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a troca de experiências e conhecimentos entre
as crianças. As atividades de escrita e de produção de textos são muito mais interessantes,
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portanto, quando se realizam num contexto de interação. No processo de aprendizagem, o
que num dado momento uma criança consegue realizar apenas com ajuda, posteriormente
poderá ser feito com relativa autonomia.
A criação de um clima favorável para o trabalho em grupo possibilita ricos intercâmbios
comunicativos de enorme valor social e educativo. Para que a interação grupal cumpra seu
papel, é preciso que as crianças aprendam a trabalhar juntas. Para que desenvolvam essa
capacidade, é necessário um trabalho intencional e sistemático do professor para organizar
as situações de interação considerando a heterogeneidade dos conhecimentos das crianças.
Além disso, é importante que o professor escolha as crianças que possam se informar
mutuamente, favoreça os intercâmbios, pontue as dificuldades de entendimento, ajude a
percepção de detalhes do texto etc. Deixando de ser o único informante, o professor pode
organizar grupos, ou duplas de crianças que possuam hipóteses diferentes (porém próximas)
sobre a língua escrita, o que favorece intercâmbios mais fecundos. As crianças podem utilizar
a lousa ou letras móveis38 e, ao confrontar suas produções, podem comparar suas escritas,
consultarem-se, corrigirem-se, socializarem idéias e informações etc.
38 As letras móveis adquirem uma importante função em situações de interação, pois permitem fazer e desfazer as escritas
a partir da discussão entre as crianças, comparar, pensar em como deixar a escrita final, copiar nos casos em que é preciso ter
registro etc.
Iolanda Huzak
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Para favorecer as práticas de escrita, algumas condições são consideradas essenciais.
São elas:
\u2022 reconhecer a capacidade das crianças para escrever e dar
legitimidade e significação às escritas iniciais, uma vez que estas
possuem intenção comunicativa;
\u2022 propor atividades de escrita que façam sentido para as crianças,
isto é, que elas saibam para que e para quem estão escrevendo,
revestindo a escrita de seu caráter social;
\u2022 propor atividades que permitam diversidade de estratégias nas
formas de resolução encontradas pelas crianças;
\u2022 ajudar as crianças a desenvolverem a habilidade de retornar ao
texto escrito \u2014 reler o que está ou foi escrito \u2014 para reelaborá-
lo, ampliá-lo ou melhor compreendê-lo.
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Orientações gerais para o professor
Ambiente alfabetizador
Diz-se que um ambiente é alfabetizador quando promove um conjunto de situações
de usos reais de leitura e escrita nas quais as crianças têm a oportunidade de participar. Se
os adultos com quem as crianças convivem utilizam a escrita no seu cotidiano e oferecem
a elas a oportunidade de presenciar e participar de diversos atos de leitura e de escrita, elas
podem, desde cedo, pensar sobre a língua e seus usos, construindo idéias sobre como se lê
e como se escreve.
Na instituição de educação infantil, são variadas as situações de comunicação que
necessitam da mediação pela escrita. Isso acontece, por exemplo, quando se recorre a uma
instrução escrita de uma regra de jogo, quando se lê uma notícia de jornal de interesse das
crianças, quando se informa sobre o dia e o horário de uma festa em um convite de
aniversário, quando se anota uma idéia para não esquecê-la ou quando o professor envia
um bilhete para os pais e tem a preocupação de lê-lo para as crianças, permitindo que elas
se informem sobre o seu conteúdo e intenção.
Todas as tarefas que tradicionalmente o professor realizava fora da sala e na ausência
das crianças, como preparar convites para as reuniões de pais, escrever uma carta para uma
criança que está se ausentando, ler um bilhete deixado pelo professor do outro período
etc., podem ser partilhadas com as crianças ou integrarem atividades de exploração dos
diversos usos da escrita e da leitura.
A participação ativa das crianças nesses eventos de letramento configura um ambiente
alfabetizador na instituição. Isso é especialmente importante quando as crianças provêm
de comunidades pouco letradas, em que têm pouca oportunidade de presenciar atos de
leitura e escrita junto com parceiros mais experientes. Nesse caso, o professor torna-se
uma referência bastante importante. Se a educação infantil trouxer os diversos textos
utilizados nas prática sociais para dentro da instituição, estará ampliando o acesso ao mundo
letrado, cumprindo um papel importante na busca da igualdade de oportunidades.
Algumas vezes, o termo \u201cambiente alfabetizador\u201d tem sido confundido com a imagem
de uma sala com paredes cobertas de textos expostos e, às vezes, até com etiquetas
nomeando móveis e objetos, como se esta fosse uma forma eficiente de expor as crianças à
escrita. É necessário considerar que expor as crianças às práticas de leitura e escrita está
relacionado com a oferta de oportunidades de participação em situações nas quais a escrita
e a leitura se façam necessárias, isto é, nas quais tenham uma função real de expressão e
comunicação.
A experiência com textos variados e de diferentes gêneros é fundamental para a
constituição do ambiente de letramento. A seleção do material escrito, portanto, deve estar
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guiada pela necessidade de iniciar as crianças no contato com os diversos textos e de facilitar
a observação de práticas sociais de leitura e escrita nas quais suas diferentes funções e
características sejam consideradas. Nesse sentido, os textos de literatura geral e infantil,
jornais, revistas, textos publicitários etc. são os modelos que se pode oferecer às crianças
para que aprendam sobre a linguagem que se usa para escrever.
O professor, de acordo com seus projetos e objetivos, pode escolher com que gêneros
vai trabalhar de forma mais contínua e sistemática, para que as crianças os conheçam bem.
Por exemplo, conhecer o que é uma receita culinária, seu aspecto gráfico, formato em lista,
combinação de palavras e números que indicam a quantidade dos ingredientes etc., assim
como as características de uma poesia, histórias em quadrinhos, notícias de jornal etc.
Alguns textos são adequados para o trabalho com a linguagem escrita nessa faixa
etária, como, por exemplo, receitas culinárias; regras de jogos; textos impressos em
embalagens, rótulos, anúncios, slogans, cartazes, folhetos; cartas, bilhetes, postais, cartões
(de aniversário, de Natal etc.); convites; diários (pessoais, das crianças da sala etc.); histórias
em quadrinhos, textos de jornais, revistas e suplementos infantis; parlendas, canções,
poemas, quadrinhas, adivinhas e trava-línguas; contos (de fadas, de assombração etc.); mitos,
lendas, \u201ccausos\u201d populares e fábulas; relatos históricos; textos de enciclopédia etc.
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Organização do tempo
ATIVIDADES PERMANENTES
Contar histórias costuma ser uma prática diária nas instituições de educação infantil.
Nesses momentos, além de contar, é necessário ler as histórias e possibilitar seu reconto
pelas crianças. É possível também a leitura compartilhada de livros em capítulos, o que
possibilita às crianças o acesso, pela leitura do professor, a textos mais longos.
Outra atividade permanente interessante é a roda de leitores em que periodicamente
as crianças tomam emprestado um livro da instituição para ler em casa. No dia previamente
combinado, as crianças podem relatar suas impressões, comentar o que gostaram ou não, o
que pensaram, comparar com outros títulos do mesmo autor, contar uma pequena parte da
história para recomendar o livro que a entusiasmou às outras crianças.
A leitura e a escrita também podem fazer parte das atividades diversificadas, por
meio de ambientes organizados para:
\u2022 leitura \u2014 são organizados de forma atraente, num ambiente
aconchegante, livros de diversos gêneros, de diferentes autores,
revistas, histórias em quadrinhos, jornais, suplementos,
trabalhos de outras crianças etc.;