História da América 1 Cederj
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quanto 
os verdadeiros habitantes urbanos. Na realidade, a cidade murada 
e principal tinha poucos habitantes, mas as pessoas que viviam ao 
redor dela eram também seus cidadãos.
 Ainda segundo a tradição ibérica do início da época 
moderna, o progresso na escala social conduzia os homens à cidade. 
Por essa razão, mesmo que poucas pessoas vivessem efetivamente 
dentro dos muros das cidades, quase todos que ali viviam tinham 
alguma posição social. Igreja, comércio, governo, artesanato e 
nobreza eram instituições e grupos sociais de base urbana. Isso quer 
dizer que um nobre bastante rico, com fontes de renda e privilégios 
ligados a suas propriedades do campo, possuía necessariamente 
uma residência principal na cidade. Mais do que isso, era na cidade 
que os homens vistos como mais importantes na escala social constituíam 
seus vínculos sociais mais importantes. Dispor de poderes e estar na 
cidade eram, portanto, condições típicas das sociedades ibéricas 
da época moderna.
 Ora, logo ao chegarem aos territórios americanos recém-
conquistados, os ibéricos de origem espanhola já contavam com 
instruções régias, recomendando o pronto estabelecimento de novas 
cidades. Nas instruções dadas ao conquistador Pedrarias Dávila, 
que se dirigiu à região de Tierra Firme (atual Panamá), em 1513, 
havia um artigo inteiramente dedicado às construções urbanas. 
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História da América I
O rei recomendava explicitamente que a fundação das novas cidades 
seguisse um determinado desenho, no qual a praça, a igreja e os 
solares das pessoas mais importantes deviam ocupar o centro. As 
ruas deveriam ser ordenadas a partir desse centro, que abrigava 
os prédios e os homens mais poderosos da cidade. 
 Nesta aula, vamos discutir de maneira mais detalhada as 
formas de governo articuladas pelos espanhóis em suas conquistas 
americanas. Quais eram as principais formas de governo das 
colônias? Como se distribuíam pelo vasto território americano? 
Havia confl itos de interesse entre os poderes de Madri e aqueles 
estabelecidos nas colônias? Como as cidades se transformavam em 
símbolos do poder dos espanhóis no Novo Mundo? 
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Aula 7 \u2013 Poder e cidade na América espanhola colonial
Buenos Aires
1661
Concepción
Santiago
C
H
ILE 1565
La Plata
(Chuquisaca)
La Paz
CHARCAS
1559
CuzcoLima
LIMA
1542
QUITO
1563
Quito
Santa Fé de Bogotá
SANTA FÉ
DE 
BOGOTÁ
1549
PANAMÁ
1538
Panamá
CaracasCa
rtag
ena
VICE-REINO
do PERU
1000 milhas
2000 km0
0
Limites de Vice-reino
Limites de Audiência
MANILA 1548
Santo Domingo
SANTO DOMINGO
1511
Havana
Mérida
GUATEMALA
1542
Guatemala
Vera Cruz
MéxicoGuadalajara
GUADALAJARA
1548
MÉXICO
1527
VICE-REINO
da NOVA ESPANHA
Figura 7.1: Vice-reinos e audiências da América espanhola, séculos XVI e XVII.
Fonte: Leslie Bethell (org.). História da América Latina: A América Latina colonial I. São Paulo: Editora da USP, Brasília: Fundação Alexandre 
Gusmão, 1997, p. 284.
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História da América I
Estruturas de governo
A palavra conquista, no contexto ibérico do século XVI, faz-
nos pensar em empreendimentos marcados pelo envolvimento do 
rei. Afi nal, quando Cristóvão Colombo partiu em expedição para 
a conquista de novos súditos e mercados, em 1492, os monarcas 
de Castela e Aragão \u2013 Isabel e Fernando \u2013 empenharam recursos 
de seus reinos na jornada. Mas devemos lembrar que as demais 
expedições de conquista foram empreendimentos largamente 
privados, fi nanciados por recursos particulares e sem garantias 
contra os extremos riscos das missões em mar aberto.
Os conquistadores das Américas encontravam-se, portanto, 
na posição de arcar com os riscos da empresa colonial, desde que 
contassem com certas garantias da coroa pelos serviços prestados na 
conquista de novos territórios. Tratava-se de uma relação praticada 
desde a época medieval, relacionando reis e seus súditos através 
de serviços e mercês reais. 
Nas atividades da conquista e na posterior colonização dos 
territórios da América espanhola, rei e súditos (ou conquistadores, 
nesse caso) estavam ligados por laços estreitos, ainda que 
o empreendimento da conquista, em si, tivesse um caráter 
bastante privado em termos do fi nanciamento das expedições. 
Os conquistadores mais destacados assumiam as funções de 
governadores, ocupando-se das atividades de administração e 
defesa das áreas que eram progressivamente anexadas. Tornavam-
se, assim, os principais representantes da coroa na América, durante 
o início do século XVI.
A partir da década de 1530, entretanto, observa-se um maior 
investimento da coroa na criação de uma estrutura administrativa 
mais burocratizada para seu império americano. Os sinais dessa 
mudança são visíveis ainda na década anterior, quando foi criado 
em Madri, no ano de 1523, o Conselho das Índias. Como os 
monarcas estavam muito distantes de suas possessões, o governo real 
na América era exercido através de consultas enviadas a ele pelo 
Serviços e 
mercês reais
O serviço era uma 
atividade prestada 
pelos súditos que 
demonstrasse lealdade 
à coroa. Conquistar 
novas terras, lutar em 
nome do rei, expandir 
os domínios da fé 
cristã, entre outros, 
eram serviços que os 
súditos podiam prestar. 
Em reconhecimento, os 
reis reservavam certas 
mercês para aqueles 
que se arriscavam 
nessas ações. As mercês 
eram espécies de 
recompensas, doadas 
na forma de terras, de 
servos, ou mesmo de 
títulos que conferiam 
distinção e privilégio. 
Assim, após demonstrar 
bravura em batalhas 
na defesa da coroa, 
por exemplo, um súdito 
poderia receber a 
distinção de tornar-se 
Cavaleiro da Ordem de 
Santiago de Espada, um 
dos títulos militares mais 
cobiçados na Espanha, 
na época moderna.
Coroa
O termo coroa é usado 
aqui para designar o 
conjunto de instituições, 
leis e governantes que 
formavam a monarquia 
espanhola na época 
moderna.
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Aula 7 \u2013 Poder e cidade na América espanhola colonial
conselho. Os conselheiros eram letrados e nobres sediados em Madri, 
que recebiam demandas e petições vindas dos territórios americanos, 
discutiam esses materiais, consultavam o rei e recomendavam as 
ações e legislações a serem aplicadas nas colônias. 
Mas a enorme distância que separava Madri da América 
estimulava e exigia, evidentemente, a criação de mecanismos de 
governo sediados nas áreas coloniais. A unidade administrativa 
mais importante da América espanhola, após o ciclo inicial dos 
governadores, foi o vice-reino. Em 1535, foi criado o vice-reino 
de Nova Espanha, sediado na Cidade do México. Em 1543, o 
vice-reino do Peru foi criado na cidade de Lima, atestando a recente 
conquista das regiões antes dominadas pelos incas. Apenas bem 
mais tarde, no século XVIII, foram criados os vice-reinos de Nova 
Granada (em 1717) e o do Rio da Prata, em 1776, tendo Buenos 
Aires como capital. Os vice-reis eram diretamente nomeados 
pelos monarcas espanhóis para representarem a \u201cpessoa real\u201d nas 
terras americanas e o cargo, altamente prestigiado, era cobiçado 
por muitas famílias nobres. Mas a coroa, sempre desconfi ada das 
ambições da nobreza, tendia a reservar os postos de vice-rei aos 
nobres de categoria média ou aos membros mais jovens das grandes 
famílias, certamente na expectativa de melhor conter as ambições 
por poder da alta nobreza. 
Por serem vistos como representantes do rei na América, os 
vice-reis mantinham uma corte no palácio vice-reinal, durante 
seu período de governo, guardando assim os ares da realeza 
à moda européia. Seus períodos de governo não costumavam 
exceder o prazo de seis anos, quando eram sucedidos