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pesca recursos pesqueiros amazonia livro

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da ictiofauna
A diversidade de peixes da bacia amazônica acompanha a sua
dimensão. Roberts (1972) estimou que o número de espécies de
peixes para toda a bacia fosse maior que 1.300, um número superi-
or ao encontrado nas demais bacias do mundo. Böhlke et al. (1978)
consideraram que o estado atual de conhecimento da ictiofauna da
América do Sul se equiparasse ao dos Estados Unidos e do Canadá
de um século atrás e que pelo menos 40% das espécies de peixes
ainda não haviam sido descritas, o que poderia elevar este número
para além de 1.800 espécies. Menezes (1996) estimou o número de
espécies de peixes da América do Sul em torno de 3.000. Kullander
(1994), contabilizou 3.175 espécies de peixes nas áreas tropicais de
América do Sul, pertencentes a 55 famílias, sendo que a metade
ocorre na Amazônia. Recentemente, Vari & Marlabarba (1998) avali-
aram uma riqueza para a região Neotropical na ordem de 8.000
espécies. Há a expectativa da existência de um endemismo exacer-
bado nas cabeceiras dos rios (Menezes, 1996), uma região ainda
pouco amostrada e cujo desconhecimento é o principal indutor das
estimativas elevadas de número de espécies para a região. O núme-
ro de espécies da bacia Amazônica ainda é incerto, sendo comum a
descrição de novas espécies, mesmo sendo algumas delas já explo-
radas pela pesca comercial, e diversos grupos ainda carecem de uma
revisão mais atualizada.
A ictiofauna amazônica está representada principalmente pela
superordem Ostariophysi, que agrupa cerca de 85% das espécies ama-
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Biologia e diversidade dos recursos pesqueiros da Amazônia
zônicas, das quais 43% estão incluídos na ordem Characiformes, 39%
na ordem Siluriformes (bagres) e 3% na ordem Gimnotiformes (peixe
elétrico). As demais espécies pertencem a outras 14 famílias de diferen-
tes ordens (Lowe-McConnell, 1987).
As espécies exploradas pela pesca comercial e de subsistência fo-
ram contabilizadas por Barthem (1995) em mais de 200. Isto é um nú-
mero ainda bastante preliminar, tendo em vista que novas espécies de
peixes de grande porte estão sendo descritas (Britiski, 1981) e várias
outras, que regularmente fazem parte do desembarque da maioria dos
mercados amazônicos, apresentam dúvidas quanto à sua identifica-
ção. Algumas destas podem agrupar mais de uma espécie, como é o
caso das pescadas de água doce (Sciaenidae) (Soares & Casatti, 2000;
Casatti, 2001). Considerando as estimativas de riqueza de espécies da
bacia, pode-se prever que a pesca comercial explore entre 2 e 10% de
todas as espécies presentes.
Além da diversidade especifica, existe a diversidade associada a
grupos intrapopulacionais, cuja definição e delimitação é fundamen-
tal para o manejo da pesca. Estudos genéticos e/ou morfométricos
em diferentes locais da bacia amazônica permitem inferir sobre dife-
renças entre grupos de peixes dispersos ao longo da área de distribui-
ção da espécie. Ramirez (1993) analisou as características genéticas
da piracatinga (Calophysus macropterus) em duas localidades, nos
rios Solimões e Negro, e os resultados mostraram não haver diferen-
ças significativas entre as populações amostradas. Ramirez (2001) ainda
estudou a estrutura genética de surubins e caparari dos rios
Magdalena, Orinoco e Amazonas, utilizando isozimas e RAPD, e de-
monstrou diferenças significativas entre as populações de surubim
nestas três bacias. No caso do caparari, as isozimas revelaram diferen-
ças entre os exemplares do Orinoco e Amazonas, porém o autor des-
tacou pouca variabilidade genética dentro de cada bacia.
Worthmann (1979) utilizou o desenvolvimento do otólito da pes-
cada (Plagioscion squamosissimus) de diferentes lagos e rios da Ama-
zônia Central (lago Januacá, rio Jari, rio Negro e rio Branco) para dife-
renciar unidades populacionais desta espécie. Foram determinadas di-
ferenças significativas entre os locais, concluindo-se que as populações
podem ser diferenciadas pela velocidade de crescimento individual.
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A pesca e os recursos pesqueiros na Amazônia brasileira
Batista (2001) estudou amostras de dourada (Brachyplatystoma
rousseauxii) ao longo do eixo Estuário- Amazonas–Solimões, utilizando aná-
lise de seqüências nucleotídicas da região controle do DNAm. Os resulta-
dos indicaram que há maior variabilidade genética no estuário e Baixo
Amazonas do que na porção superior do rio, região de fronteira de Brasil
com Colômbia e Peru, sugerindo a possibilidade de haver populações as-
sociadas a tributários do sistema Estuário-Amazonas–Solimões.
Composição taxonômica dos recursos pesqueiros
Apesar do número de espécies na Amazônia ser bastante elevado,
são poucos as espécies ou grupos de espécies que são responsáveis por
grande parte do desembarque. Entre 6 e 12 espécies representam mais
de 80% do desembarque nos principais portos da região. O Anexo 1
apresenta a composição do desembarque nos portos de Belém, Santarém,
Manaus, Tefé, Iquitos e Pucalpa e destaca as espécies ou grupo de espé-
cies que estiveram entre os 12 mais importantes nos desembarques des-
tes portos (Barthem et al., 1995; Batista, 1998; Barthem,1999; Isaac &
Ruffino, 2000; Barthem, neste livro). A classificação do pescado não é
homogênea para estes portos, alguns chegam a comercializar os peixes
separando-os em nível de espécies, enquanto outros agrupam estas mes-
mas espécies em um mesmo gênero ou família. Devido a isso, foi neces-
sário reunir estes desembarques numa categoria mais geral para que os
desembarques pudessem ser comparados. Apenas 14 peixes foram iden-
tificados em nível de espécie em todos os portos; 9 foram identificados
em nível de gênero e 6 foram agrupados por família. No Anexo 1, estão
incluídas 3 espécies marinhas, sendo duas pescadas (Macrodon ancylodon
e Cynoscion acoupa) e um bagre (Arius parkeri), que fazem parte do
desembarque de Belém. As maiorias das categorias que são identificadas
por gênero agrupam poucas espécies que são responsáveis por quase
toda a produção desta categoria: duas espécies de Semaprochilodus
(S. insignis e S. taeniurus), duas de Hypophthalmus (H. marginatus e
H. fimbriatus), duas de Pseudoplatystoma (P. fasciatum e P. tigrinum), duas
de Brycon (B. melanopterus e B. cephalus), três de Triportheus
(T. elongatus, T. angulatus e T. albus), três de Pimelodus (P. blochii,
P. maculatus e P. altipinnis) e duas de Pellona (P. flavipinnis e P. castelnaeana).
Os desembarques dos peixes agrupados em nível de família envolvem
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Biologia e diversidade dos recursos pesqueiros da Amazônia
mais espécies, mas novamente algumas se destacam das demais, como
é o caso de: Mylosoma duriventre e M. aureus para os pacus, Schizodon 
fasciatus, S. vittatus, Leporinus fasciatus, L. friderici, L. trifasciatus, Rhytiodus
microlepis, R. argenteofuscus e Laemolyta varia para os aracus, Curimata
vittata, Potamorhina latior, P. altamazonica e P. pristigaster, para as bran-
quinhas, Anodus elongatus, Hemiodus unimaculatus, H. immaculatus,
H. argenteus e H. microlepis para as oranas e Lithodora dorsalis, Platydoras
costatus, Pterodoras granulosus, Megalodoras uranoscopus e Oxydoras
niger para os bacus.
Composição do desembarque dos principais portos da Amazônia
A composição e a quantidade do pescado capturado numa re-
gião estão relacionados ao tipo de ambiente que domina nesta área de
pesca. Esta diferença é percebida na composição do pescado
comercializado nos mercados de diferentes pontos da Amazônia, con-
siderando uma escala maior. Apesar de que, a composição do desem-
barque pode também estar relacionada com o gosto regional, como é
o caso da preferência de espécies de escamas em detrimento das espé-
cies de bagres na maioria dos mercados da Amazônia central. De forma
geral, Prochilodus nigricans e Brachyplatystoma rousseauxii são as duas
espécies de maior importância para a região como um todo, sendo
uma ou outra a espécie de maior destaque na maioria dos portos estu-
dados.