História da América 1 Cederj
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a conquista do 
Peru, registrando o trabalho que os europeus tiveram durante a empresa 
da conquista, a prisão do Imperador inca Atahualpa e a submissão dos 
incas em relação aos espanhóis. Em seu distante isolamento em Córdoba, 
com a tendência da vida de ancião que se iniciava, a obra de Garcilaso 
está impregnada por uma onda nostálgica, duplamente avivada pela 
distância no tempo e no espaço. 
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História da América I
Os descobrimentos e a conquista
O expressivo desenvolvimento agrícola se deu graças à 
abertura de novas regiões para o cultivo, possibilitado principalmente 
pelo desmatamento de fl orestas, secagem de pântanos e expansão 
territorial. A reconquista na Península Ibérica e as Cruzadas no 
Oriente Médio criaram condições para uma abertura do Mar 
Mediterrâneo (conquista de Chipre, Creta, Síria, Palestina, etc.) que 
deixou de ser \u201cum lado para os árabes\u201d. Houve um crescimento dos 
núcleos urbanos e consequente incremento nas relações comerciais 
entre campo e cidade. Entretanto, esse avanço não ocorreu sem 
contramarchas. Durante o século XIV, uma grande crise, de múltiplas 
faces, abateu-se sobre o continente europeu. A CRISE DO SÉCULO 
XIV, como é mais conhecida, foi o somatório de problemas climáticos 
que fi zeram com que houvesse quebra de safras, gerando fome e 
miséria; grandes epidemias (a peste negra, por exemplo). Além disso, 
ocorreram, por todo o continente, grandes levantes camponeses 
contra a situação de penúria em que viviam. Entre os nobres, não 
só tinham que enfrentar esses movimentos de protesto como também 
viviam às voltas com lutas contra seus pares. Nesse trágico período, 
ocorreu ainda um \u201cretrocesso\u201d nesse avanço territorial que havia 
acontecido. 
No caso específi co da Península Ibérica, no século XV, 
podemos dizer que o processo de reconquista foi fundamental para 
a constituição de um ethos ibérico como elemento ordenador de 
uma certa visão de mundo. A União de Coroas, em 19 de outubro 
de 1469, quando Isabel, herdeira da coroa de Castela, irmã de 
Henrique IV, e Fernando, fi lho de Juan II, de Aragão, casam-se e abre-
se a possibilidade de uma união dinástica no plano ibérico. Estima-se 
que a população da região, na época, era de 6.285.000. Castela, 
reino mais populoso, portanto mais poderoso no contexto ibérico, 
com mais de 68% da população, cerca de 4.3 milhões de habitantes 
em um território de 385 mil quilômetros quadrados, constituía-se no 
reino mais poderoso. Portugal, nessa altura, tinha cerca de 1 milhão 
de habitantes, enquanto o reino de Aragão, formado a partir de 
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Aula 3 \u2013 Expedições de descobrimento e as primeiras etapas da conquista
outras cidades e possessões menores, possuía algo em torno de 1 
milhão (Aragão: 257 mil, Catalunha: 303 mil, Valência: 250 mil. 
Maiorca: 55mil. Navarra: 120 mil). Neste sentido, evidencia-se o 
protagonismo de Castela e Aragão no processo de unifi cação da 
Península em torno do que seria a Espanha. 
Não obstante, a expansão marítima e comercial europeia 
e posterior descobrimento e colonização das novas regiões pelas 
monarquias europeias sobre a África, Ásia e América foi marcada, 
desde seu início, por uma grande soma de difi culdades. No caso do 
Novo Mundo, o processo de descobrimento e conquista da América 
resultou de um processo complexo que se desenvolveu por distintas 
etapas a partir da ocupação das ilhas do Caribe. Na última década 
do século XV, os castelhanos se fi xaram na ilha de Santo Domingo, 
donde exploraram o mar do Caribe e a costa norte da América do 
Sul (Trinidade, Venezuela, a boca do Orinoco). 
Durante muito tempo, prevaleceu uma interpretação 
marcadamente \u201ceconomicista\u201d sobre esses processos, inserindo-o 
de forma imediata aos processos mais amplos, como a Revolução 
Comercial e a Acumulação Primitiva do Capital. Neste sentido, 
explicava-se a expansão marítima e os descobrimentos como um 
desdobramento direto do processo de afi rmação do modo-de-
produção capitalista. Assim, os denominados motivos que levaram 
os portugueses e espanhóis a iniciarem sua expansão foi quase 
que unicamente o desejo de encontrar riquezas \u2013 tudo mais seria 
secundário. 
Mas, no caso da expansão realizada pelos dois grandes reinos 
ibéricos de Portugal e de Castela, cada vez mais, a historiografi a 
tem associado esse fenômeno ao da chamada Reconquista, isto é, 
ao longo processo de lutas das cruzadas contra os mulçumanos, 
iniciado no século XII. Do ponto de visto social e político, podemos 
mesmo dizer que a formação, tanto do reino de Portugal quanto 
o processo de hegemonia que foi alcançado por Castela sobre o 
restante da Península Ibérica, deveu praticamente tudo à Reconquista. 
Pode-se mesmo afi rmar que esse processo foi determinante para 
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História da América I
a constituição da religiosidade católica no mundo ibérico, pois 
signifi cou a constituição de uma mentalidade messiânica e de 
guardiã do catolicismo. No início de 1492, antes da viagem de 
Cristóvão Colombo, os espanhóis triunfaram sobre Granada, último 
reduto mulçumano na Península Ibérica. Neste mesmo período, os 
judeus espanhóis foram forçados a escolher entre serem batizados 
cristãos ou banidos dos domínios de Fernando e Isabel (os mouros 
enfrentaram a mesma escolha em Castela, em 1520, e em Aragão, 
em 1526). Por outro lado, as vinculações entre os reinos ibéricos e 
a Igreja Católica seriam reforçadas com as bulas Romanus Pontifex, 
do papa Nicolau V (1455), e Cum duddum affl igebant, de Calisto 
III (1456), por exemplo; o papado centralizou seu interesse nos 
problemas humanos e religiosos das populações conquistadas e, ao 
mesmo tempo, conferiu legitimidade a essas conquistas. No caso 
das Índias Ocidentais espanholas, as bulas Inter Caetera (1493) e 
Examinae devotionis (1493 e 1501), de Alexandree VI, Universalis 
Ecclesiae (1508), de Julio II, e Exponi Nobis (1523), de Adriano VI, 
todas outorgadas aos Reis Católicos, defi niam o arcabouço básico 
do trabalho de evangelização na América. 
O Papa Alexandre VI conferiu a D. Fernando de 
Aragão, Rei de Castela, o título de Rei Católico como 
reconhecimento por seu empenho em defender a Igreja 
Universal, em 1456. Já Cristianíssimo, título de distinção da 
monarquia francesa, foi pela primeira vez usado por Ludovico 
Pio, em 836. Tempos mais tarde, Carlos Calvo recebeu do Papa 
João IX o direito de usar esse título. Contudo, foi somente a partir do 
reinado de Luís que se perpetuou o uso dessa dignidade régia. O 
Motu próprio de Bento XIV, concedendo a D. João V e seus sucessores 
o título de Fidelíssimo, foi conferido em 23 de dezembro de 1748.
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Aula 3 \u2013 Expedições de descobrimento e as primeiras etapas da conquista
Neste sentido, os descobrimentos e a conquista da América 
podem sim ter explicações baseadas em fatores econômicos, porém 
estes devem ser interpretados à luz daquele tempo. Conforme defende 
Todorov, a partir do estudo do conjunto de escritos de Colombo, 
o descobridor acreditava seriamente na tese de que todas as 
riquezas que seriam adquiridas a partir daquele momento serviriam 
na verdade para \u201cfi nanciar\u201d a guerra santa contra o Islã, visando 
a reconquistar as terras sagradas de Jerusalém. Por outro lado, 
no imaginário de muitos atores que vivenciaram aquele processo 
extraordinário, o Novo Mundo foi visto como uma nova utopia, 
a utopia americana: o reino do Evangelho, a nova Jerusalém, o 
cristianismo puro. Na América Espanhola, foram as ordens regulares, 
e não o clero secular, que foi usado para a tarefa de evangelização. 
Os monges e os pertencentes às ordens militares, mais localizadas 
nas regiões da península reconquistada os