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LABIRINTOS DO NADA

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pelo efeito narcótico de períodos longos e 
vazios de pensamentos” (SCHOPENHAUER, 2003b, p. 41). Os adeptos deste estilo 
procuram vender palavras por pensamentos, dado que a falta de clareza na escrita 
significa igualmente falta de clareza no pensamento. No fundo, a obscuridade 
esconde o fato de não saberem ao certo o que querem dizer. Esta máscara da 
ininteligibilidade fôra introduzida primeiramente, segundo Schopenhauer, pelos 
pseudofilósofos das Universidades, mais especificamente por aqueles a quem ele 
chama de os três sofistas: 
 
Foi introduzida por Fichte e aperfeiçoada por Schelling, alcançando por fim em Hegel seu 
clímax: sempre com maior êxito [...] não há nada mais fácil do que escrever de maneira que 
ninguém entenda, como não há, ao contrário, nada mais difícil do que expressar 
pensamentos significativos de modo que todos devam entender. (SCHOPENHAUER, 
2003b, p. 43). 
 
Portanto, o pensador verdadeiro se expressará sempre com clareza, 
segurança e brevidade, pois “a simplicidade sempre foi uma característica não 
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apenas da verdade, mas também da genialidade [...] escrever de modo obscuro ou 
ruim significa pensar de maneira indistinta ou confusa” (SCHOPENHAUER, 2003b, 
p. 45) como o fazem as cabeças comuns ou cabeças-ocas, como designa 
Schopenhauer, que também se lembra de chamar a atenção para um defeito da 
língua alemã que propicia a escrita em períodos excessivamente longos (com várias 
intercalações de orações subordinadas) os quais são comparados a “gansos 
assados e recheados com maçãs, períodos que não podemos começar a ler sem 
antes olhar para o relógio”. (SCHOPENHAUER, 2003b, p. 123). Encontramos em 
Nietzsche semelhante crítica à língua vernácula e a tortuosidade do estilo fruto de 
um gosto rococó: "tudo que é grave, arrastado, solenemente canhestro, todos os 
gêneros prolixos e monótonos de estilo se desenvolveram em rica variedade entre 
os alemães" (NIETZSCHE, 1992a, p. 35). É saudável também a predileção pela 
expressão mais concreta ao invés da mais abstrata; visa-se assim a clareza da 
exposição: “deve-se usar palavras comuns e dizer coisas incomuns, mas eles fazem 
o inverso”, conclui Schopenhauer. (SCHOPENHAUER, 2003b, p. 53). Deve-se 
igualmente evitar a verborragia e o modo de se expressar enigmático, subjetivo; 
Schopenhauer adverte-nos que as pessoas escrevem, na maioria das vezes, um 
monólogo, sendo que toda escrita deveria ser um diálogo com o leitor. Pode-se 
afirmar que o pensamento obedece à lei da gravidade, diz ele: é muito mais fácil o 
caminho da cabeça ao papel do que o inverso. A prolixidade, o discurso rebuscado 
tem seu lugar entre os 38 estratagemas da argumentação sofística, expostos na 
Dialética erística, um escrito póstumo de Schopenhauer do período berlinense. 
O resultado do estilo pesado se vê no fastio e aborrecimento causado no 
leitor, que podem ser de dois tipos: o aborrecimento objetivo, segundo o filósofo, se 
dá a partir da falta de pensamentos claros por parte do autor; e o aborrecimento 
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subjetivo se refere a uma limitação do leitor e a falta de interesse pelo objeto 
tratado (que pode ser contornado pelo talento do escritor). 
A simplicidade é outro adjetivo a ser notado no que se refere à qualidade do 
estilo: simplex sigilum veri (o simples é o sinal do verdadeiro), diz Schopenhauer em 
Sobre o fundamento da moral (SCHOPENHAUER, 2001c, p. 75)66. Em seus 
Fragmentos para a história da filosofia o filósofo identifica simplicidade com verdade 
e acrescenta, a respeito de sua própria obra: “Quase nenhum sistema filosófico é tão 
simples e composto de tão poucos elementos como o meu, podendo, por isso, ser 
facilmente visto e apreendido com um olhar.” (SCHOPENHAUER, 2003a, p. 118). 
Boa parte deste tratado dos Parerga trata mais do estilo dos filósofos do que 
propriamente de suas doutrinas. Assim, a obra de Estobeu é considerada “uma 
exposição pedante, escolar, extremamente prolixa, inacreditavelmente insossa, 
banal e sem espírito da moral estóica, sem força e vida, sem pensamentos valiosos, 
precisos e sutis” (SCHOPENHAUER, 2003a, p. 43). O estilo de Epiteto é 
considerado fácil e fluente, mas prolixo; aos Neoplatônicos falta “forma e 
desembaraço na exposição” com a exceção de Porfírio que “escreve clara e 
coerentemente, de modo que o lemos sem má vontade”, ao contrário de Proclo que 
é considerado “um tagarela superficial, prolixo e insípido” (SCHOPENHAUER, 
2003a, p. 46-47). Plotino tem um estilo ruim, acrescenta Schopenhauer, “seus 
pensamentos não são organizados, nem previamente refletidos, mas ele escreveu a 
torto e a direito, como lhe aprazia”. (SCHOPENHAUER, 2003a, p. 48). Na Crítica da 
filosofia kantiana (o apêndice a O mundo como vontade e representação) o estilo de 
Kant é caracterizado como de uma brilhante secura, lembrando, para 
Schopenhauer, a arquitetura gótica, 
 
 
66 Schopenhauer encontra a inscrição no túmulo de um médico numa igreja na cidade de Leiden, na Alemanha. 
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pois uma peculiaridade bem individual do espírito de Kant é o gosto singular pela simetria, 
que ama a multiplicidade variegada, para ordená-la e para repetir a ordenação, em 
subordinações e assim por diante, exatamente como nas igrejas góticas. Ele chega a levar 
isto, às vezes, até o lúdico, quando, por amor dessa inclinação, vai tão longe a ponto de 
fazer violência manifesta à verdade e lidar com ela como lidavam com a natureza os 
jardineiros góticos, cuja obra são aléias simétricas, quadrados e triângulos, árvores 
piramidais e esféricas e sebes retorcidas em curvas regulares. (SCHOPENHAUER, 1980, 
p. 97) 
 
Que Schopenhauer produziu uma obra filosófica marcada por um estilo bem 
mais leve que o de seus contemporâneos, nós o sabemos. Seus escritos são o 
contra-exemplo mais evidente do style empesé criticado por ele. Entretanto, uma 
peculiar característica da irritada pena de Schopenhauer precisa ser destacada: até 
as linhas dos escritos mais sérios do filósofo convidam, a todo instante, ao riso fácil. 
O humor às vezes sarcástico, outras vezes raivoso, surpreende o leitor mais 
compenetrado. É uma arma poderosa contra os que ele chamava de inimigos da 
verdade. Este amor pela verdade será bem notado pelo mais célebre daqueles de 
quem foi um “educador”. Uma outra relação amorosa (talvez não pensada por 
Nietzsche) convém ser lembrada: o amor do filósofo pelos seus escritos. Isto nos 
põe a pensar que talvez seja esta uma das razões da grandeza de sua obra, 
acreditando, como ele mesmo nos mostra, que há dois tipos de literatura: uma real 
(permanente, das pessoas que vivem para a poesia ou para a ciência) e outra 
aparente (que passa, de pessoas que vivem da poesia ou da ciência). 
(SCHOPENHAUER, 2003b, p. 149). Deste modo podemos entender a distinção feita 
por Nietzsche em A gaia ciência, para quem 
 
os livros e manuscritos são coisas diferentes em diferentes pensadores: um recolhe no livro 
as luzes que velozmente soube furtar e carregar consigo, dos raios de um conhecimento 
que sobre ele relampejou; um outro dá apenas as sombras, as imagens em preto e cinza 
daquilo que na véspera se edificou em sua alma (NIETZSCHE, 2001, p. 117). 
 
Schopenhauer escreveu de forma extremamente apaixonada cada traço de 
tinta; a irritação do filósofo, as exclamações, afloram e gritam nas palavras 
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difamadoras de suas críticas. Sua filosofia, mesmo nos assuntos mais complexos, 
não é um mero recorte de conceitos frio e abstrato, senão que incita a todo o 
momento um diálogo com o leitor – não é de se admirar por isto o fascínio que 
exerce entre literatos de diferentes culturas como Turgueniev, Thomas Mann, 
Borges e Machado de Assis. 
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