História da América 1 Cederj
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baseadas no uso 
do trabalho compulsório.
Conquista, ocupação e exploração do 
território colonial 
O processo referente à conquista e colonização da América 
abarca um conjunto de fatores característicos de uma época em 
ebulição, ressurgida de uma crise econômica e demográfi ca (século 
XIV) e disposta a ampliar seus horizontes. No geral, o uso da 
violência caracterizou a conquista. Os mecanismos de dominação 
utilizados pelos europeus foram fundamentais para a sobreposição 
dos valores sociais e políticos de uma sociedade estrangeira, 
estranha aos costumes locais e indisposta a aceitar resistências. 
Por outro lado, os índios da Nova Espanha não deixaram de reagir 
sempre, inventando adaptações e combinações e constantemente 
redefi nindo os meios e a execução da dominação colonial. 
Mas como aqueles pequenos bandos de espanhóis que 
encaravam o desafi o de viajar meses pelo oceano Atlântico puderam 
submeter as populações indígenas numericamente superiores? 
Como dominar um território tão extenso e desconhecido? Podemos 
destacar alguns fatores essenciais: a questão militar, a diversidade 
populacional, o sedentarismo, a fé, as doenças. 
Um dos principais mecanismos de conquista está relacionado 
à superioridade bélica dos europeus. Veja-se a evidência dos fatos 
pela utilização de armas de fogo, superiores no impacto psicológico 
e no combate a distância. Também o emprego do aço na concepção 
de armas de ataque (espadas, punhais, facas etc.), infi nitamente 
Compulsório 
Signifi ca obrigatório. 
Quando se fala de 
trabalho compulsório, 
refere-se a trabalho 
escravo.
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História da América I
superiores aos dos nativos. Outro fator importante foi a utilização do 
cavalo, animal desconhecido pelos ameríndios e que permitiu aos 
europeus maior mobilidade e intensidade na hora do combate. 
Contudo, com o tempo, alguns grupos indígenas adquiriram 
certas armas e aprenderam a manejá-las, tornando-se fortes focos 
de resistência. Ao mesmo tempo, em certos combates, a proporção 
numérica era de cem, quinhentos, mil índios para um espanhol. 
A superioridade técnica também deve ser relativizada pelas condições 
encontradas. Como puxar canhões pelas fl orestas e montanhas? 
E atravessar rios e apanhar chuvas torrenciais, característicos das 
fl orestas tropicais, sem molhar a pólvora? As pesadas e quentes 
armaduras podiam difi cultar ainda mais a adaptação ao calor e aos 
efeitos da altitude. (Não é a altitude a culpada pelas derrotas da 
seleção brasileira em La Paz, capital da Bolívia?).
Enfi m, as circunstâncias ambientais podiam neutralizar a 
vantagem bélica dos invasores espanhóis; logo, a superioridade 
bélica, nesse caso, não pode explicar tudo. Deve-se então acreditar 
em superioridade racial, em proteção divina por parte dos povos 
brancos? Esses argumentos difi cilmente são aceitáveis.
Avaliando outra perspectiva, entenderemos melhor o processo 
de conquista e sua efetivação, analisando o contexto sociopolítico 
dos povos nativos. Na América, as populações organizavam-se de 
maneiras diversas, conhecendo a fundo a dominação de um grupo 
sobre o outro. Esse era o caso do império inca, que dominava vários 
grupos menores, exigindo tributos na forma de prestação de serviços 
ou produtos. Para as populações sob o domínio incaico, aceitar a 
dominação estrangeira era garantir a oportunidade de se \u201cvingar\u201d 
de seus opressores. Aproveitando esse clima de insatisfações, os 
europeus passaram a constituir alianças bélicas com os povos nativos 
insatisfeitos, garantindo assim uma \u201cforça extra\u201d para as diversas 
frentes de batalha.
Outro aspecto importante foi o sedentarismo e a concentração de 
grandes populações, como na mesoamérica (México), ocupada pelo 
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Aula 8 \u2013 O sistema econômico colonial: terra, trabalho e comércio
império asteca, e nos Andes, pelo já citado império inca. A existência 
de uma força de trabalho ampla e disciplinada facilitou a imposição 
da dominação. 
A conquista da América não foi feita apenas por homens, 
mas também por micróbios. Com a chegada dos portugueses e 
posteriormente dos africanos, uma quantidade incalculável de 
microorganismos desconhecidos foram trazidos para o continente 
americano, provocando uma série de epidemias que afetaram 
drasticamente as populações nativas. Principalmente nas regiões 
densamente povoadas, como o México central, o papel desempenhado 
pelas epidemias no solapamento tanto da capacidade quanto da 
vontade de resistir constitui uma boa explicação para o caráter súbito 
e completo do sucesso espanhol (ELLIOTT, 1998, p. 170).
Por trás dos fatores materiais, também devemos considerar 
o papel da fé como formuladora de um discurso e um conjunto de 
atitudes que orientavam a execução da conquista. Como defensores 
do cristianismo, os espanhóis encaravam a conquista como uma 
missão pela qual não podiam medir os sacrifícios, mesmo porque 
a recompensa fi nal era certa. O paraíso celestial, e sobretudo o 
terreno, tornavam toleráveis todas as agruras. 
Por outro lado, a evangelização apresentou-se como um 
mecanismo importante para a imposição do domínio castelhano 
sobre os povos ameríndios. Já na segunda expedição realizada 
pelos espanhóis, em 1493, destaca-se a presença de sacerdotes 
encarregados da empresa missionária. A conversão implicava uma 
ocupação permanente. 
Portanto, é essa variedade de aspectos que não se pode perder 
de vista. A conquista, desde o início, foi algo mais do que um convite 
à fama e à pilhagem. A pretensão de ocupação do território com o 
objetivo de enriquecimento e ascensão social esteve presente desde 
as primeiras expedições. 
Na segunda viagem à América, já podemos encontrar os 
traços do projeto colonial. Com uma tripulação de 1.200 homens, 
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formada por soldados, marinheiros, nobres aventureiros, artesãos e 
agricultores, fi ca clara a ênfase na colonização do território, ainda 
que faltassem as mulheres. Os espanhóis, quando voltaram às 
Antilhas (1493), já sabiam o que queriam: o ouro. Hernan Cortéz 
afi rmou \u201cSofremos de uma doença do coração que somente pode 
ser curada com ouro\u201d (ELLIOTT, 1998, p. 167).
Contudo, as sonhadas minas demorariam um pouco a aparecer, 
mais para os portugueses que para os espanhóis. Na falta do ouro, 
outra mercadoria deveria justifi car os investimentos dos soberanos. Na 
América portuguesa, o pau-brasil foi o principal produto explorado 
durante os trinta anos iniciais. No caso espanhol, foram os próprios 
índios que se tornaram mercadoria. O envio de indígenas para 
serem vendidos como escravos colocou uma questão que não seria 
resolvida nos cinquenta anos seguintes: que status atribuir à população 
indígena? 
No tocante ao estatuto das populações sobreviventes à 
conquista tendo sido consideradas a princípio como bárbaras, que 
podia signifi car \u201cinfi éis\u201d, sua escravização era legitimada pelo Direito 
Romano. No entanto, a infl uência dos teólogos levou a um reexame 
da questão, uma vez que um infi el era um homem que havia rejeitado 
a verdadeira fé. Os teólogos não sabiam como isso era possível, 
mas de fato os povos do Novo Mundo não haviam conhecido o 
cristianismo e viviam na total ignorância. Nesse sentido, deviam ser 
classifi cados, em um primeiro momento, como pagãos, e não infi éis. 
Por outro lado, a recusa após a pregação do evangelho seria um 
argumento utilizado para a \u201cguerra justa\u201d, e, por conseguinte, para 
a escravização (ELLIOTT, 1998, p. 303).
A discussão sobre o status do indígena evoluiu no decorrer 
dos anos para uma campanha contra os maus tratos e a exploração 
dos índios pelos colonos espanhóis. Bartolomeu de Lãs