RCNEI
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\u2022 Observação e manuseio de materiais impressos, como livros,
revistas, histórias em quadrinhos etc.
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Orientações didáticas
A aprendizagem da fala se dá de forma privilegiada por meio das interações que a
criança estabelece desde que nasce. As diversas situações cotidianas nas quais os adultos
falam com a criança ou perto dela configuram uma situação rica que permite à criança
conhecer e apropriar-se do universo discursivo e dos diversos contextos nos quais a
linguagem oral é produzida. As conversas com o bebê nos momentos de banho, de
alimentação, de troca de fraldas são exemplos dessas situações. Nesses momentos, o
significado que o adulto atribui ao seu esforço de comunicação fornece elementos para
que ele possa, aos poucos, perceber a função comunicativa da fala e desenvolver sua
capacidade de falar.
É importante que o professor converse com bebês e crianças, ajudando-os a se
expressarem, apresentando-lhes diversas formas de comunicar o que desejam, sentem,
necessitam etc. Nessas interações, é importante que o adulto utilize a sua fala de forma
clara, sem infantilizações e sem imitar o jeito de a criança falar.
A ampliação da capacidade das crianças de utilizar a fala de forma cada vez mais
competente em diferentes contextos se dá na medida em que elas vivenciam experiências
diversificadas e ricas envolvendo os diversos usos possíveis da linguagem oral. Portanto,
eleger a linguagem oral como conteúdo exige o planejamento da ação pedagógica de forma
a criar situações de fala, escuta e compreensão da linguagem.
Iolanda Huzak
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Além da conversa constante, o canto, a música e a escuta de histórias também
propiciam o desenvolvimento da oralidade. A leitura pelo professor de textos escritos, em
voz alta, em situações que permitem a atenção e a escuta das crianças, seja na sala, no
parque debaixo de uma árvore, antes de dormir, numa atividade específica para tal fim
etc., fornece às crianças um repertório rico em oralidade e em sua relação com a escrita.
O ato de leitura é um ato cultural e social. Quando o professor faz uma seleção prévia
da história que irá contar para as crianças, independentemente da idade delas, dando atenção
para a inteligibilidade e riqueza do texto, para a nitidez e beleza das ilustrações, ele permite
às crianças construírem um sentimento de curiosidade pelo livro (ou revista, gibi etc.) e
pela escrita. A importância dos livros e demais portadores de textos é incorporada pelas
crianças, também, quando o professor organiza o ambiente de tal forma que haja um local
especial para livros, gibis, revistas etc. que seja aconchegante e no qual as crianças possam
manipulá-los e \u201clê-los\u201d seja em momentos organizados ou espontaneamente. Deixar as
crianças levarem um livro para casa, para ser lido junto com seus familiares, é um fato que
deve ser considerado. As crianças, desde muito pequenas, podem construir uma relação
prazerosa com a leitura. Compartilhar essas descobertas com seus familiares é um fator
positivo nas aprendizagens das crianças, dando um sentido mais amplo para a leitura.
Considerando-se que o contato com o maior número possível de situações
comunicativas e expressivas resulta no desenvolvimento das capacidades lingüísticas das
crianças, uma das tarefas da educação infantil é ampliar, integrar e ser continente da fala
das crianças em contextos comunicativos para que ela se torne competente como falante.
Isso significa que o professor deve ampliar as condições da criança de manter-se no próprio
texto falado. Para tanto, deve escutar a fala da criança, deixando-se envolver por ela,
ressignificando-a e resgatando-a sempre que necessário.
Em uma roda de conversa, por exemplo, a professora pediu que uma criança relatasse
o motivo de suas faltas, explicitada pelo seguinte diálogo:
Criança: Porque sim.
Professor: Porque sim não é resposta. (Ri.)
Criança: Eu \u201ctavo\u201d doente.
Professor: Você faltou então porque estava doente? E que doença você teve? Você
sabe?
(Criança faz que não com a cabeça.)
Professor: Não? Você não consegue falar pra gente como era sua doença?
Criança: Deu umas... era vermelho... que coçava.
Professor: Você teve catapora, que dá umas bolinhas que se coçar viram feridas, né?
Alguém já ouviu falar dessa doença?
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Cabe ao professor, atento e interessado, auxiliar na construção conjunta das falas das
crianças para torná-las mais completas e complexas. Ouvir atentamente o que a criança diz
para ter certeza de que entendeu o que ela falou, podendo checar com ela, por meio de
perguntas ou repetições, se entendeu mesmo o que ela quis dizer, ajudará a continuidade
da conversa. Para as crianças muito pequenas uma palavra, como \u201cágua\u201d, pode ser significada
pelo adulto, dependendo da situação, como: \u201cAh! Você quer água?\u201d, ou \u201cVocê derrubou
água no chão\u201d. Os professores podem funcionar como apoio ao desenvolvimento verbal
das crianças, sempre buscando trabalhar com a interlocução e a comunicação efetiva entre
os participantes da conversa.
O professor tem, também, o importante papel de \u201cevocador\u201d de lembranças. Objetos
e figuras podem ser desencadeadores das lembranças das crianças e seu uso pode ajudar a
enriquecer a narrativa delas.
Crianças de quatro a seis anos
FALAR E ESCUTAR
\u2022 Uso da linguagem oral para conversar, brincar, comunicar e
expressar desejos, necessidades, opiniões, idéias, preferências
e sentimentos e relatar suas vivências nas diversas situações
de interação presentes no cotidiano.
Iolanda Huzak
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\u2022 Elaboração de perguntas e respostas de acordo com os diversos
contextos de que participa.
\u2022 Participação em situações que envolvem a necessidade de
explicar e argumentar suas idéias e pontos de vista.
\u2022 Relato de experiências vividas e narração de fatos em seqüência
temporal e causal.
\u2022 Reconto de histórias conhecidas com aproximação às
características da história original no que se refere à descrição
de personagens, cenários e objetos, com ou sem a ajuda do
professor.
\u2022 Conhecimento e reprodução oral de jogos verbais, como trava-
línguas, parlendas, adivinhas, quadrinhas, poemas e canções.
ORIENTAÇÕES DIDÁTICAS
O trabalho com a linguagem oral deve se orientar pelos seguintes pressupostos:
\u2022 escutar a criança, dar atenção ao que ela fala, atribuir sentido,
reconhecendo que quer dizer algo;
\u2022 responder ou comentar de forma coerente aquilo que a criança
disse, para que ocorra uma interlocução real, não tomando a
fala do ponto de vista normativo, julgando-a se está certa ou
errada. Se não se entende ou não se dá importância ao que foi
dito, a resposta oferecida pode ser incoerente com aquilo que
a criança disse, podendo confundi-la. A resposta coerente
estabelece uma ponte entre a fala do adulto e a da criança;
\u2022 reconhecer o esforço da criança em compreender o que ouve
(palavras, enunciados, textos) a partir do contexto comunicativo;
\u2022 integrar a fala da criança na prática pedagógica, ressignificando-
a.
O trabalho com as crianças exige do professor uma escuta e atenção real às suas falas,
aos seus movimentos, gestos e demais ações expressivas.
A fala das crianças traduz seus modos próprios e particulares de pensar e não pode
ser confundida com um falar aleatório. Ao contrário, cabe ao professor ajudar as crianças a
explicitarem, para si e para os demais, as relações e associações contidas em suas falas,
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valorizando a intenção comunicativa
para dar continuidade aos diálogos.
A criação de um clima de
confiança, respeito e afeto em que
as crianças experimentam o prazer
e a necessidade de se comunicar
apoiadas na parceria do adulto, é
fundamental. Nessa perspectiva, o
professor deve permitir e compreender
que o freqüente burburinho que impera entre
as crianças, mais do que sinal de confusão, é sinal
de que estão se comunicando. Esse burburinho
cotidiano é revelador de que dialogam, perguntam e respondem sobre assuntos relativos