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Ética para meu filho 
 
Fernando Savater 
 
 
~ 2 ~ 
 
 
~ 3 ~ 
 
Sumário 
Advertência antipedagógica ....................................................................................................................... 6 
Prólogo ........................................................................................................................................................ 7 
Capítulo 1 - O que é a ética? ....................................................................................................................... 9 
Capítulo 2 - Ordens, costumes e caprichos............................................................................................... 14 
Capítulo 3 - Faça o que quiser ................................................................................................................... 19 
Capítulo 4 - Dê a si mesmo uma vida boa ................................................................................................. 24 
Capítulo 5 - Vamos, acorde!...................................................................................................................... 29 
Capítulo 6 - Surge o Grilo Sábio ................................................................................................................ 34 
Capítulo 7 - Ponha-se no lugar do outro ................................................................................................... 41 
Capítulo 8 - Muito prazer .......................................................................................................................... 48 
Capítulo 9 - Eleições gerais ....................................................................................................................... 53 
Epílogo - Cabe a você pensar .................................................................................................................... 59 
Apêndice - Dez anos depois: diante do novo milênio ............................................................................... 61 
 
~ 4 ~ 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Sara, 
por sua amorosa impaciência com Amador e comigo. 
~ 5 ~ 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Escuta, meu filho, disse o demônio, colocando sua mão sobre minha cabeça..." 
EDGAR ALLAN POE, Silêncio 
~ 6 ~ 
 
Advertência antipedagógica 
 
Este livro não é um manual de ética para alunos do colegial. Não contém informações sobre os 
autores mais notáveis e movimentos mais importantes da teoria moral ao longo da história. Não tive 
intenção de colocar o imperativo categórico ao alcance de todos os públicos... 
Também não se trata de um receituário de respostas moralizantes aos problemas cotidianos que 
podemos encontrar no jornal e na rua, do aborto à objeção de consciência, passando pelo 
preservativo. Não creio que a ética sirva para solucionar nenhum debate, embora seu ofício seja 
colaborar para iniciar todos eles... 
Deve-se falar em ética no ensino médio? De início, parece-me nefasto apresentar uma matéria 
com esse nome como alternativa à aula de doutrinamento religioso. A pobre ética não veio ao mundo 
para dedicar-se a escorar ou a substituir catecismos... pelo menos não o deveria fa- zer, a esta altura 
do século XX. Mas não tenho nenhuma certeza de que devam ser evitadas algumas primeiras 
considerações gerais sobre o sentido da liberdade nem de que sejam suficientes, a esse respeito, 
algumas considerações deontológicas incrustadas em cada uma das demais disciplinas. A reflexão 
moral não é apenas um assunto especializado mais para quem deseje fazer cursos superiores de 
filosofia, mas é uma parte essencial de qualquer educação digna desse nome. Este livro não é mais do 
que isso, apenas um livro. Pessoal e subjetivo, como a relação que une um pai a seu filho; mas por isso 
mesmo universal como a relação entre pai e filho, a mais comum de todas. Ele foi pensado e escrito 
para ser lido pelos adolescentes: provavelmente ensinará muito pouca coisa a seus professores. Seu 
objetivo não é fabricar cidadãos bem-pensantes (muito menos malpensados), mas estimular o 
desenvolvimento de livres-pensadores. 
Madri, 26 de janeiro de 1991 
~ 7 ~ 
 
Prólogo 
 
Às vezes, Amador, tenho vontade de lhe contar muitas coisas. Mas guardo-as para mim, fique 
tranqüilo, pois já devo aborrecê-lo com muitos discursos em meu ofício de pai, para ainda acrescentar 
outros suplementares fantasiado de filósofo. Compreendo que a paciência dos filhos também tem um 
limite. Além disso, não quero que aconteça comigo o mesmo que com um amigo meu, galego, quando 
certo dia estava contemplando o mar com seu garoto de cinco anos. O pirralho lhe disse, em tom 
sonhador: "Papai, gostaria que a mamãe, você e eu saíssemos num barquinho para passear pelo mar." 
Meu sentimental amigo, com um nó na garganta bem em cima do nó da gravata, respondeu: "Claro, 
meu filho, vamos quando você quiser!" "E quando estivermos bem longe", continuou fantasiando a 
terna criatura, "vou jogar os dois na água para vocês se afogarem." Do coração partido do pai brotou 
uma exclamação de dor: "Mas, meu filho...!" "Claro, papai. Então você não sabe que vocês pais nos 
aborrecem muito?" Fim da primeira lição. 
Se até uma criança de cinco anos consegue perceber isso, imagino que um marmanjo de mais 
de quinze, como você, deva estar cansado de sabê-lo. De modo que não é minha intenção lhe dar mais 
motivos para o parricídio do que os usuais nas famílias bem ajustadas. Por outro lado, sempre achei 
aborrecidos esses pais empenhados em ser "o melhor amigo de seus filhos". Vocês, meninos, devem 
ter amigos da sua idade: amigos e amigas, claro. Com pais, professores e outros adultos é possível, na 
melhor das hipóteses, entender-se razoavelmente bem, o que já é bastante. Mas entender-se 
razoavelmente bem com um adulto inclui, às vezes, ter vontade de afogá-lo. Caso contrário, não é 
válido. Se eu tivesse quinze anos, o que já não é provável que volte a acontecer, desconfiaria de todos 
os adultos "simpáticos" demais, de todos os que desejassem parecer mais jovens do que eu e de todos 
os que me dessem razão sistematicamente. Você sabe, aqueles que sempre afirmam que "vocês 
jovens são maravilhosos", "sinto-me tão jovem quanto vocês" e bobagens do tipo. Olho neles! Alguma 
coisa devem estar querendo com tantos galanteios. Um pai ou um professor que se prezem precisam 
ser um pouco aborrecidos, ou não servirão para nada. De jovem basta você. 
De modo que me ocorreu escrever algumas coisas que em certos momentos quis lhe contar mas 
não soube, ou não ousei. Quando um pai fala de um assunto filosófico, é preciso ficar olhando para ele, 
fazendo cara de interesse embora sonhando com o momento libertador de sair correndo para ver 
televisão. Mas um livro você pode ler quando dá vontade, em horas perdidas, e sem necessidade de 
mostrar respeito: ao virar as páginas, você pode bocejar ou rir, com toda a liberdade. Uma vez que a 
maior parte do que vou lhe dizer tem justamente a ver com a liberdade, é mais adequado para