História da América 1 Cederj
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tão drástica na população das Américas?
Em primeiro lugar, devo ressaltar que a população de 10 
milhões de pessoas vivendo na América no ano de 1600 não era 
apenas de nativos, já que incluía também os europeus e os africanos 
que chegaram aqui. Assim, a extensão da catástrofe demográfi ca dos 
nativos fi ca ainda maior, evidenciando a grande mortalidade dos índios 
americanos. Vários fatores concorrem para essa brutal mortalidade 
indígena: os deslocamentos forçados, a fome, a desestruturação 
social, religiosa e cultural e a violência dos consquistadores são 
elementos que explicam a grande queda demográfi ca entre os nativos. 
Mas a conquista trouxe também doenças até então desconhecidas 
pelos nativos americanos (sarampo, gripes e doenças respiratórias, 
entre outras), que não resistiram diante da invasão de germes para 
os quais não possuíam defesas. A propagação das epidemias 
transmitidas pelos europeus foi, sem dúvida, a principal causa 
da intensa mortalidade indígena ao longo do primeiro século da 
conquista. Toda e qualquer refl exão a respeito da construção da 
sociedade colonial nas Américas deve levar em conta que o mundo 
dos nativos estava enfraquecido não apenas pelas derrotas militares 
diante da invasão dos europeus. De fato, tais sociedades precisaram 
se adaptar à conquista em meio a muitas mudanças e violências, 
particularmente dramáticas, por ocorrerem em meio ao caos das 
doenças e da intensa mortalidade nativa.
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Aula 1 \u2013 As Américas antes da conquista \u2013 temas e questões
Atende ao Objetivo 1
1. O frei Bartolomé de Las Casas foi um conhecido religioso, membro da Ordem dos 
Dominicanos, que viveu parte de sua vida entre os índios da América no início do século 
XVI. Ainda em vida, fi cou conhecido como \u201cprotetor dos índios americanos\u201d, e produziu 
vários escritos sobre a violência dos europeus contra os nativos. Entre esses escritos compostos 
pelo dominicano, o mais célebre foi o Brevíssimo relato da destruição das Índias, concluído 
em 1542. Nesse relato, Las Casas defi nia os índios como o povo mais suave, humilde e 
bom do mundo. Os conquistadores e colonos espanhóis, em contrapartida, eram descritos 
como tiranos, assassinos, ladrões e torturadores. A obra, publicada pela primeira vez 
na Espanha em 1552, trazia detalhes das crueldades dos espanhóis no Novo Mundo, 
fornecendo um repertório de histórias de horror de que os inimigos europeus da Espanha 
tirariam proveito.
Nesta atividade, proponho que você leia um breve trecho desse livro e comente-o, tendo 
em vista as informações desta aula a respeito da demografi a e da mortalidade dos nativos 
americanos na época da conquista:
Podemos dar conta boa e certa que em quarenta anos, pela tirania e diabólicas 
ações dos espanhóis, morreram injustamente mais de 12 milhões de pessoas; e 
verdadeiramente eu creio, e penso não ser absolutamente exagerado, que morreram 
mais de quinze milhões. Aqueles que foram de Espanha para esses países (e se tem 
na conta de cristãos) usaram de duas maneiras gerais e principais para extirpar 
da face da terra aquelas míseras nações. Uma foi a guerra injusta, cruel, tirânica e 
sangrenta. Outra foi matar todos aqueles que podiam ainda respirar ou suspirar e 
pensar em recobrar a liberdade (...) A causa pela qual os espanhóis destruíram tal 
infi nidade de almas foi unicamente não terem outra fi nalidade última senão o ouro, 
para enriquecer pouco tempo (...) (LAS CASAS, 2001).
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História da América I
Comentário
Ao comentar as palavras de frei Las Casas, espero que você contextualize as afi rmativas 
desse religioso, notando o tom de denúncia adotado pelo autor para apresentar aos europeus sua 
visão da violência da conquista em meados do século XVI. Devem ser igualmente ressaltados os 
termos utilizados por ele para qualifi car a ação dos europeus na América, de modo a explicitar o 
caráter de denúncia do texto: tirânicos, diabólicos, cruéis e sangrentos são algumas das expressões 
usadas por Las Casas para descrever a ação dos espanhóis diante dos nativos. Um segundo 
aspecto importante para a análise desta fonte de época é o contraste entre os dados do autor 
e as versões historiográfi cas. Las Casas já evidenciava em meados do século XVI a dimensão 
da grande mortalidade dos nativos; não se trata aqui de saber se as estimativas numéricas 
estavam corretas ou não, pois o importante é ressaltar que o autor buscava despertar pavor e 
impacto em seus leitores europeus, lançando mão para isso de estimativas sobre a mortalidade 
dos índios. Outro dado importante na narrativa de Las Casas é a atribuição da mortalidade à 
ganância pelo ouro, explicitando mais uma vez o tom moral da denúncia presente em seu relato. 
À luz dos dados de que dispomos hoje, outras razões poderiam ser igualmente ressaltadas para 
explicar a brutal queda demográfi ca entre os nativos após a conquista: epidemias, deslocamentos 
das comunidades de índios, a exaustão provocada por novos ritmos de trabalho, entre outras.
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Aula 1 \u2013 As Américas antes da conquista \u2013 temas e questões
O \u201cNovo Mundo\u201d dos \u201cíndios\u201d 
A expressão "Novo Mundo" surgiu junto com a conquista das 
terras da América pelos europeus. Foi usada pela primeira vez em 
1493 pelo padre italiano Pedro Mártir, um dos mais importantes 
divulgadores europeus das atividades de descobrimento e 
conquista das Américas. O humanista Mártir nunca pisou nas 
Américas e não possuía, portanto, uma vivência empírica do que 
relatava. Mas viveu na corte de Castela, onde manteve contato 
estreito com navegadores que voltavam e contavam os detalhes 
das terras recém-descobertas. A partir dessas fontes, Mártir 
escrevia em latim suas cartas (publicadas pela primeira vez 
em 1504) e as enviava para diversos contemporâneos ilustres, 
ávidos por notícias. Sem preocupação espiritual marcante nesses 
escritos, Mártir demonstrava uma fl exibilidade para superar as 
ideias preconcebidas sobre as terras de além-mar. Rejeitava assim 
a ideia do navegador Cristóvão Colombo, que acreditara ter 
chegado às Índias, ou à ilha das areias de ouro. Pedro Mártir, 
em contrapartida, divulgava aos europeus a ideia de um Novo 
Mundo, diferente de tudo aquilo já descrito ou imaginado pelos 
europeus daquele tempo. 
Para os nativos, convertidos em índios pelos conquistadores, 
a chegada dos europeus também criou um Novo Mundo, 
marcado pela brutal queda demográfica, pela evangelização 
que marginalizava violentamente as culturas nativas e pela 
transformação radical, quase sempre, de antigos modos de 
vida e de trabalho. 
Nathan Wachtel, autor hoje clássico no ensino de História 
das Américas no Brasil, observou o Novo Mundo dos índios 
através da noção de \u201cvisão dos vencidos\u201d. Para Wachtel, os 
nativos da Mesoamérica e dos Andes perceberam a chegada 
dos espanhóis no arcabouço do mito, como se tratasse do 
retorno dos deuses civilizadores Quetzalcóatl (entre os mexicas) 
e Viracocha (entre os incas), cultuados pelos índios desde muito 
Evangelização 
O processo de 
evangelização da 
América consistiu na 
imposição dos rituais, 
dogmas e sacramentos 
do catolicismo aos 
nativos. Na Aula 
7, você encontrará 
informações detalhadas 
sobre esse processo.
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História da América I
antes da conquista. Mas os nativos logo perceberam que estavam 
diante de uma desestruturação de seus mundos. O processo de 
reconstrução das sociedades nativas assumiu, de acordo com 
Wachtel, formas diversas: resistência, mestiçagem ou algum grau 
de hispanização. 
Outros autores, em perspectiva mais informada pelos 
métodos e problemas da história cultural, buscaram ressaltar a 
ação dos índios diante do brutal processo de conquista, revelando