História da América 1 Cederj
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a missão jesuíta da 
fronteira do Paraguai, no século XVIII. 
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História da América I
Las Casas e a denúncia da aniquilação 
dos índios
 
Muitos autores e historiadores que se dedicam a trabalhos de 
síntese sobre a América colonial dedicam ao menos um capítulo de 
suas obras para tratar de um religioso em particular: o dominicano 
Bartolomé de Las Casas. O historiador David Brading chamou-o de 
\u201cprofeta desarmado\u201d; T. Todorov afi rmou que Las Casas foi aquele 
que \u201camou os índios\u201d; já Serge Gruzinski, outro especialista na 
história da Nova Espanha, chamou-lhe \u201co defensor dos índios\u201d. 
Estamos, de fato, diante de um personagem histórico complexo e 
de muitas faces. Nesta parte da aula, meu propósito é explorar um 
pouco uma das faces do dominicano Las Casas, buscando entender 
como ele veio a ser considerado como o defensor, ou protetor dos 
índios americanos. 
Las Casas chegou ao Caribe, em 1502, e participou da 
conquista de Cuba na companhia de seu pai; pelos serviços 
prestados ao rei na conquista, o jovem Las Casas recebeu um 
grupo de índios da região, que foi posto a seu serviço na colônia 
já instalada de Hispaniola (atual República Dominicana). Assim, ele 
esteve integrado ao domínio colonial e à exploração do trabalho dos 
índios desde sua chegada às Américas, quando ainda não havia 
abraçado a vida religiosa. Em 1513, foi ordenado como padre 
secular, provavelmente o primeiro a ter sido ordenado no Novo 
Mundo, e, como padre, seguiu possuindo índios a seu dispor, de 
modo que as atividades de religioso se confundiam com as atividades 
de fazendeiro e colonizador. 
Segundo o próprio Las Casas, sua visão sobre os índios 
começou a mudar quando a primeira missão dominicana 
chegou a Hispaniola, iniciando amplos debates sobre o tratamento 
dispensado aos índios pelos colonizadores espanhóis. Um sermão 
proferido pelo dominicano Antonio de Montesinos, em 1512, teria 
impressionado Las Casas a ponto de modifi car suas práticas e seu 
pensamento sobre os índios.
Missão 
dominicana
A ordem de Santo 
Domingo era uma 
das mais prestigiadas 
ordens mendicantes da 
Europa, especialmente 
conhecida pela 
missão de percorrer 
o mundo, pregando 
e fortalecendo a fé 
católica contra os 
hereges. Domingos, em 
latim, signifi ca, entre 
outras coisas, \u201cguardião 
do Senhor\u201d. 
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Aula 5 \u2013 Missionários e índios na América espanhola colonial
Montesinos tomou as palavras de São João Batista para 
afi rmar que \u201cera a voz que clama no deserto\u201d. Com esse chamado, 
o frei denunciou os colonos por seus abusos e atrocidades contra 
os nativos, colocando em dúvida o suposto direito dos espanhóis 
de se servirem do trabalho dos índios. Concluindo o sermão 
apaixonadamente, Montesinos dirigia-se aos colonos indagando: 
\u201cE não são os índios homens? não possuem almas racionais? não 
sois vós [colonos] obrigados a amá-los como a vós mesmos?
Algum tempo depois, em 1514, as palavras de Montesinos 
parecem ter despertado a consciência de Las Casas, que liberou os 
índios que tinha a seu serviço e começou a empreender planos e 
esforços para reformar o sistema de trabalho nativo nas Américas. 
A partir de 1515, e por um período acerca de seis anos, Las Casas 
retornou à Espanha para fazer campanha na corte a favor dos índios 
americanos. Seus planos previam a interrupção das conquistas armadas, 
que deviam dar lugar à pacifi cação pela conversão dos índios; o fi m das 
encomiendas, a ser substituída pelo trabalho livre e pago dos índios; 
a clara separação entre as comunidades espanholas e os povoados de 
índios, com vistas a impedir a aniquilação destes últimos. Muito tempo 
se passaria até que os apelos de Las Casas, assim como os de outros 
religiosos com ideais semelhantes, chegassem a ser considerados pelos 
monarcas da Espanha.
Em 1524, Las Casas ingressou de fato na ordem dominicana e 
daí em diante passou a dedicar-se inteiramente à defesa dos direitos 
dos naturais das Américas. Bem mais tarde, já na década de 1540, 
e em meio a uma crescente pressão de grande parte dos dominicanos 
em favor de uma reforma do sistema colonial, ele se destacou nos 
debates travados com o rei, Carlos V, e seu ministério. Para usar as 
palavras do historiador David Brading, Las Casas fez circular escritos 
de tão grande impacto sobre o que se passava nas Américas, que 
o monarca, horrorizado, comprometeu-se a iniciar a reforma. Em 
1542, foram aprovadas na Espanha as primeiras leis de reforma 
geral do governo das Índias (a América era também conhecida 
por esse nome). De acordo com o proposto nas Leis Novas, de 
1542, não seriam concedidas novas encomiendas aos espanhóis 
Encomienda
A encomienda de índios 
era a prática hispânica 
de distribuir índios 
para trabalharem nas 
terras do conquistador, 
que, em troca do 
serviço, devia oferecer 
ensinamentos cristãos 
aos índios. 
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História da América I
e as já existentes não deviam ser transmitidas para os herdeiros 
dos encomenderos. Foi o primeiro movimento de reconhecimento 
tácito, por parte da coroa, de que os índios não sobreviveriam sem 
algum tipo de compromisso entre Igreja, Estado e colonizadores na 
regulamentação da exploração da força de trabalho nativa. 
 Entre esses escritos compostos pelo dominicano, o mais 
célebre foi o Brevíssimo relato da destruição das Índias, concluído 
em 1542. Neste relato, Las Casas defi nia os índios como o povo 
mais suave, humilde e bom do mundo. Os conquistadores e 
colonos espanhóis, em contrapartida, eram descritos como tiranos, 
assassinos, ladrões e torturadores. A contundente narrativa de Las 
Casas nesse livro pode ser observada no trecho a seguir, no qual 
ele descreve a chegada dos espanhóis à Ilha de Cuba:
Certa vez, os índios vinham ao nosso encontro para nos receber, 
à distância de dez léguas de uma grande vila, com víveres e 
viandas delicadas de toda espécie e outras demonstrações de 
carinho. E tendo chegado ao lugar deram-nos grande quantidade 
de peixe, de pão e de outras viandas, assim como tudo quanto 
puderam dar. Mas eis incontinenti que o Diabo se apodera dos 
espanhóis e que passam a fi o de espada, na minha presença e 
sem causa alguma, mais de três mil pessoas, homens, mulheres 
e crianças, que estavam sentadas diante de nós. Eu vi ali tão 
grandes crueldades que nunca nenhum homem vivo poderá ter 
visto semelhantes (LAS CASAS, 1542).
 A obra, publicada pela primeira vez na Espanha, em 
1552, trazia detalhes das crueldades dos espanhóis no Novo 
Mundo, fornecendo um repertório de histórias de horror de que os 
inimigos europeus da Espanha tirariam proveito, como nos lembra 
o historiador J. H. Elliott. Rapidamente, apareceram traduções para 
o francês, o inglês e o holandês, de modo que os protestantes do 
Norte da Europa, em crescente animosidade contra os espanhóis, 
passavam a ter acesso a esta leitura, ao mesmo tempo em que as 
gravuras do protestante Theodore de Bry foram incorporadas a estas 
edições, no fi nal do século XVI. Reforçavam-se as palavras escritas 
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Aula 5 \u2013 Missionários e índios na América espanhola colonial
com imagens das atrocidades espanholas contra os índios, que 
imprimiram nas mentes de gerações de europeus um estereótipo do 
violento domínio espanhol nas Américas.
 A Editora gaúcha L&PM publicou uma tradução desse 
livro de Las Casas em sua Coleção Pocket, vendida a preços 
baixos em bancas de jornal. Se você se interessar pela leitura 
desse livro, o título em português é O Paraíso destruído: brevíssima 
relação da destruição das Índias, publicado no Brasil em 2001. 
Trata-se, afi nal, de uma história marcada por múltiplas violências, 
físicas e simbólicas.