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Karl Marx

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Karl Marx
Por Eleanor Marx - Maio de 1883
	
	
Não se passou muito tempo, talvez muito pouco, para escrever a biografia de um grande homem quase que imediatamente após sua morte, e a tarefa é duplamente difícil quando recai sobre uma pessoa que o conhecia e o amava. Para mim, neste momento, só é possível apresentar um breve resumo da vida do meu pai. Vou me limitar a uma simples demonstração de fatos, e não vou sequer tentar fazer uma exposição de suas grandes teorias e descobertas; teorias que são a base do Socialismo Moderno — descobertas que estão revolucionando toda a ciência da Economia Política. Espero, contudo, poder fazer futuramente uma análise para a Progress da grande obra do meu pai, “O Capital”, e das verdades nela contidas.
Karl Marx nasceu em Trier, em maio de 1818, de pais judeus. Seu pai — um homem de grande talento — era advogado, muito influenciado pelas ideias francesas do século XVIII sobre religião, ciência e arte; sua mãe era descendente de judeus húngaros que no século XVII se estabeleceram na Holanda. Entre seus amigos de infância mais antigos estavam Jenny — que mais tarde tornou-se sua esposa — e Edgar von Westphalen. Com o pai deles, o Barão von Westphalen — meio escocês — Marx aprendeu a gostar da “Escola Romântica” e, enquanto seu pai lia Voltaire e Racine, Westphalen lia Homero e Shakespeare, que se tornaram seus escritores preferidos.
Muito amado e, ao mesmo tempo, temido por seus colegas de escola — amado por suas travessuras e temido por sua aptidão para escrever versos sarcásticos e difamar seus inimigos — Karl Marx teve uma rotina escolar normal, e depois seguiu para as Universidades de Bonn e Berlim, onde, para agradar seu pai, cursou Direito por algum tempo, e para satisfazer a si mesmo foi estudar História e Filosofia. Em 1842, Marx estava prestes a habilitar-se como “Livre Docente” em Bonn, mas o movimento político que surgia na Alemanha desde a morte de Frederick William III em 1840 levou-o para outra carreira. Os líderes da burguesia liberal renana — Kamphausen e Hansemann — haviam fundado a Gazeta Renana em Colônia, com a colaboração de Marx, cuja crítica brilhante e ousada do parlamento provinciano causou tanta comoção que, embora tivesse apenas vinte e quatro anos de idade, lhe foi oferecido o cargo de redator-chefe do jornal. Ele aceitou, e com isso começou sua longa luta contra todas as tiranias e, particularmente, contra a tirania prussiana. Obviamente o jornal estava sob a supervisão de um censor — mas o pobre censor se via impotente. A Gazeta invariavelmente publicava todos os artigos importantes, e o censor nada podia fazer. Então um segundo censor, um “especial”, foi enviado de Berlim, mas mesmo esta dupla censura não teve êxito e, finalmente, em 1843 o governo simplesmente proibiu todo o jornal. No mesmo ano, em 1843, Marx casou-se com sua velha amiga de infância, com quem havia sido noivo por sete anos, Jenny von Westphalen, e com sua jovem esposa mudou-se para Paris. Lá, junto com Arnold Ruge, publicou os Anais Franco-Alemães, iniciando sua longa série de artigos socialistas. Sua primeira contribuição foi uma crítica sobre a “filosofia do direito” de Hegel; a segunda, um ensaio sobre a “Questão Judaica”. Quando os Anais deixaram de existir, Marx contribuiu para o periódico Vorwärtz, do qual ele era tido como editor. De fato, o cargo de editor deste jornal, que também contou com a colaboração de Heine, Everbeck, Engels etc., era um tanto irregular, e um editor realmente responsável nunca existiu. A próxima publicação de Marx foi “A Sagrada Família” escrita com Engels, uma crítica sarcástica dirigida contra Bruno Bauer e sua escola de idealistas hegelianos.
Apesar de, naquela época, dedicar a maior parte de seu tempo para o estudo de Economia Política e Revolução Francesa, Karl Marx continuou a travar uma guerra raivosa contra o governo da Prússia e, por essa razão, este governo exigiu de M. Guizot — conforme relato da agência de Alexander von Humboldt em Paris — a expulsão de Marx da França. E a essa exigência Guizot atendeu com firmeza, e Marx teve de deixar Paris, mudando-se para Bruxelas, e lá, em 1846, publicou em francês o “Discurso sobre o livre comércio”. Proudhon havia publicado “Contradições Econômicas ou Filosofia da Miséria” e escreveu a Marx, dizendo que aguardava sua “férula crítica”. Ele não teve de esperar muito tempo, pois, em 1847, Marx publicou “Miséria da Filosofia, resposta à Filosofia da Miséria de Proudhon” e a “férula” foi aplicada com uma austeridade que Proudhon provavelmente não esperava. Neste mesmo ano, Marx fundou uma Associação dos Operários Alemães em Bruxelas e, o mais importante, participou, junto com seus amigos políticos, da “Liga dos Comunistas”. Toda a organização da Liga foi modificada por ele; de uma conspiração secreta passou a ser uma organização para a propaganda dos princípios comunistas, e só era secreta porque as circunstâncias existentes na época faziam do sigilo uma necessidade. Onde houvesse uma associação de operários alemães, a Liga também existia, e este foi o primeiro movimento socialista de caráter internacional, que tinha como membros ingleses, belgas, húngaros, poloneses, escandinavos. Esta foi a primeira organização do Partido Social Democrata. Em 1847 foi realizado um Congresso da Liga em Londres, onde Marx e Engels assistiram como delegados; e eles foram convocados para escrever o célebre “Manifesto do Partido Comunista” — publicado pela primeira vez imediatamente antes da Revolução de 1848, e posteriormente traduzido em quase todas as línguas europeias.
O manifesto começa com uma análise das condições existentes da sociedade. E passa a mostrar como pouco a pouco a velha divisão de classes feudal desapareceu, e como a sociedade moderna foi dividida em apenas duas classes — a dos capitalistas, ou classe burguesa, e a dos proletários; dos expropriadores e dos expropriados; da classe burguesa em posse da riqueza e do poder sem nada produzir e da classe trabalhadora que produz riqueza, mas não possui nada. A burguesia, após usar o proletariado para lutar em suas batalhas políticas contra o feudalismo, usou o poder então adquirido para escravizar o proletariado.
Para a acusação de que o Comunismo visa “abolir a propriedade”, o Manifesto respondeu que os Comunistas visam apenas abolir o sistema burguês de propriedade, porque para nove décimos da Comunidade a propriedade já está abolida; para a acusação de que os Comunistas visam “abolir o casamento e a família”, o Manifesto respondeu perguntando que tipo de “família” e “casamento” eram possíveis para os operários, já que para eles o verdadeiro significado dessas palavras nunca existiu. Quanto a “abolir a pátria e a nacionalidade”, essas estão abolidas para o proletariado e, graças ao desenvolvimento da indústria, para a burguesia também. A burguesia tem feito grandes revoluções na história; ela revolucionou todo o sistema de produção. Sob suas mãos, foram desenvolvidos a máquina a vapor, o tear mecânico, o martelo-pilão a vapor, as ferrovias e navios a vapor de nossos dias. Mas a sua produção mais revolucionária foi a produção do proletariado, de uma classe cujas próprias condições de existência obrigam-na a destruir toda a sociedade real. O Manifesto termina com as palavras:
“Os comunistas recusam-se a esconder seus propósitos e suas opiniões. Declaram abertamente que os seus objetivos só poderão ser alcançados através da derrubada violenta de todas as condições sociais existentes. Deixem que as classes dominantes estremeçam diante de uma revolução comunista. Nela, os proletários nada têm a perder a não ser suas próprias correntes. Eles têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!”
Entretanto, Marx continuou no jornal Brusseler Zeitung seu ataque contra o governo da Prússia e, novamente, o governo prussiano exigiu sua expulsão — mas, em vão, a Revolução de Fevereiro organizou um movimento entre os operários belgas, quando Marx, sem recusa alguma, foi expulso pelo governo da Bélgica. Entretanto, o governo

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