História da América 1 Cederj
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solares e os terrenos restantes eram divididos pelos colonos em lotes 
proporcionais às suas posses e ao seu prestígio social.
É preciso notar, como faz Romero, que a fundação das cidades 
coloniais era um ato político, destinado a reafi rmar a ocupação de 
territórios e a subjugação das sociedaes nativas ali existentes. Os nomes 
das cidades criadas ou tomadas aos índios pelos espanhóis ajuda-nos 
a compreender melhor essa ideia da fundação como \u201cato político\u201d. 
Algumas cidades do Novo Mundo receberam nomes de cidades já 
existentes na Espanha, como Valladolid, Medellín, La Rioja e Cartajena, 
para citar alguns exemplos. Regiões inteiras também receberam nomes 
sugestivos, como foi o caso dos vice-reinos de Nova Espanha e Nova 
Granada. As denominações de cidades e regiões americanas remetiam 
à Espanha não apenas para reforçar a idéia de domínio europeu sobre 
aqueles territórios. Sugeriam, também, que se desejava criar ali um 
prolongamento dos reinos hispânicos, conservando formas de vida 
social e cultural próprias dos colonizadores. 
O ato político de dominação era visível também na atribuição 
de novos nomes a vilas indígenas preexistentes. Santiago, San 
Marcos, San Juan, San Felipe, entre outros, foram nomes dados pelos 
espanhóis a cidades índias, com o propósito evidente de marcar o 
cristianismo como valor maior da conquista daquelas terras.
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História da América I
Em outras ocasiões, a cidade espanhola foi erguida sobre os 
escombros de grandes cidades indígenas. Exemplo mais característico 
desse processo é a antiga capital do mundo mexica, Tenochtitlán, que 
foi destruída para dar lugar a uma nova cidade, em estilo europeu. Vale 
a pena seguir de perto esse processo, que nos ajuda a compreender 
melhor como os espanhóis pretenderam inscrever, nas cidades, os 
símbolos de seu domínio sobre o Novo Mundo. O historiador francês 
Serge Gruzinski, especialista no tema, será nossa referência principal 
para analisar as transformações pelas quais essa cidade passou.
O conquistador espanhol Hernan Cortés liderou a invasão do 
México, derrotando a cidade de Tenochtitlán, em agosto de 1521. 
A região permaneceu vazia por cerca de dois meses, até que os 
índios, pouco a pouco, começaram a retornar e a se instalar no que 
sobrou de suas antigas moradias. A partir de 1522, as ruínas da 
cidade começaram a se transformar em um imenso canteiro de obras, 
empregando a mão de obra indígena na reconstrução da cidade que 
ia sendo progressivamente dividida entre os vencedores espanhóis. 
Figura 7.2: Mapa da Cidade do México no século XVII, elaborado por Juan Gómez de Trasmonte.
Fonte: http://www.learnnc.org/lp/multimedia/4605
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Aula 7 \u2013 Poder e cidade na América espanhola colonial
A cidade não mudou de nome após a conquista: seguiu sendo 
chamada de Tenochtitlán ou México nas correpondências ofi ciais 
trocadas entre os conquistadores e a coroa. Cortés estava decidido 
a fazer do México o centro do governo espanhol, manifestando a 
ambição de que a antiga capital mexica se tornasse, em cinco anos, 
a mais nobre e populosa das cidades do mundo inteiro. De acordo 
com S. Gruzinski, a atitude de Cortés era simbólica, por comunicar 
aos índios e aos próprios espanhóis a vontade de ancorar localmente 
o poder da Espanha no Novo Mundo.
O plano de urbanização da nova cidade, erguida pelos 
conquistadores, obedecia a uma planta elaborada por Alonso García 
Bravo, soldado considerado também \u201cmuito bom geômetra\u201d, com 
o auxílio de um outro conquistador, Bernardino Vásquez de Tapia. 
O padrão escolhido foi a planta em forma de tabuleiro, conhecida 
como traza, que desde então passou a servir de modelo para 
todas as cidades espanholas do continente americano. Na cidade 
reconstruída, um canal separava fi sicamente o setor espanhol dos 
bairros indígenas, e pontes levadiças de madeira faziam a ligação 
dos dois setores por cima da água. A nova praça foi construída 
em 1522, e o antigo grande templo mexica, dedicado ao deus 
Huitzilopochtli, foi destruído para dar lugar a uma catedral. 
Huitzilopochtli era considerado o guia e 
protetor do povo mexica, desde a saída da cidade 
de Aztlan até o estabelecimento no planalto central 
mexicano, onde se ergueu a cidade de Tenochtitlán. 
Era a divindade mais adorada e festejada entre os mexicas, 
segundo os evangelizadores e cronistas espanhóis que coletaram 
informaçãoes sobre esse culto.
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História da América I
O bairro espanhol, que em 1525 contava com cento e 
cinquenta casas e menos de mil habitantes, tinha o aspecto de uma 
verdadeira fortaleza. As residências dos conquistadores possuíam 
muralhas e torres para enfrentar temidos ataques ou cercos dos 
índios. Cortés, por exemplo, transformou o palácio do antigo 
governante mexica \u2013 Montezuma \u2013 em sua própria residência na 
cidade do México, após reformas que a transformaram em um 
verdadeiro arsenal de armamentos variados. 
Em 1524, o cabildo instalou-se na cidade reconstruída, 
reforçando o caráter de centro de governo e de vida urbana que 
se desejava privilegiar. Questões relativas à administração, vias 
públicas, abastecimento e salubridade eram defi nidas pelo governo 
exercido pelos membros do cabildo. A partir dessa cidade-capital, 
Cortés tratou também dos estabelecimentos espanhóis, fundados 
no resto do território. Nas áreas fora da cidade do México, foram 
fundadas as villas de españoles, constituindo o início de uma rede 
urbana que serviria de referência para os europeus que residiam 
nas áreas mais dispersas do interior.
Na medida em que os espanhóis aniquilavam violentamente 
as antigas povoações e cidades dos índios na América, 
concebiam também um modo ideal de ocupação do espaço. 
Nesse modelo, índios e espanhóis deviam viver separadamente, 
habitando áreas diferentes quando em uma mesma cidade, e 
ocupando territórios distintos no interior. A colonização desejava 
que as comunidades índias vivessem em isolamento, mantendo 
com a maioria dos espanhóis apenas o contato necessário para a 
tributação e exploração da mão de obra índia. 
Na prática, entretanto, esse ideal demonstrou ser inviável. A cidade 
do México, mais uma vez, constitui um bom exemplo de cidade 
híbrida, ou mestiça, para usar as palavras do já citado historiador S. 
Gruzinski. Como vimos, os espanhóis planejavam cidades ordenadas, 
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Aula 7 \u2013 Poder e cidade na América espanhola colonial
de traçado reto e regular, com bairros índios distantes e isolados. Na 
prática, entretanto, a mestiçagem fazia os grupos confundirem-se e 
reunirem-se no espaço urbano. Assim, a plaza mayor, coração do 
centro hispânico sobreposto ao centro indígena, era também um 
lugar de encontro entre vencedores e vencidos, já que europeus, 
índios e africanos ali se reuniam nas festas e celebrações. Da mesma 
forma, os mercados eram visivelmente espaços mestiçados, onde 
plantas e legumes, aclimatados e cultivados pelos índios, começaram 
a encher as barracas frequentadas pelos europeus. 
A mestiçagem das técnicas de edifi cação também encontrou na 
cidade do México um espaço privilegiado. Os trabalhadores 
indígenas tornaram-se empregados nas obras de construção das 
catedrais, símbolo maior do poder espanhol e cristão no Novo 
Mundo, desde o século XVI. Nas ofi cinas da Capela de San José 
de los Naturales, no convento franciscano do México, os religiosos 
recebiam os índios como aprendizes de diversos ofícios. As tradições 
artesanais e a qualidade dos saberes dos índios foram aproveitadas 
pelos religiosos, que trabalhavam para transmitir-lhes as técnicas 
européias. Aliás, devemos notar que os índios não se limitaram 
a aprender os novos