História da América 1 Cederj
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Resposta Comentada
Uma resposta consistente para esta questão deve ser iniciada pela contextualização do 
autor e da obra de que foi extraída a citação. Trata-se de uma visão sobre as idolatrias 
apresentada por um historiador contemporâneo e especialista na temática. Como tal, o autor 
buscou compreender as razões de índios terem aparentemente aderido aos rituais públicos do 
cristianismo, como as missas, os batismos ou os enterramentos cristãos. Para Gruzinski, os índios 
vinham de uma derrota diante da conquista, estavam esgotados pela doença e sem meios 
para recusar o cristianismo. Ainda assim, as idolatrias constantemente combatidas pela igreja 
forneciam aos índios os meios de resistir cotidianamente frente a essas invasões militar, civil e 
religiosa, geradas pela conquista espanhola na América. Ao se lembrarem de e ao praticarem 
seus antigos ritos, sobretudo nos espaços mais distantes dos olhos do colonizador, os índios 
resistiam culturalmente diante da aniquilação provocada pela conquista e pela colonização. 
O combate às idolatrias nos Andes: um 
caso exemplar
Nos primeiros anos do domínio espanhol, os bispos residentes na 
América eram revestidos de poderes inquisitoriais. Concentravam em 
suas mãos, dessa forma, um importante instrumento de controle sobre os 
colonos e sobre os índios nas questões relacionadas à fé e à moralidade 
cristã. O processo de evangelização então recaía sobre o mundo dos 
índios que povoavam as Américas, mas a Inquisição nessas terras 
dirigia-se também aos europeus, aos mestiços e aos africanos e seus 
descendentes. Em príncípio, além das idolatrias, a Inquisição perseguia 
os protestantes, os acusados de praticar o judaísmo em segredo, os 
bígamos, o clero considerado devasso, entre outros comportamentos 
e práticas, vistos como desviantes pela doutrina católica. 
Na segunda metade do século XVI, visando ampliar os 
instrumentos de luta contra a heresia, os espanhóis instalaram 
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Aula 6 \u2013 Resistência indígena e \u201cidolatrias\u201d na América espanhola
Tribunais do Santo Ofício da Inquisição em cidades das 
Américas. O ambiente americano em que se instalaram os tribunais 
inquisitorais era maciçamente indígena e seria natural supor que essa 
instituição se ocupasse principalmente dos índios e das chamadas 
idolatrias. Mas não foi o que ocorreu. Logo depois da instalação 
dos tribunais, o rei Felipe II adotou, em 1571, a política de livrar os 
índios da autoridade inquisitorial. Por serem cristãos desde época 
muito recente, julgados em parte irresponsáveis por seus atos e 
crenças, além de demasiadamente pobres para alimentarem os 
caixas dessa instituição \u2013 como afi rmou S. Gruzinski \u2013, os índios 
foram afastados da autoridade inquisitorial. Assim, nos assuntos 
de doutrina e fé, os índios respondiam aos bispos da América e 
não, aos inquisidores.
Em casos específi cos, os bispos enviavam visitadores para as 
aldeias indígenas, acusadas de práticas idolátricas, com a missão 
de investigar e extirpar tais práticas. Vamos relatar aqui um exemplo 
deste tipo de visitação ocorrido na região de Huarochirí, na primeira 
década do século XVII. Essa aldeia fi cava nas terras altas (ou sierra) 
próximas da cidade de Lima, no atual Peru, onde os missionários da 
Companhia de Jesus haviam se instalado desde 1569. No Peru, os 
jesuítas não mediram esforços no combate às idolatrias e a campanha 
de Huarochirí foi uma das mais intensas de que temos notícias.
A denúncia de idolatria na região ocorreu em agosto de 1608, 
quando o padre Francisco de Ávila preparava-se para celebrar a festa 
de Nossa Senhora da Assunção naquela região. Os índios de oito 
paróquias tomavam parte dos festejos quando um deles, Cristóbal de 
Choquecasa, membro da antiga elite nativa, revelou ao padre que os 
índios tinham escolhido aquela data para celebrar, sob a capa de Nossa 
Senhora da Assunção, os ritos em honra aos huacas da região. 
Tribunais do 
Santo Ofício da 
Inquisição
A Inquisição moderna 
foi introduzida na 
Espanha com o 
objetivo de expulsar 
os judeus convertidos 
ao cristianismo que 
perseverassem na 
prática do judaísmo. 
Na Espanha, desde 
1480, vários Tribunais 
do Santo Ofício foram 
criados para julgar 
os casos de homens e 
mulheres acusados de 
supostos desvios da 
fé católica. No Novo 
Mundo, os tribunais 
inquisitoriais foram 
instalados no México 
(1571), Lima (1570) 
e Cartagena de Índias 
(1610).
Huacas
Os índios da Cordilheira dos Andes acreditavam que os grupos humanos tinham como ancestrais 
e protetores os mortos mumificados e os elementos da natureza, como montanhas, fontes, rios, 
pedras, vegetação, etc. Esses lugares eram designados pelo termo huacas e constituíam objetos de 
culto entre os índios da zona andina. No caso específi co de Huarochirí, os huacas cultuados eram 
duas montanhas. 
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História da América I
O caso chegou à Lima, que enviou para a região um vistador, 
o Doutor Baltasar de Padilla, encarregado de conduzir o inquérito 
sobre as idolatrias. Com o apoio dos jesuítas, estabelecidos naquela 
localidade há vários anos, foi lançada a campanha de extirpação 
das idolatrias de Huarochirí, que culminou, em 1609, com a queima 
pública de múmias ancestrais e de objetos de culto, lançados à 
fogueira na cidade de Lima. 
Nos anos seguintes, os métodos aplicados em Huarochirí foram 
levados a outras áreas do Peru, que assistiu a uma violenta onda de 
extirpação de idolatrias a partir de 1611. Em toda parte das sierras 
andinas, surgiam acusações de que os índios cultuavam huacas 
durante os ritos e festas cristãs, ao que os jesuítas respondiam com 
punições notavelmente rudes e doutrinamento intenso. A inquisição 
mantinha-se afastada, mas os métodos do Santo Ofício foram reto-
mados pelos jesuítas e aplicados aos índios: açoites, corte dos cabelos 
e uso de gorros de papel ou de roupas listradas, identifi cando os 
acusados de práticas idolátricas. Não eram queimadas pessoas 
vivas, como na Inquisição, mas as múmias dos ancestrais e outros 
objetos de culto eram publicamente queimados. Da mesma forma, 
lembrando os métodos do Santo Ofício, os índios eram encorajados a 
denunciar pessoas de suas próprias comunidades, bem como a fazer 
confi ssões públicas de seus supostos crimes contra a fé católica.
Como afi rma Ronaldo Vainfas, resistir abertamente diante de 
campanhas intensas como esta aqui exemplifi cada era bastante difícil. 
Com o tempo, os nativos perceberam que a repressão contra seus 
antigos ritos era brutal e que a possibilidade de vitória dos espanhóis 
era certa. Desta forma, a resistência cotidiana e silenciosa, ao lado 
das adaptações entre as antigas crenças e a nova religião imposta 
pelos cristãos, parecia ser o caminho mais seguro para que os índios 
refi zessem suas comunidades e vidas na vigência do colonialismo. 
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Aula 6 \u2013 Resistência indígena e \u201cidolatrias\u201d na América espanhola
CONCLUSÃO
 Tratar de conceitos é uma tarefa tão delicada quanto impor-
tante no estudo da História. Ao escolher o conceito de resistência 
como fi o condutor para esta aula, pensamos particularmente em 
ressaltar o seguinte aspecto: os índios foram ativos e moldaram suas 
formas de vida comunitária após a conquista com a inventividade 
possível diante da violência do colonialismo. Assim, agiram poli-
ticamente ao expressar o descontentamento com o cristianismo 
recém-introduzido, como fi zeram em Huarochirí ou no Bispado de 
Oaxaca, para nos ater aos exemplos dados ao longo da aula.
Mas era também política a ação mais silenciosa e discreta 
daqueles que praticavam suas idolatrias mais longe dos olhos e