A_visao_saussuriana_da_linguagem
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A_visao_saussuriana_da_linguagem


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Universidade Federal do Ceará
Instituto UFC Virtual
Curso: Letras \u2013 Licenciatura em Português
Disciplina: Linguística: Formalismo
Professor: Paulo Mosânio Teixeira Duarte
Tutora: Ana Keyla Carmo Lopes
LIMA BARRETO, Evanice Ramos. A visão saussuriana da linguagem. P@rtes. (São Paulo). Outubro de 2009. ISSN 1678-8419. Disponível em: <www.partes.com.br/educação/visaosaussuriana.asp>. Acesso em: 16 de ago. de 2013.
O fenômeno linguístico sempre exerceu fascínio sobre os homens que, desde a Antiguidade já empreendiam sérias discussões a respeito da organização da linguagem, bem como de seus elementos constituintes. Ao longo do tempo, os homens tentaram explicar a realização do fenômeno linguístico, propondo diversas concepções sobre a língua.
 
Inicialmente os estudos da linguagem foram fortemente marcados pelo racionalismo: estudo da linguagem enquanto representação do pensamento e concepção de que a língua obedece a princípios racionais lógicos. Cria-se, assim, a gramática considerada modelo por muitos gramáticos do século XVII: Gramática de Port-Royal. Posteriormente, com os estudos históricos, busca-se mostrar que as línguas se transformam com o tempo e essa mudança não depende da vontade dos homens; segue a vontade da própria língua e tem uma regularidade. Em seguida, com os estruturalistas, que se ocupam, inicialmente, da segunda articulação da linguagem e, depois, dos signos e dos sistemas de signos, procura-se explorar as inter-relações através das quais o significado é produzido dentro de uma cultura.
As concepções estruturais da linguagem tiveram grande aceitabilidade na Europa. Foi a partir do estruturalismo que a Linguística ganhou seu objeto de estudo, a língua, concebida como um conjunto de signos bem organizados, formando um todo significativo, em que cada elemento só adquire valor a partir de sua relação com o todo do qual faz parte.   
 
Breve história do Estruturalismo
 
O estruturalismo surgiu na Europa, a partir das ideias revolucionárias sobre a linguagem, desenvolvidas pelo linguista genebriano Ferdinand de Saussure. Desde jovem, ele se dedicou aos estudos linguísticos e considerava insuficientes os princípios e métodos característicos da Linguagem. Em 1906, tornou-se professor titular na Universidade de Genebra, em que teve a oportunidade de divulgar sua visão sobre a Linguística Geral, cujas anotações foram reunidas e publicadas por dois de seus discípulos, após a sua morte, resultando em um de seus mais importantes trabalhos: o Curso de Linguística Geral.
 
Outros estudos linguísticos também fizeram parte dos interesses do mestre, como o trabalho sobre as vogais do indo-europeu e a análise de anagramas, mas o que realmente o consagrou foram os novos conceitos referentes à língua, os quais deram à Linguística um caráter científico, até então negado a esta por falta de método e objeto de estudo próprios.
 
Convém ressaltar que a Linguística já se constituía desde o século XVII, com as gramáticas gerais e depois, com as gramáticas comparadas, porém, só a partir do século XX, com Saussure, é que a Linguística se autonomiza como ciência, definindo seu objeto e métodos próprios.
Saussure considera a língua um sistema de signos, cuja significação depende das relações de valor entre eles, pois a língua se estrutura ordenadamente de maneira a formar um todo significativo, a partir de pares opostos. Ele institui, então a sua visão dicotômica da linguagem, distinguindo língua e fala, sincronia e diacronia, significado e significante, relações sintagmáticas e relações paradigmáticas. Dessa forma, propõe um novo método de análise dos fenômenos linguísticos, chamado estruturalismo, que Mattoso Câmara assim define:
(...) é uma nova forma de encarar os fenômenos linguísticos porque faz com que a significação dependa, completa e exclusivamente, das suas relações íntimas e liberta esta concepção de outros postulados, falsos ou unilaterais, que tinham sido explicitamente enunciados e através dos quais se devia deduzir a existência de relações vagas e indistintas. (CAMARA JR., 1979, p. 110)
Muitos discípulos de Saussure procuraram explicar e aclarar suas ideias sobre a língua, outros partiram de sua teoria para investigar as partes da linguística sobre os quais o mestre não havia se pronunciado. Meillet e Bally, por exemplo, dedicaram-se, respectivamente, aos estudos de gramática comparativa do indo-europeu e à estilística; Sechehaye e Gardiner discutiram a distinção entre discurso e língua; Vandryes propôs uma visão sociológica para a linguagem. 
 
Outros linguistas também se influenciaram pelas ideias de Saussure e o estruturalismo perdurou até os anos 50, momento em que Noam Chomsky, linguista americano, propôs uma teoria explicativa para a linguagem: o gerativismo.
 
As dicotomias saussurianas
 
Língua e fala
 
Apoiada na oposição social/individual, a distinção entre língua e fala constitui a base da teoria estrutural da linguagem. Segundo Saussure, a língua é um fato social, assim como a fala, um ato individual, contudo, uma não existe sem a outra.
 
A língua é um instrumento de dominação, que só existe na mente dos falantes. Ela não é utilizada em termos concretos, é uma abstração da realidade que só se concretiza através da fala. Por isso Saussure afirma que a língua é um sistema de signos, cuja essência é a união do sentido e da imagem acústica; \u201cé um tesouro depositado pela prática da parole em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade\u201d (SAUSSURE, 1975, p. 23), portanto, ela se apresenta como acervo linguístico. 
 
Considerando que a língua não é individual, que nenhum indivíduo é possuidor da língua e que ela só se completa a partir da coletividade, Saussure a considera uma instituição social. Ela se constitui a partir das convenções estabelecidas por uma sociedade, não podendo ser modificada por apenas um membro desta, e, por ser um sistema de signos, cuja função é exprimir ideias, ela é sistemática e funcional, de natureza homogênea. A fala, por outro lado, é considerada um instrumento de execução individual da linguagem, cuja função é exprimir o pensamento pessoal, e por isso é heterogênea e multifacetada, sendo peculiar a cada indivíduo que dispõe das combinações necessárias para a realização da língua. Ela é assistemática, permitindo uma variedade de combinações linguísticas.
Utilizando o termo forma no sentido de essência, Saussure estabelece que a língua é forma e não substância, pois ela é sistemática e tem estrutura. A forma é constituída pela teia de relações entre os elementos da língua, enquanto a substância é constituída pelos elementos dessa teia. Na língua, podem ser constituídas sentenças com alterações de substância, ou seja, falta de coesão que, no entanto, não implicam na forma, a qual é de fundamental importância para o funcionamento do sistema linguístico. Uma sentença como Nós conseguiu apresenta defeito de substância, entretanto, os elementos que a constituem (sujeito e predicado) estão perfeitamente relacionados, não apresentando defeito de forma, visto que possui gramaticalidade. Saussure, então, atribui à substância a função de fazer a ligação com a forma. Para ele, a língua está para a forma, assim como a fala está para a substância, sendo impossível conceber uma sem a outra.
Sem dúvida, a língua é sistemática, mas os seus elementos podem sofrer mudanças ao longo do tempo, porém essas mudanças não são percebidas pela coletividade. Assim, Saussure confere total prioridade ao estudo da língua, visto que, por ser ciência, a Linguística só poderia se ater ao estudo daquilo que é sistemático e constante: a langue. Seu estudo, conforme Saussure, deve partir das relações entre os elementos constituintes do sistema e suas funções, desconsiderando outras propriedades, tais como: modo de formação, estrutura acústica, variantes morfo-fonêmicas, etc.
Sincronia e diacronia
 
Outro par do qual Saussure faz distinção em seus estudos linguísticos é sincronia/diacronia. Para ele, os fatos linguísticos podem se