 
que o objeto do conhecimento é uma construção do pensamento científico ou um constructus produzido 
pelas teorias e pelas experimentações, a verdade tende a ser considerada a forma lógica e coerente 
assumida pela própria teoria, bem como a ser considerada como o consenso teórico estabelecido entre os 
membros das comunidades de pesquisadores. 
A verdade, portanto, como a razão, está na História e é histórica. 
Também as transformações internas à própria Filosofia modificam a concepção da verdade. A teoria da 
verdade como correspondência entre coisa e idéia, ou fato e idéia, liga-se à concepção realista da razão e 
do conhecimento, isto é, à prioridade do objeto do conhecimento, ou realidade, sobre o sujeito do 
conhecimento. Ao contrário, a concepção da verdade como coerência interna e lógica das idéias ou dos 
conceitos liga-se à concepção idealista da razão e do conhecimento, isto é, à prioridade do sujeito do 
conhecimento ou do pensamento sobre o objeto a ser conhecido. 
As concepções históricas e as transformações internas ao conhecimento mostram que as várias 
concepções da verdade não são arbitrárias nem casuais ou acidentais, mas possuem causas e motivos 
que as explicam, e que a cada formação social e a cada mudança interna do conhecimento surge a 
exigência de reformular a concepção da verdade para que o saber possa realizar-se. 
As verdades (os conteúdos conhecidos) mudam, a idéia da verdade (a forma de conhecer) muda, mas 
não muda a busca do verdadeiro, isto é, permanece a exigência de vencer o senso-comum, o 
dogmatismo, a atitude natural e seus preconceitos. É a procura da verdade e o desejo de estar no 
verdadeiro que permanecem. A verdade se conserva, portanto, como o valor mais alto a que aspira o 
pensamento. 
As exigências fundamentais da verdade 
Se examinarmos as diferentes concepções da verdade, notaremos que algumas exigências fundamentais 
são conservadas em todas elas e constituem o campo da busca do verdadeiro: 
1. compreender as causas da diferença entre o parecer e o ser das coisas ou dos erros; 
2. compreender as causas da existência e das formas de existência dos seres; 
3. compreender os princípios necessários e universais do conhecimento racional; 
4. compreender as causas e os princípios da transformação dos próprios conhecimentos; 
5. separar preconceitos e hábitos do senso comum e a atitude crítica do conhecimento; 
6. explicitar com todos os detalhes os procedimentos empregados para o conhecimento e os critérios de 
sua realização; 
7. liberdade de pensamento para investigar o sentido ou a significação da realidade que nos circunda e da 
qual fazemos parte; 
8. comunicabilidade, isto é, os critérios, os princípios, os procedimentos, os percursos realizados, os 
resultados obtidos devem poder ser conhecidos e compreendidos por todos os seres racionais. Como 
escreve o filósofo Espinosa, o Bem Verdadeiro é aquele capaz de comunicar-se a todos e ser 
compartilhado por todos; 
9. transmissibilidade, isto é, os critérios, princípios, procedimentos, percursos e resultados do 
conhecimento devem poder ser ensinados e discutidos em público. Como diz Kant, temos o direito ao uso 
público da razão; 
10. veracidade, isto é, o conhecimento não pode ser ideologia, ou, em outras palavras, não pode ser 
máscara e véu para dissimular e ocultar a realidade servindo aos interesses da exploração e da 
dominação entre os homens. Assim como a verdade exige a liberdade de pensamento para o 
conhecimento, também exige que seus frutos propiciem a liberdade de todos e a emancipação de todos; 
11. a verdade deve ser objetiva, isto é, deve ser compreendida e aceita universal e necessariamente, sem 
que isso signifique que ela seja \u201cneutra\u201d ou \u201cimparcial\u201d, pois o sujeito do conhecimento está vitalmente 
envolvido na atividade do conhecimento e o conhecimento