m
16 pág.

m


DisciplinaTeoria Geral do Processo9.953 materiais187.877 seguidores
Pré-visualização6 páginas
5 
O acesso à justiça e jurisprudência defensiva dos Tribunais Superiores 
 
 
Márcio Carvalho Faria 
 
Mestre em Direito Processual (UERJ) 
Professor Assistente de Direito Processual Civil (UFJF) 
Advogado 
 
SUMÁRIO: 1. O princípio constitucional do acesso à justiça. Bases históricas. \u2013 2. A 
jurisprudência defensiva dos Tribunais Superiores. \u2013 3. As exigências desmedidas e a violação 
ao acesso à justiça. \u2013 4. Conclusão. \u2013 Bibliografia. 
 
 
1 O princípio constitucional do acesso à justiça. Bases históricas 
 
 
 É conhecido, pelos operadores do direito, o princípio do acesso à justiça, 
insculpido na Constituição Federal de 1988 no inciso XXXV, art. 5º. Vários foram os 
trabalhos escritos sobre o tema e, certamente, muitos ainda o abordarão, na medida em 
que, conforme bem ressaltou Ana Paula de Barcellos
1
, o Judiciário, atualmente, tem se 
tornado a verdadeira panacéia para a tentativa de solução de problemas econômicos, 
sociais, religiosos, dentre outros. O juiz, sobretudo na sociedade atual, tem ganhado 
status de relevo, deixando de ser representante da clássica concepção da teoria geral do 
processo de mero órgão inerte e distanciado das partes e seus problemas em conflito. 
Muitas vezes, a discussão travada nos autos escapa dos limites (objetivos e, 
principalmente, subjetivos) estabelecidos pelos códigos processuais, e o juiz, e muito 
menos a justiça, podem ignorar tal fato. 
 Partindo desse pressuposto de que o Judiciário deve se envolver nas questões 
cotidianas da sociedade, o citado princípio do \u201cacesso à ordem jurídica justa2\u201d ganha 
destaque, devendo o legislador e os exegetas, indubitavelmente, buscar, cada vez mais, 
meios para que o jurisdicionado possa, do modo mais efetivo possível, receber a tutela 
jurisdicional adequada. Nesse diapasão, várias medidas foram e vem sendo adotadas, 
como, por exemplo, (i) a implementação dos juizados especiais (leis 7.244/84, 9.099/95 
e 10.259/01); (ii) a assistência judiciária gratuita (lei 1.060/50), aliada às defensorias 
 
1 \u201cNesse contexto, parte da sociedade (no Brasil e também em outros países), descrente do processo 
político normal, alimenta a expectativa de que o judiciário seja afinal um espaço afinal onde possam 
desenvolver-se de maneira mais lisa a discussão e a definição de políticas públicas\u201d. Ponderação, 
Racionalidade e Atividade Jurisdicional. Ana Paula de Barcellos. Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p 16. 
2 Conceito delineado por Kazuo Watanabe, em famoso artigo denominado \u201cAcesso à justiça e sociedade 
moderna\u201d, in Participação e processo. Coord. Ada Pellegrini Grinover et all. São Paulo: RT, 1988, p. 
128. 
 6 
públicas e escritórios-escola de faculdades de direito; (iii) a descentralização da justiça, 
com a criação de varas, comarcas e subseções em várias cidades do interior do País; (iv) 
o desenvolvimento, cada vez mais crescente, de ações de direito coletivo, como as ações 
civis públicas (lei 7.347/85) e ações populares (lei 4.717/65), as quais atendem, regra 
geral, com mais eficácia e celeridade o interesse dos cidadãos que as demandas 
singulares; dentre outras. 
 A idéia de \u201cacesso à justiça\u201d, porém, é muito anterior à CF/88 e às leis citadas, 
por óbvio. Relata Paulo Cezar Pinheiro Carneiro
3
, em interessante histórico sobre o 
tema, que já no Código de Hamurabi existiam normas que se preocupavam com a 
proteção dos mais fracos e oprimidos, notadamente \u201ca viúva o órfão\u201d, incentivando-os a 
buscar a justiça do soberano. A despeito dessa preocupação, esse acesso era privilégio 
de poucos, vez que os escravos e estrangeiros, que usualmente não comungavam da 
mesma fé (e por isso não reconheciam o soberano como tal), viam-se alijados desse 
direito. Foi somente, portanto, com a superação da figura do mito que, na Grécia antiga, 
por notória influência de Aristóteles, começou-se a se pensar em isonomia, em direitos 
iguais, em eqüidade na aplicação da lei aos cidadãos (o que, ainda, não significa à 
totalidade das pessoas, infelizmente). É daí, aliás, que surgem os primeiros passos para 
o que hoje se entende por teoria da justiça
4
, sendo Atenas o berço da assistência 
judiciária gratuita, havendo, anualmente, a nomeação de 10 advogados para prestar 
assistência jurídica àqueles considerados carentes. 
 Tempos depois, o pensamento grego reverbera em Roma, onde se verificou um 
acelerado desenvolvido do que hoje entendemos por jurisdição. Ali nasceram conceitos 
mui caros atualmente, como os do patrocínio em juízo e da necessidade da presença do 
advogado a permitir o equilíbrio das partes em litígio, e que posteriormente foram 
incorporados ao Código de Justiniano. 
 É exatamente nesse momento que a autotutela perde força para a hetero-
composição realizada pelo Estado (pretor), vez que a prestada pelo sacerdote já não 
mais atendia aos interesses dos cidadãos. Era o início da jurisdição. 
 Também no período medieval, a evolução do \u201cacesso à justiça\u201d permanece e 
evolui, mais precisamente entre os séculos IV e V, até o início do pensamento moderno, 
 
3 Acesso à justiça: juizados especiais cíveis e ação civil pública. 2.ed. Paulo Cezar Pinheiro Carneiro. Rio 
de Janeiro: Forense, 2007, p. 3-61. 
4 De relatar, porém, que a igualdade de Aristóteles sofreu forte influência da Escola Pitagórica, a qual 
simbolizava a justiça pela figura geométrica do quadrado, em razão da absoluta igualdade dos seus lados. 
Nesse sentido, Paulo Cezar Pinheiro Carneiro. Acesso à justiça..., ob. cit., p. 5. 
 7 
com o Renascimento, nos séculos XV e XVI, sendo marcante a influência da religião e, 
principalmente, do cristianismo, chegando-se a falar em uma ordem jurídica pluralista, 
na qual conviviam o direito canônico, o direito comum temporal e os direitos próprios. 
 A despeito de todas essas jurisdições, que, de certo modo, garantiam ampla 
distribuição de justiça e de julgamentos, em algumas Ilhas Britânicas vigoravam 
estruturas feudais, nas quais eram comuns os conflitos entre os senhores feudais e os 
poder central do rei. Por conta disso, e pela mão dos senhores feudais, em 1215 João 
Sem Terra assinou a Magna Carta da liberdade, episódio esse, que, tempos depois, veio 
a consagrar os direitos do homem, ficando célebre a frase que determinava: \u201cA ninguém 
venderemos nem negaremos ou retardaremos o direito ou a justiça\u201d. 
 Com o declínio da Igreja, a partir do Renascimento, a religião se enfraquece, e já 
no período moderno, a ideia-base é a de que a fonte principal do direito deveria ser a 
natureza humana, como se lê claramente em Hugo Grotius, Rosseau e, posteriormente, 
em Locke, de certo modo. Ali, pregava-se a limitação do poder real aristocrata, em 
respeito ao novel valor da classe burguesa, cujos ideais culminaram na Revolução 
Francesa, de 1776, de Montesquieu e Voltaire, dentre outros. Dentre os vários novos 
paradigmas ali estabelecidos, deve-se por em relevo a separação dos poderes e a 
proteção à legalidade, os quais até hoje são tidos como verdadeiros dogmas por muitos 
pensadores de nosso tempo. A Revolução Francesa, para o que nos interessa, culminou 
como uma verdadeira revolução contra os juízes, que eram subservientes ao reis e seus 
protegidos, constituindo braço-forte da opressão contra os burgueses. Ocorreu, dessa 
maneira, e por conseqüência, um forte desprezo pelo Judiciário e, ademais, pelo seu 
acesso. A fase liberal, marcadamente econômica e que era simbolizada pelo lasser-faire, 
lasser-passer, não se preocupava com a intervenção do Estado (ao revés, era avessa a 
ela!), e entendia que o mercado se auto-regularia, e os juízes deveriam, apenas e tão-
somente, seguir o que a lei expressamente