Curso de Direito do Trabalho  - Maurício Godinho Delgado - 2012 completo
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Curso de Direito do Trabalho - Maurício Godinho Delgado - 2012 completo

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que absorve do seio da sociedade
civil o conflito nuclear empregatício e suas alternativas de
gerenciamento. A medida que o conflito coletivo de trabalho
é fundamental (do ponto de vista econômico, social e
político), o Estado passa a conduzi-lo para seu interior,
esterilizando o espaço societário civil ao equacionamento
desse conflito. É evidente que todos os efeitos
antidemocráticos propiciados pelo ponto enfocado nos
parágrafos precedentes potenciam-se, substantivamente, com
essa segunda sistemática. A construção de uma cultura
obreira de consciência coletiva e de capacidade de
autotutela, associada a um senso de responsabilidade pelas
ações individuais e coletivas tomadas, é praticamente
solapada por esse mecanismo tutelar estatal. Ocorre, porém,
que não há Democracia sem que o segmento mais numeroso da
população geste uma sólida e experimentada noção de
autotutela e, concomitantemente, uma experimentada e sólida
noção de responsabilidade própria. No primeiro caso, para se
defender dos tiranos antipopulares; no segundo caso, para
não se sentir atraído pelas propostas tirânicas populistas.

O terceiro ponto convergente do modelo
autoritário de gestão social trabalhista reside nas
distintas e combinadas formas de controle e cooptação das
organizações e lideranças coletivas obreiras pelo Estado,
mediante mecanismos que isentam essas lideranças e
organizações do controle imediato de seus representantes
institucionais, os trabalhadores. A crueza e perversidade da
experiência autocrática, correspondente ao modelo de
normatização estatal-subordinada, pode ter produzido uma

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ilusão de ótica nos próprios críticos daquela experiência: a
aparente redução da temática da liberdade e autonomia
sindicais à simples ausência de controles verticais do
Estado sobre lideranças e organizações obreiras. Trata-se,
porém, de um grave equívoco analítico. Do ponto de vista
democrático, tão grave quanto a existência de formas de
controle estatal sobre organizações e lideranças coletivas
obreiras é a existência de mecanismos e instituições, na
ordem jurídica, que suprimam ou reduzam o controle dos
próprios trabalhadores sobre suas lideranças e organizações
coletivas. Instrumentos como o financiamento obreiro
imperativo (em vista de comando legal) das organizações
sindicais (mediante contribuições legais obrigatórias). Ou,
ainda, mecanismos de integração e cooptação de
representantes sindicais no aparelho de Estado (como
representação classista corporativa no Poder Judiciário).
Nos dois casos, está-se diante de instrumentos que
inviabilizam a Democracia, porque afirmadores de um padrão
autocrático de gestão social.

O caráter autoritário desses mecanismos e
instituições manter-se-á intocável, ainda que sejam eles
reproduzidos em um quadro político global mais democrático.
Neste caso, essas instituições e mecanismos irão se
constituir em elemento conspiratório e inviabilizador da
Democracia, ao impedir sua eficácia real como sistema
político e social de administração de conflitos. É que uma
das distinções básicas entre Autocracia e Democracia (ao
lado da questão da liberdade) reside na questão da
responsabilidade: enquanto na experiência autocrática a
idéia de responsabilidade é unilateral, favorecendo apenas
quem detém o poder, na experiência democrática é bilateral e
dialética, envolvendo o detentor do poder institucionalizado
e aquele a quem se reporte o poder. Por isso é que, nesse
último caso, responsabilidade equivale a responsability e
responsiveness: quem está representando ou detendo alguma
fatia de poder institucionalizado tem de responder perante
seus representados, de modo institucional e permanente.
Talvez a larga tradição autoritária dos países de linhagem
lusitana é que não tenha permitido gerar, para o uso
corrente, na língua portuguesa, a face democrática e
combinada (responsiveness) da palavra responsabilidade. De
qualquer modo, sem esse mecanismo de reporte e controle

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permanente pelo representado, é inviável construir-se
experiência democrática sólida e eficaz — logo, experiência
democrática permanente. No caso enfocado, os dois mecanismos
autoritários (financiamento sindical imperativo e
representação corporativa no aparelho de Estado) transferem
para fora da classe trabalhadora a sorte de suas
organizações e representações institucionais, impedindo a
efetiva dominância dos trabalhadores sobre suas ações
coletivas.

2. Modelo Justrabalhista Brasileiro
Tradicional: caracterização sociojurídica e reprodução
histórica

O modelo justrabalhista brasileiro, como se
sabe, foi apropriado das experiências autocráticas européias
do entre-guerras, fundando-se, em especial, no parâmetro
fascista italiano. Embora suas linhas básicas tivessem sido
lançadas logo no início da década de 1930, apenas após
1935/1937 é que veio a ganhar sua configuração jurídica
final. Descabe, aqui, retomarem-se as linhas centrais desse
processo de implantação, não tendo relevância, também,
discutir-se, neste instante, a eventual funcionalidade que o
modelo autocrático importado veio a ter no cenário
econômico, social e político das décadas de 1930 e 1940.
Importante é, contudo, repisar-se o velho truísmo de que
esse modelo francamente autoritário sobreviveu incólume à
experiência democratizante de 1945/1964, ingressando
intocado, em seus aspectos essenciais, no regime
autoritário-militar subseqüente. Assim, apenas no contexto
das discussões constitucionais de 1987 e 1988 é que se
propuseram, com certo vigor, enunciados sobre a
democratização do tradicional modelo justrabalhista
brasileiro.

Em suas linhas básicas e até pelo menos
meados da década de 60, esse modelo se caracterizava pela
reunião de cinco grandes instituições: Justiça do Trabalho;
estrutura sindical; legislação individual protetiva;
Ministério do Trabalho; antigo sistema previdenciário. Os
cinco pilares do sistema justrabalhista integravam-se não
somente a partir do mesmo contexto histórico de sua
emergência e afirmação, como, também, pelas duas similares

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inspirações a permearem todas as suas cinco instituições: de
um lado, competia-lhes elidir o conflito socioeconômico
básico de seu local originário e central de realização,
absorvendo-o no manto do Estado. De outro lado, também lhes
competia controlar e ou cooptar as organizações e lideranças
obreiras, retirando-as do âmbito de controle, fiscalização e
direção de suas bases.

A primeira das inspirações (supressão do
conflito da sociedade civil) concretizava-se,
principalmente, na modalidade de estrutura sindical adotada
pela CLT, com o sistema de unicidade sindical e o critério
de enquadramento sindical. Do mesmo modo, através do poder
normativo conferido à Justiça do Trabalho, para incidência
nos casos de conflitos coletivos. Finalmente, também através
da ação direcionadora e tutelar do Ministério do Trabalho.

A segunda inspiração (supressão do controle
democrático obreiro sobre suas organizações e lideranças)
concretizava-se mediante inúmeros mecanismos convergentes:
legislação sindical formalista e obrigatória (Título V da
CLT); atuação política e intervencionista do Ministério do
Trabalho; financiamento sindical
EDGAR FERREIRA fez um comentário
  • Como baixar o livro?
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    inês Bandeira fez um comentário
  • Por favor como faço p baixar o livro ?
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    Fernanda Larissa fez um comentário
  • Boa tarde, como faz pra baixar o livro?? Muito obrigada
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    Yasmin Souza fez um comentário
  • Muito obrigado, Deus te abençoe
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