História da América 1 Cederj
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Espanha e 
do Peru após a vitória sobre os astecas e sobre os incas signifi cou 
o estabelecimento de uma fronteira à conquista espanhola, pois o 
mesmo não se deu nas fronteiras dessas regiões. Lá, tribos nômades 
e seminômades eram muito difíceis de dominar. A resistência dos 
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História da América I
Chiriguanos, índios guaranis que viviam nas encostas dos Andes, 
contra o Vice-Rei do Peru, Francisco de Toledo, foi um exemplo 
importante dos limites reais da dominação espanhola. O mesmo 
ocorreu no sul do continente, no território da Patagônia, quando 
da forte e heróica resistência dos araucanos, que aprenderam a 
usar o cavalo e modifi caram suas técnicas de luta guerreira. Outra 
frente de resistência que duraria longo período de tempo foi a dos 
índios guaranis, também na América do Sul. Na região norte do 
México, havia os chichimecas e os apaches como os grupos de 
resistência mais representativos da luta armada indígena contra a 
dominação.
Por outro lado, ocorreram também signifi cativos movimentos 
de resistência cultural contra a dominação espanhola nos Vice-Reinos 
de Nova Espanha e do Peru durante o século XVI. Relacionadas 
tanto a aspectos aparentes como \u201cocultos\u201d da resistência indígena, 
as chamadas idolatrias desempenham papel importante como 
forma de luta permanente contra a dominação cultural europeia. 
Como sugere o historiador Ronaldo Vainfas, havia basicamente 
dois tipos de idolatria: as ajustadas e as insurgentes. As primeiras, 
intrinsecamente relacionadas ao processo de sincretismo cultural, 
foram formas complexas e longevas de resistência. Como acentua 
Vaifas, realizada a conquista, os pequenos cultos e tradições 
dos mais diversos grupos espalhados pelas aldeias não apenas 
sobreviveram, mas se hipertrofi aram, tornando-se uma forma de 
resistência silenciosa e viva. Não obstante, no polo oposto dessas 
formas de resistência, havia as chamadas idolatrias insurgentes.
Outra forma de resistência indígena e de anticolonialismo 
foi aquilo que os historiadores chamam de milenarismo indígena, 
que, associados ao desenvolvimento de cenários míticos ritualísticos 
de renovação do mundo, cuja infl uência direta ou indireta da 
escatologia cristã é inegável, diversos movimentos ocorridos tanto 
no México quanto no Peru colonial evidenciam formas de resistência 
indígena. Os povos indígenas não aceitaram passivamente a 
dominação europeia. Esse fenômeno permitiu o surgimento de 
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Aula 3 \u2013 Expedições de descobrimento e as primeiras etapas da conquista
movimentos de revolta indígena como Taqui Ongoy (em quéchua, 
signifi ca \u201c a enfermidade da dança\u201d), revolta de caráter milenarista 
indígena, ocorrida em 1560, liderada por Juan Chocne, que pregava 
o ressurgimento dos huacas, pois, de maneira geral, podemos 
dizer que enquanto o culto aos grandes deuses declinou no Peru, 
persistiam os cultos aos chamados deuses locais, ou melhor, os 
huacas. 
Em geral, quando adotavam elementos de uma cultura 
estrangeira, os índios meramente os acrescentavam aos elementos de 
sua própria cultura ou usavam-nos como uma espécie de camufl agem. 
Mesmo nos casos dos senhores mais hispanizados, observa-se 
o quanto persistiam os modos tradicionais de pensamento. Se 
adotaram certos costumes europeus, inseriram-nos no arcabouço da 
cultura indígena. No caso do mestiço Felipe Guaman Poma de Ayala, 
em sua obra Nueva Crônica, há o uso da espacialidade indígena 
para representar o Novo Mundo. Da mesma forma, a ideia das cinco 
idades do mundo, assumida a partir da tradição judaico-cristã, foi 
usada para representar o calendário indígena. Desse modo, as eras 
demarcadas pelo poder dos deuses Huari Viracocha, Huari, Purun, 
Auca e Inca corresponderiam às representações da genealogia 
bíblica que começa com Adão e segue com Noé, Abraão e Davi, 
chegando fi nalmente a Jesus Cristo.
Por outro lado, é importante assinalar que durante os primeiros 
momentos do contato com o novo mundo, o europeu fez tabula rasa 
da cultura dos povos americanos. No entanto, não se furtou a afi rmar 
que, na maioria dos casos, esses povos estavam predispostos a 
receber o cristianismo devido ao fato de que algumas questões assim 
o diziam. Por exemplo, não foram poucas as ocasiões, conforme 
nos demonstrou Antonello Gerbi em seu estudo sobre a natureza 
das Índias Ocidentais, que ocorreu certo antropomorfi smo cristão à 
medida que a natureza, a fl ora e a fauna foram identifi cadas como 
elementos que ora evidenciavam a santidade da terra. O maracujá, 
por exemplo, foi visto como um fruto sagrado. Mas o que chama 
verdadeiramente nossa atenção foi o processo de construção mítica 
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História da América I
em torno da fi gura do deus Quetzalcóalt, visto como a fi gura de São 
Tomé. Segundo estudaram Sergio Buarque de Holanda, no clássico A 
visão do Paraíso, e J. Lafaye, essa mitologia foi fundamental porque 
revela todo o caráter sincrético que permeou as relações sociais e 
culturais durante esse período. Todavia, todo esse processo se insere 
no processo de colonização do imaginário, conforme sintetizou 
Serge Gruzinski.
Os traços \u2013 até, de certo modo, invisíveis \u2013 da conquista 
espanhola são as formas de resistência indígena que, tanto de 
maneira direta, através da luta armada, como de forma sutil, através 
da mentira, do silêncio, da teimosia, da dissimulação, do alcoolismo, 
de um sofi sticado jogo de símbolos. O sincretismo religioso era outra 
forma de resistência. Os cronistas perceberam isso. Fray Bartolomé 
de Las Casas, Fray Bernadino de Sahagun e José de Acosta, dentre 
outros, perceberam essa questão. Os índios tinham a vantagem de, 
ao aprenderem a falar a língua do conquistador, até mesmo o latim, 
manterem também o uso das línguas nativas. Isso, não poucas vezes, 
confundia o invasor e era uma estratégia importante de resistência 
cultural. O Fray Bernardino de Sahagun, em sua Historia General de 
las Cosas de Nueva España (1565), percebeu de maneira bastante 
clara esse processo de resistência: 
Desta maneira, eles cantam quando querem, e se embebedam 
quando querem, e fazem suas festas quando querem, e 
cantam os cantares antigos que usavam em tempos de sua 
idolatria, não todos mais muitos, e ninguém entende o que 
dizem porque seus cantares são muito fechados. E se alguns 
cantares foram feitos após sua conversão e tratam das coisas 
de Deus e de seus santos, estão envolvidos em muitos erros 
e heresias, e ainda suas danças contém muitas superstições 
antigas e ritos idolátricos, especialmente onde não residem 
quem os entenda (SAHAGUN, 1988).
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Aula 3 \u2013 Expedições de descobrimento e as primeiras etapas da conquista
Atende ao Objetivo I
Leia atentamente os trechos seguintes:
Deus o escolheu para a suprema dignidade do mundo cristão e da República. O 
segundo gládio e o vigário de Deus em primeiro lugar. Assim, para esperar que o 
que está por adquirir e reunir ao conjunto da monarquia universal de nosso César ... 
para que conquiste o mundo e coloque tudo e todos infi delidade sobre a verdadeira 
fé em Jesus Cristo em obediência e serviço do Christianíssinmo. Monarca (OVIEDO 
Y VALDEZ, 1852).
Os Reis de Castilla y Leon são verdadeiros príncipes soberanos e senhores universais 
sobre muitos reis e imperadores, e a quem pertencem de direito todo aquele grande 
Império e a jurisdição universal sobre todos as Índias, por sua autoridade, doação e 
concessão da Santa Sé Apostólica, e assim pela autoridade divina são quase legados 
e guardas da Sé Apostólica, os ministros e os instrumentos de Deus... (LAS CASAS, 
1995).
Quis Deus que as Índias fossem descobertas em Vosso tempo e por Vossos Vassalos para que