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abalou o princípio da razão suficiente. Vimos 
que esse princípio afirma que, conhecido A, posso determinar como dele 
necessariamente resultará B, ou, conhecido B, posso determinar necessariamente como 
era A que o causou. Em outras palavras, conhecido o estado E de um fenômeno, posso 
deduzir como será o estado E2 ou E3 e vice-versa: conhecidos E3 e E2 posso dizer como 
era o estado E. Ora, a física dos átomos revelou que isso não é possível, que não 
podemos saber as razões pelas quais os átomos se movimentam, nem sua velocidade e 
direção, nem os efeitos que produzirão. 
Esses dois problemas levaram a introduzir um novo princípio racional na Natureza: o 
princípio da indeterminação. Assim, o princípio da razão suficiente é válido para os 
fenômenos macroscópicos, enquanto o princípio da indeterminação é válido para os 
fenômenos em escala hipermicroscópica. 
Um outro problema veio abalar o princípio da identidade e da não-contradição. A física 
sempre considerou que a Natureza obedece às leis universais da razão objetiva sem 
depender da razão subjetiva. Em outras palavras, as leis da Natureza existem por si 
mesmas, são necessárias e universais por si mesmas e não dependem do sujeito do 
conhecimento. 
Contudo, a teoria da relatividade mostrou que as leis da Natureza dependem da posição 
ocupada pelo observador, isto é, pelo sujeito do conhecimento e, portanto, para um 
observador situado fora de nosso sistema planetário, a Natureza poderá seguir leis 
completamente diferentes, de tal modo que, por exemplo, o que é o espaço e o tempo 
para nós poderá não ser para outros seres (se existirem) da galáxia; a geometria que 
seguimos pode não ser a que tenha sentido noutro sistema planetário; o que pode ser 
contraditório para nós poderá não ser para habitantes de outra galáxia e assim por 
diante. 
Um outro problema, também atingindo os princípios da razão, foi trazido pela lógica. O 
lógico alemão Frege apresentou o seguinte problema: quando digo \u201ca estrela da manhã é 
a estrela da tarde\u201d estou caindo em contradição e perdendo o princípio da identidade. No 
entanto, \u201cestrela da manhã\u201d é o planeta Vênus e \u201cestrela da tarde\u201d também é o planeta 
Vênus; dessa perspectiva, não há contradição alguma no que digo. É preciso, então, 
distinguir em nosso pensamento e em nossa linguagem três níveis: o objeto a que nós 
nos referimos, os enunciados que empregamos e o sentido desses enunciados em sua 
relação com o objeto referido. Somente dessa maneira podemos manter a racionalidade 
dos princípios da identidade, da não-contradição e do terceiro-excluído. 
Enfim, um outro tipo de problema foi trazido com o desenvolvimento dos estudos da 
antropologia, que mostraram como outras culturas podem oferecer uma concepção muito 
diferente da que estamos acostumados sobre o pensamento e a realidade. Isso não 
significa, como imaginaram durante séculos os colonizadores, que tais culturas ou 
sociedades sejam irracionais ou pré-racionais, e sim que possuem uma outra idéia do 
conhecimento e outros critérios para a explicação da realidade. 
Como a palavra razão é européia e ocidental, parece difícil falarmos numa outra razão, 
que seria própria de outros povos e culturas. No entanto, o que os estudos 
antropológicos mostraram é que precisamos reconhecer a \u201cnossa razão\u201d e a \u201crazão 
deles\u201d, que se trata de uma outra razão e não da mesma razão em diferentes graus de 
uma única evolução. 
Indeterminação da Natureza, pluralidade de enunciados para um mesmo objeto, 
pluralidade e diferenciação das culturas foram alguns dos problemas que abalaram a 
razão, no século XX. A esse abalo devemos acrescentar dois outros. O primeiro deles foi 
trazido por um não-filósofo, Marx, quando introduziu a noção de ideologia; o segundo 
também foi trazido por um não-filósofo, Freud, quando introduziu o conceito de 
inconsciente. 
A noção de ideologia veio mostrar que as teorias e os sistemas filosóficos ou científicos, 
aparentemente rigorosos e verdadeiros, escondiam a realidade social, econômica e 
política, e que a razão, em lugar de ser a busca e o conhecimento da verdade, poderia 
ser um poderoso instrumento de dissimulação da realidade, a serviço da exploração e da 
dominação dos homens sobre seus semelhantes. A razão seria um instrumento da 
falsificação da realidade e de produção de ilusões pelas quais uma parte do gênero 
humano se deixa oprimir pela outra. 
A noção de inconsciente, por sua vez, revelou que a razão é muito menos poderosa do 
que a Filosofia imaginava, pois nossa consciência é, em grande parte, dirigida e 
controlada por forças profundas e desconhecidas que permanecem inconscientes e 
jamais se tornarão plenamente conscientes e racionais. A razão e a loucura fazem parte 
de nossa estrutura mental e de nossas vidas e, muitas vezes, como por exemplo no 
fenômeno do nazismo, a razão é louca e destrutiva. 
Fatos como esses - as descobertas na física, na lógica, na antropologia, na história, na 
psicanálise - levaram o filósofo francês Merleau-Ponty a dizer que uma das tarefas mais 
importantes da Filosofia contemporânea deveria ser a de encontrar uma nova idéia da 
razão, uma razão alargada, na qual pudessem entrar os princípios da racionalidade 
definidos por outras culturas e encontrados pelas descobertas científicas. 
Esse alargamento é duplamente necessário e importante. Em primeiro lugar, porque ele 
exprime a luta contra o colonialismo e contra o etnocentrismo - isto é, contra a visão de 
que a \u201cnossa\u201d razão e a \u201cnossa\u201d cultura são superiores e melhores do que as dos outros 
povos. Em segundo lugar, porque a razão estaria destinada ao fracasso se não fosse 
capaz de oferecer para si mesma novos princípios exigidos pelo seu próprio trabalho 
racional de conhecimento.