A_visao_saussuriana_da_linguagem
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relacionar simultaneamente em um determinado momento do sistema da língua, como também podem se relacionar com outros fenômenos antecedentes ou procedentes dentro do sistema da língua. Por isso, faz a distinção entre esses dois fatos, estabelecendo dois eixos: o da simultaneidade e os das sucessividades. No primeiro eixo, que ocorre horizontalmente, os fenômenos linguísticos coexistem de maneira atemporal; no segundo eixo, que ocorre verticalmente, os fenômenos ocupam uma determinada posição e devem ser considerados de per si, verificando as alterações sofridas pelos fenômenos do primeiro eixo, que aí se encontram. 
 
Aos fenômenos que ocorrem no eixo das simultaneidades corresponde a sincronia, e aos que ocorrem no eixo das sucessividades corresponde a diacronia. Assim, em seu Curso de Linguística Geral, Saussure utilizou uma escala para ilustrar seu pensamento, em que A B = sincronia e C D = diacronia:
 
                                                         
Sincronia e diacronia se apresentam bem diferentes; a primeira corresponde à gramática de uma língua: \u201cÀ sincronia pertence tudo o que se chama \u201cgramática geral\u201d, pois é somente pelos estados de língua que se estabelecem as diferentes relações que incubem à gramática\u201d (Saussure, 1975, p. 117); enquanto a segunda corresponde à fala: 
 
(...) tudo quando seja diacrônico na língua, não o é senão pela fala. É na fala que se acha o germe de todas as modificações: cada uma delas é lançada, a princípio por um certo número de indivíduos, antes de entrar em uso. (Saussure, 1975, p. 115)
Analisando, por exemplo, o verbo pôr, pode-se afirmar que diacronicamente é um verbo da 2ª conjugação por causa de sua foram arcaica poer, que era seu infinitivo. Porém, sincronicamente ele pertence à 2ª conjugação porque as formas pudesse, puser, põe, etc. comprovam que sua vogal temática é \u2013e-. Assim, Saussure diz que \u201cÉ sincrônico tudo quanto se relacione com o aspecto estático da nossa ciência; diacrônico tudo que diz respeito às evoluções\u201d (Saussure, 1975, p.96).
Portanto, diacronia se refere às transformações, às mudanças ou alterações sofridas pelos elementos do sistema linguístico ao longo de seu uso na língua; enquanto sincronia se refere à situação, ao estado em que os elementos se encontram em um dado momento (passado ou presente), independente dos fatos que os antecederam ou procederam no tempo.
 
Em seus estudos linguísticos, Saussure priorizou a sincronia, pois acreditava que, sendo a língua um sistema de valores, seu estudo deveria partir da estrutura como se apresenta num estado momentâneo, a qual é a única perceptível pelos falantes, visto que os mesmos não percebem a sucessão de fatos linguísticos no tempo, que constituem a diacronia. Assim, torna-se impossível estudar, ao mesmo tempo, os fatos sincrônicos e diacrônicos, principalmente pela multiplicidade de signos na língua. 
 
Significante e significado
 
Uma terceira dicotomia da visão estrutural da linguagem se refere aos elementos que compõem o signo linguístico: significante e significado. Como já foi visto, a língua é considerada um sistema de signos, cuja essência é a união entre sentido e imagem acústica. O signo linguístico, então, foi assim ilustrado no Curso:
A representação mental ou conceito a que se está convencionada a palavra denomina-se significado (parte abstrata da palavra). A imagem acústica, a impressão psíquica que se tem do som, quando se enuncia a palavra, denomina-se significante. Esses dois elementos são inseparáveis. Não é possível conceber, na língua, conceitos ou ideias sem uma denominação específica ou vice-versa. Com isso, tem-se que \u201cos termos implicados no signo são ambos psíquicos e estão unidos, em nosso cérebro, por um vinculo de associação\u201d (SAUSSURE, 1975, p. 80).  
Sendo a língua um sistema, cujos signos são estabelecidos por convenção social, o vínculo associativo que une as duas faces do signo não é motivado, ou seja, não há um critério para se associar um significado a um significante na língua, por isso, o signo linguístico é arbitrário. Nesse sentido, arbitrariedade não significa liberdade para que o falante possa alterar o signo, pois este é convencional. E, exatamente por ser imutável, o signo é arbitrário; ele só se estabelece na língua quando consagrado por uma comunidade linguística. Assim, o mestre genebriano afirma que \u201cJustamente porque é arbitrário, não conhece outra lei senão a da tradição, e é por basear-se na tradição que pode ser arbitrário\u201d (SAUSSURE, 1975, p.88).
A diferença que existe entre as línguas justifica essa característica do signo. Em cada língua há um significante diferente para representar um mesmo conceito comum a todas: cadeira, silla, chair, etc. O princípio da arbitrariedade parte da idéia de que não há uma razão natural para se unir determinado conceito a determinada seqüência fônica, por isso, qualquer seqüência fônica poderia se associar a qualquer conceito e vice-versa, desde que fosse consagrado pela comunidade linguística.
No que tange à questão das onomatopéias e interjeições, Saussure diz que, devido à sua forma fônica, sugerem apenas uma realidade, mas não são elementos constitutivos da língua e nem sempre mantêm uma relação evidente entre o significante e o significado. Além disso, eles variam de língua para língua, pois não são imitações fiéis e diretas de ruídos e sons naturais, visto que, quando introduzidas na língua, sofrem evolução fônica, convencionando-se também como os demais signos e perdendo seu caráter natural.
 
Outra característica do signo é a linearidade. Cada elemento da língua se difere do outro, estabelecendo uma relação contrastiva, não havendo possibilidade de emitir dois fonemas simultaneamente. Mesmo quando não se compreende na totalidade os fonemas que compõem um sintagma, há de se fazer uma escolha, pois não há um elemento intermediário, portanto, ou se pronuncia dente ou pente, visto que os elementos que compõem a língua são discretos e se agrupam linearmente, numa seqüência. Como o significado não é uma sucessão e não possui partes, a linearidade reside apenas no significante.
 
Relações sintagmáticas e relações paradigmáticas
 
A língua é uma estrutura em que cada elemento tem uma função. Para Saussure, a língua é composta sempre de pares opostos que formam uma estrutura, e é exatamente esse fator que torna possível a existência de uma língua. Os elementos da língua mantêm entre si relações lineares e de contraste, das quais dependem sua significação e seu valor. Essas relações ocorrem horizontalmente em nível mórfico, fônico e sintático entre dois ou mais elementos, formando sintagma. 
Na palavra casinha, por exemplo, temos uma oposição entre o radical cas- e o sufixo característico do diminutivo \u2013inha, formando um sintagma. Para Saussure, sintagma se constitui de dois ou mais elementos consecutivos, não devendo, pois, confundir-se com sintaxe, visto que o estudo do sintagma se propõe à análise dos elementos mínimos significativos da língua, enquanto a sintaxe deve apenas ser parte desse estudo.
 
Como foi exposto anteriormente, a língua se constitui acervo linguístico. Cada indivíduo tem armazenado em sua mente uma série de palavras que, no momento da concretização da língua, são selecionadas pelo falante para compor o enunciado. As palavras que pertencem à mesma família se associam na memória formando grupos e mantendo várias relações entre si. Essas relações ocorrem verticalmente em nível mórfico, fônico e semântico, formando um paradigma. 
Dessa forma, Saussure distingue dois tipos de relações entre os termos da língua, que \u201cse desenvolvem em duas esferas distintas...\u201d e \u201ccorrespondem em duas formas de nossa atividade mental, ambas indispensáveis para a vida da língua\u201d (SAUSSURE, 1973, p. 142). Na primeira, estão as relações sintagmáticas; na segunda, estão as relações paradigmáticas.
As relações sintagmáticas se referem às relações que unem as partes de um sintagma, bem como as que unem um sintagma