02_-_03_-_A_Razao_-_A_razao_inata_ou_adquirida
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DisciplinaLógica I9.302 materiais138.951 seguidores
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os desejos e os impulsos, com o surgimento 
da psicanálise? Freud, seu criador, mostrou que não temos esse poder, que nossa 
consciência, nossa vontade e nossa razão podem menos que o nosso inconsciente, isto é, 
do que o desejo. Como uma idéia inata, afinal, perdeu a verdade? 
O que acontece com a justiça política platônica quando alguns filósofos que estudaram a 
formação das sociedades e da política mostraram a igualdade de todos os cidadãos e 
afirmaram que nenhuma classe tem o direito de dominar e controlar outras, e que tal 
domínio e controle é, exatamente, a injustiça? Como uma idéia inata, afinal, perdeu a 
verdade? 
Tomemos, agora, um outro exemplo, vindo da filosofia de Descartes. 
Descartes considera que a realidade natural é regida por leis universais e necessárias do 
movimento, isto é, que a natureza é uma realidade mecânica. Considera também que as 
leis mecânicas ou leis do movimento elaboradas por sua filosofia ou por sua física são 
idéias racionais deduzidas de idéias inatas simples e verdadeiras. 
Ora, quando comparamos a física de Descartes com a de Galileu, elaborada na mesma 
época, verificamos que a física galileana é oposta à cartesiana e é a que será provada e 
demonstrada verdadeira, a de Descartes sendo falsa. Como poderia isso acontecer, se as 
idéias da física cartesiana eram idéias inatas? 
Os exemplos que propusemos indicam onde estão os dois grandes problemas do 
inatismo: 
1. a própria razão pode mudar o conteúdo de idéias que eram consideradas universais e 
verdadeiras (é o caso da idéia platônica de justiça); 
2. a própria razão pode provar que idéias racionais também podem ser falsas (é o caso 
da física cartesiana). 
Se as idéias são racionais e verdadeiras, é porque correspondem à realidade. Ora, a 
realidade permanece a mesma e, no entanto, as idéias que a explicavam perderam a 
validade. Ou seja, o inatismo se depara com o problema da mudança das idéias, feita 
pela própria razão, e com o problema da falsidade das idéias, demonstrada pela própria 
razão. 
Problemas do empirismo 
O empirismo, por sua vez, se defronta com um problema insolúvel. 
Se as ciências são apenas hábitos psicológicos de associar percepções e idéias por 
semelhança e diferença, bem como por contigüidade espacial ou sucessão temporal, 
então as ciências não possuem verdade alguma, não explicam realidade alguma, não 
alcançam os objetos e não possuem nenhuma objetividade. 
Ora, o ideal racional da objetividade afirma que uma verdade é uma verdade porque 
corresponde à realidade das coisas e, portanto, não depende de nossos gostos, nossas 
opiniões, nossas preferências, nossos preconceitos, nossas fantasias, nossos costumes e 
hábitos. Em outras palavras, não é subjetiva, não depende de nossa vida pessoal e 
psicológica. Essa objetividade, porém, para o empirista, a ciência não pode oferecer nem 
garantir. 
A ciência, mero hábito psicológico ou subjetivo, torna-se afinal uma ilusão, e a realidade 
tal como é em si mesma (isto é, a realidade objetiva) jamais poderá ser conhecida por 
nossa razão. Basta, por exemplo, que um belo dia eu ponha um líquido no fogo e, em 
lugar de vê-lo ferver e aumentar de volume, eu o veja gelar e diminuir de volume, para 
que toda a ciência desapareça, já que ela depende da repetição, da freqüência, do hábito 
de sempre percebermos uma certa sucessão de fatos à qual, também por hábito, demos 
o nome de princípio da causalidade. 
Assim, do lado do empirismo, o problema colocado é o da impossibilidade do 
conhecimento objetivo da realidade. 
RESUMINDO\u2026 
Do lado do inatismo, o problema pode ser formulado da seguinte maneira: como são 
inatos, as idéias e os princípios da razão são verdades intemporais que nenhuma 
experiência nova poderá modificar. 
Ora, a História (social, política, científica e filosófica) mostra que idéias tidas como 
verdadeiras e universais não possuíam essa validade e foram substituídas por outras. 
Mas, por definição, uma idéia inata é sempre verdadeira e não pode ser substituída por 
outra. Se for substituída, então não era uma idéia verdadeira e, não sendo uma idéia 
verdadeira, não era inata. 
Do lado do empirismo, o problema pode ser formulado da seguinte maneira: a 
racionalidade ocidental só foi possível porque a Filosofia e as ciências demonstraram que 
a razão é capaz de alcançar a universalidade e a necessidade que governam a própria 
realidade, isto é, as leis racionais que governam a Natureza, a sociedade, a moral, a 
política. 
Ora, a marca própria da experiência é a de ser sempre individual, particular e subjetiva. 
Se o conhecimento racional for apenas a generalização e a repetição para todos os seres 
humanos de seus estados psicológicos, derivados de suas experiências, então o que 
chamamos de Filosofia, de ciência, de ética, etc. são nomes gerais para hábitos psíquicos 
e não um conhecimento racional verdadeiro de toda a realidade, tanto a realidade natural 
quanto a humana. 
Problemas dessa natureza, freqüentes na história da Filosofia, suscitam, periodicamente, 
o aparecimento de uma corrente filosófica conhecida como ceticismo, para o qual a 
razão humana é incapaz de conhecer a realidade e por isso deve renunciar à verdade. O 
cético sempre manifesta explicitamente dúvidas toda vez que a razão tenha pretensão ao 
conhecimento verdadeiro do real.