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CAPÍTULO Farmacologia dos Anestésicos Locais - Joshua M. Schulman e Gary R. Strichartz

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(O fármaco blo-
queia os canais de sódio do miócito cardíaco durante a sístole, 
porém é muito lento para dissociar-se durante a diástole. Em 
conseqüência, pode deflagrar arritmias através da promoção de 
vias de reentrada.)
Como a bupivacaína contém um centro quiral, ela ocorre 
numa mistura racêmica de enantiômeros R e enantiômeros 
S especulares. Os enantiômeros R e S possuem afinidades 
diferentes pelo canal de sódio e, conseqüentemente, diferen-
tes efeitos cardiovasculares. O enantiômero S foi separado e 
comercializado como levobupivacaína, mais segura e menos 
cardiotóxica, assim como o seu correspondente estruturalmente 
homólogo, a ropivacaína.
Articaína
A articaína é um AL com ligação amida que foi aprovado para 
uso clínico nos Estados Unidos em 2000. Juntamente com a 
prilocaína, a articaína é singular entre os anestésicos locais, 
em virtude de seu grupo amina secundário. (Praticamente todos 
os outros AL possuem um grupo amina terciário.) A articaína 
também é estruturalmente singular, visto que contém um grupo 
éster ligado a um anel tiofeno; a presença do grupo éster sig-
nifica que a articaína pode ser parcialmente metabolizada no 
plasma pelas colinesterases, assim como no fígado. O seu rápido 
metabolismo no plasma pode minimizar a toxicidade potencial 
da articaína. A articaína é atualmente utilizada em odontologia, 
mas poderá ter aplicações adicionais com a realização de mais 
estudos sobre as suas propriedades clínicas.
EMLA
A EMLA (Mistura Eutética de Anestésico Local) é uma combi-
nação de lidocaína e prilocaína administrada topicamente como 
creme ou emplastro. A EMLA é clinicamente útil, visto que 
possui uma maior concentração de anestésico local por gota 
em contato com a pele do que as preparações tópicas con-
vencionais. Mostra-se efetiva em diversas situações, incluindo 
função venosa, canulação arterial, punção lombar e procedi-
mentos dentários, particularmente em crianças que têm pavor 
da dor das injeções.
� Conclusão e Perspectivas Futuras
Os anestésicos locais são vitais para a prática da medicina e da 
cirurgia, visto que são capazes de produzir bloqueio regional 
da sensação da dor. Suas ações clínicas envolvem o bloqueio 
dos neurônios de dor, denominados nociceptores. Os nocicep-
tores são neurônios aferentes cujos axônios são classificados 
em fibras A� ou C. Os anestésicos locais bloqueiam todos os 
tipos de fibras nervosas que percorrem os nervos periféricos, 
incluindo as fibras dos nociceptores, bloqueando os canais de 
sódio regulados por voltagem nas membranas neuronais. Os AL
atuam sobre os canais de sódio a partir do lado citoplasmático 
da membrana. 
Em geral, os anestésicos locais possuem um grupo aro-
mático ligado a uma amina ionizável através de uma liga-
ção éster ou amida. Essa estrutura é comum a quase todos 
os anestésicos locais e contribui para sua função. Tanto a 
hidrofobicidade, que é atribuível, em grande parte, ao anel 
aromático e seus substituintes, quanto a ionizabilidade (pKa) 
da amina determinam a potência dos AL e a cinética da ação 
anestésica local. As moléculas com valores de pKa de 8-10 
(bases fracas) são as mais efetivas como anestésicos locais. 
A forma neutra pode atravessar as membranas, alcançando o 
sítio de ligação dos AL no canal de sódio, enquanto a forma 
protonada está disponível para ligar-se com alta afinidade 
ao sítio-alvo.
O canal de sódio ocorre em três estados: aberto, inativado 
e em repouso. Existem também várias formas “fechadas” tran-
sitórias entre os estados de repouso e aberto. Os anestésicos 
locais ligam-se fortemente às conformações fechada, aberta e 
inativada do canal de sódio. Essa ligação firme inibe o retorno 
do canal ao estado de repouso, prolonga o período refratário e 
inibe a transmissão de potenciais de ação.
Os anestésicos locais parecem ter efeitos além da inibição 
dos canais de sódio nas fibras nervosas. Alguns desses efeitos 
auxiliares representam uma promessa terapêutica e podem levar 
potencialmente a outras indicações dos AL. Por exemplo, foi 
relatado que os AL afetam a cicatrização de feridas, a trombose, 
a lesão cerebral induzida por hipoxia/isquemia e a hiperativida-
de brônquica. Os AL também estão sendo pesquisados para uso 
144 | Capítulo Dez
no manejo da dor crônica e neuropática, como aquela obser-
vada em pacientes com neuropatia diabética, neuralgia pós-
herpética, queimaduras, câncer e acidente vascular cerebral. 
O desenvolvimento de AL de ação ultralonga (cujos efeitos 
podem estender-se por vários dias) continua sendo investigado; 
esses estudos envolvem a alteração da estrutura dos AL em 
nível molecular, o uso de variedade de sistemas de liberação do 
fármaco e a descoberta de diferentes classes de bloqueadores 
do impulso neuronal. 
O efeito potencial dos AL sobre a resposta inflamató-
ria representa uma área muito interessante de pesquisa. Foi 
constatado que os AL inibem o recrutamento e a função 
dos granulócitos polimorfonucleares (PMN). Como os PMN 
não expressam canais de sódio, o mecanismo de inibição 
provavelmente difere do mecanismo de anestesia induzi-
da pelos AL. Estudos preliminares verificaram que os AL
afetam várias etapas da inflamação, incluindo a liberação 
de citocinas, a migração de PMN no local de lesão, e o 
seu acúmulo neste local e a liberação de radicais livres. No 
momento atual, estão sendo investigadas aplicações a doen-
ças nas quais a resposta inflamatória é hiperativa — como a 
síndrome de angústia respiratória aguda (SARA), a doença 
intestinal inflamatória e o infarto do miocárdio e lesão de 
reperfusão.
� Leituras Sugeridas
Cousins MJ, Bridenbaugh PO. Neural blockade. 3rd ed. New York: 
Lippincott-Raven; 1998. (Texto detalhado mas de leitura agra-
dável. Uma boa referência para os conceitos apresentados neste 
capítulo.) 
McLure HA, Rubin AP. Review of local anaesthetic agents. Minerva 
Anestesiol 2005;71:59–74. (Discussão clara de conceitos gerais e 
agentes específicos.)
Strichartz GR, Berde CB. Local anesthetics. In: Miller RD, et al, eds. 
Miller�s anesthesia. Philadelphia: Elsevier Churchill Livingstone; 
2005. (Resumo dos mecanismos e, principalmente, das aplicações 
clínicas dos anestésicos locais.)
Ulbricht W. Sodium channel inactivation: molecular determinants and 
modulation. Physiol Rev 2005;85:1271–1301. (Excelente revisão 
técnica.)
Yanagidate F, Strichartz G. Local anesthetics. In: Stein C, ed. Anal-
gesia: handbook of experimental pharmacology, vol. 177. Ber-
lin: Springer-Verlag; 2006. (Revisão detalhada e complexa para 
os leitores que desejam conhecimentos mais profundos sobre os 
anestésicos locais.)
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