RCNEI
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que existe entre mitos, lendas, explicações provenientes do \u201csenso comum\u201d
e conhecimentos científicos.
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A CRIANÇA, A NATUREZA E A SOCIEDADE
As crianças refletem e gradativamente tomam consciência do mundo de diferentes
maneiras em cada etapa do seu desenvolvimento. As transformações que ocorrem em seu
pensamento se dão simultaneamente ao desenvolvimento da linguagem e de suas
capacidades de expressão. À medida que crescem, se deparam com fenômenos, fatos e
objetos do mundo; perguntam, reúnem informações, organizam explicações e arriscam
respostas; ocorrem mudanças fundamentais no seu modo de conceber a natureza e a cultura.
Nos primeiros anos de vida, o contato com o mundo permite à criança construir
conhecimentos práticos sobre seu entorno, relacionados à sua capacidade de perceber a
existência de objetos, seres, formas, cores, sons, odores, de movimentar-se nos espaços e
de manipular os objetos. Experimenta expressar e comunicar seus desejos e emoções,
atribuindo as primeiras significações para os elementos do mundo e realizando ações cada
vez mais coordenadas e intencionais, em constante interação com outras pessoas com quem
compartilha novos conhecimentos.
Ao lado de diversas conquistas, as crianças iniciam o reconhecimento de certas
regularidades dos fenômenos sociais e naturais e identificam contextos nos quais ocorrem.
Costumam repetir uma ação várias vezes para constatar se dela deriva sempre a mesma
conseqüência. Inúmeras vezes colocam e retiram objetos de diferentes tamanhos e formas
em baldes cheios d\u2019água, constatando intrigadas, por exemplo, que existem aqueles que
afundam e aqueles que flutuam. Observam, em outros momentos, a presença da lua em
noites de tempo bom e fazem perguntas interessantes quando a localizam no céu durante
o dia.
Movidas pelo interesse e pela curiosidade e confrontadas com as diversas respostas
oferecidas por adultos, outras crianças e/ou por fontes de informação, como livros, notícias
e reportagens de rádio e TV etc., as crianças podem conhecer o mundo por meio da atividade
física, afetiva e mental, construindo explicações subjetivas e individuais para os diferentes
fenômenos e acontecimentos.
Quanto menores forem as crianças, mais suas representações e noções sobre o mundo
estão associadas diretamente aos objetos concretos da realidade conhecida, observada,
sentida e vivenciada. O crescente domínio e uso da linguagem, assim como a capacidade
de interação, possibilitam, todavia, que seu contato com o mundo se amplie, sendo cada
vez mais mediado por representações e por significados construídos culturalmente.
 Na medida em que as experiências cotidianas são mais variadas e os seus critérios
de agrupamento não dão mais conta de explicar as relações, as associações passam a ser
revistas e reconstruídas. Nesse processo constante de reconstrução, as estruturas de
pensamento das crianças sofrem mudanças significativas que repercutem na possibilidade
de elas compreenderem de modo diferenciado tanto os objetos quanto a linguagem usada
para representá-los.
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Fotos: Iolanda Huzak
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O brincar de faz-de-conta, por sua vez, possibilita que as crianças reflitam sobre o
mundo. Ao brincar, as crianças podem reconstruir elementos do mundo que as cerca com
novos significados, tecer novas relações, desvincular-se dos significados imediatamente
perceptíveis e materiais para atribuir-lhes novas significações, imprimir-lhes suas idéias e
os conhecimentos que têm sobre si mesma, sobre as outras pessoas, sobre o mundo adulto,
sobre lugares distantes e/ou conhecidos.
Na medida em que se desenvolve e sistematiza conhecimentos relativos à cultura, a
criança constrói e reconstrói noções que favorecem mudanças no seu modo de compreender
o mundo, permitindo que ocorra um processo de confrontação entre suas hipóteses e
explicações com os conhecimentos culturalmente difundidos nas interações com os outros,
com os objetos e fenômenos e por intermédio da atividade interna e individual.
Nesse processo, as crianças vão gradativamente percebendo relações, desenvolvendo
capacidades ligadas à identificação de atributos dos objetos e seres, à percepção de processos
de transformação, como nas experiências com plantas, animais ou materiais. Valendo-se
das diferentes linguagens (oral, desenho, canto etc.), nomeiam e representam o mundo,
comunicando ao outro seus sentimentos, desejos e conhecimentos sobre o meio que
observam e vivem.
No que se refere ao pensamento, uma das características principais nesta fase é a
tendência que a criança apresenta para eleger alguns aspectos de cada situação, construindo
uma lógica própria de interpretação. As hipóteses que as crianças se colocam e a forma
como resolvem os problemas demonstram uma organização peculiar em que as associações
e as relações são estabelecidas de forma pouco objetiva, regidas por critérios subjetivos e
afetivamente determinados.
A forma peculiar de elaboração das regularidades dos objetos e fenômenos, porém,
não significa que a formação
de conceitos, pela criança,
comece forçosamente do
concreto, do particular ou
da observação direta de
objetos e fenômenos da
realidade. A formação de
conceitos pelas crianças,
ao contrário, se apóia em
concepções mais gerais
acerca dos fenômenos, seres, e
objetos e, à medida que elas crescem, dirige-se à particularização. Nesse processo, as crianças
procuram mencionar os conceitos e modelos explicativos que estão construindo em
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diferentes situações de convivência, utilizando-os em momentos que lhes parecem
convenientes e fazendo uso deles em contextos significativos, formulando-os e
reformulando-os em função das respostas que recebem às indagações e problemas que são
colocados por elas e para elas. Isso significa dizer que a aprendizagem de fatos, conceitos,
procedimentos, atitudes e valores não se dá de forma descontextualizada. O acesso das
crianças ao conhecimento elaborado pelas ciências é mediado pelo mundo social e cultural.
Assim, as questões presentes no cotidiano e os problemas relacionados à realidade,
observáveis pela experiência imediata ou conhecidos pela mediação de relatos orais, livros,
jornais, revistas, televisão, rádio, fotografias, filmes etc., são excelentes oportunidades para
a construção desse conhecimento .
É também por meio da possibilidade de formular suas próprias questões,
buscar respostas, imaginar soluções, formular explicações, expressar suas opiniões,
interpretações e concepções de mundo, confrontar seu modo de pensar com os de outras
crianças e adultos, e de relacionar seus conhecimentos e idéias a contextos mais amplos,
que a criança poderá construir conhecimentos cada vez mais elaborados. Esses
conhecimentos não são, porém, proporcionados diretamente às crianças. Resultam de um
processo de construção interna compartilhada com os outros, no qual elas pensam e refletem
sobre o que desejam conhecer.
É preciso reconhecer a multiplicidade de relações que se estabelecem e dimensioná-
las, sem reduzi-las ou simplificá-las, de forma a promover o avanço na aprendizagem das
crianças. É preciso também considerar que a complexidade dos diversos fenômenos do
mundo social e natural nem sempre pode ser captada de forma imediata. Muitas relações
só se tornam evidentes na medida em que novos fatos são conhecidos, permitindo que
novas idéias surjam. Por meio de algumas perguntas e da colocação de algumas dúvidas
pelo professor, as crianças poderão aprender a observar seu entorno de forma mais
intencional e a descrever os elementos que o caracterizam, percebendo múltiplas relações
que se estabelecem e que podem, igualmente, ser estabelecidas com outros lugares e
tempos.
Dada a grande diversidade de temas que este eixo oferece, é preciso estruturar o
trabalho de forma a escolher os assuntos mais relevantes para as crianças e o seu grupo
social. As crianças devem, desde pequenas,