História da América 1 Cederj
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Casas, um 
ex-encomendero, foi o mais representativo defensor dos índios. 
Para ele, somente a coroa tinha jurisdição sobre os índios e cabia 
a ela a empresa missionária. Os reis deveriam tutelar a conversão 
dos indígenas, garantindo as condições necessárias para tal, sem 
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Aula 8 \u2013 O sistema econômico colonial: terra, trabalho e comércio
que os privasse dos direitos de propriedade e de governo, que lhes 
pertenciam por força da lei natural. Frei Bartolomeu de Las Casas, 
na Brevíssima relação da destruição das Índias: o paraíso destruído, 
expõe a forma de tratamento que os espanhóis destinavam aos 
indígenas. Segue um trecho de seu relato:
Aqueles que foram de Espanha para esses países (e se têm na 
conta de cristãos) usaram de duas maneiras gerais e principais 
para extirpar da face da terra aquelas míseras nações. 
Uma foi a guerra injusta, cruel, tirânica e sangrenta. Outra foi 
matar todos aqueles que podiam ainda respirar ou suspirar e 
pensar em recobrar a liberdade ou subtrair-se aos tormentos que 
suportam, como fazem todos os Senhores naturais e os homens 
valorosos e fortes; pois comumente na guerra não deixam viver 
senão as crianças e as mulheres: e depois oprimem-nos com 
a mais horrível e áspera servidão a que jamais se tenham 
submetido homens ou animais. A essas duas espécies de tirania 
diabólica podem ser reduzidas e levadas, como subalternas do 
mesmo gênero, todas as outras inumeráveis e infi nitas maneiras 
que se adotam para extirpar essas gentes (...) e quando os 
índios acreditaram encontrar algum acolhimento favorável 
entre esses bárbaros, viram-se tratados pior que animais e 
como se fossem menos ainda que o excremento das ruas; e 
assim morreram, sem Fé e sem Sacramentos, tantos milhões 
de pessoas (LAS CASAS, 1984; p. 29-30).
Como podemos perceber através desse trecho, para Las 
Casas, seja pela guerra ou pelo trabalho forçado, o efeito fi nal da 
relação entre os espanhóis e os indígenas é o extermínio desses 
últimos pelos primeiros. Além disso, o defensor dos conquistados 
acusa os colonos de não cumprirem com sua responsabilidade de 
catequização. Como veremos, o direito à mão de obra implicava a 
obrigação do encomendero de responsabilizar-se pela evangelização 
dos indígenas, contudo eles morriam \u201csem Fé e sem Sacramentos\u201d. 
Assim, os colonos não estariam cumprindo com o aspecto missionário 
do projeto colonial.
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De outro lado, os colonos do Novo Mundo não fi caram 
calados frente a essa questão. Para eles, a retirada dos indígenas 
de seu domínio direto implicaria um custo dispendioso e a redução 
de seus lucros. A oposição a Las Casas fi cou a cargo do publicista 
aristotélico Juan Ginés de Sepúlveda. Em seu tratado, Sepúlveda 
levanta a questão a partir do fundamento do governo na América: 
a capacidade racional dos índios. 
Vejamos agora um trecho do Dialogum de justis belli causis, 
que apresenta a base argumentativa de Sepúlveda:
É por isso que as feras são domadas e submetidas ao império do 
homem. Por esta razão, o homem manda na mulher, o adulto, na 
criança, o pai, no fi lho: isto quer dizer que os mais poderosos 
e os perfeitos dominam os mais fracos e os mais imperfeitos. 
Constata-se esta mesma situação entre os homens; pois há os 
que, por natureza, são senhores e outros que, por natureza, 
são servos. Os que ultrapassam os outros pela prudência e pela 
razão mesmo que não os dominem pela força física, são, pela 
própria natureza, os senhores; por outro lado, os preguiçosos 
os espíritos lentos, mesmo quando têm as forças físicas para 
realizar todas as tarefas necessárias, são, por natureza, servos. 
E é justo e útil que sejam servos, e vemos que isto é sancionado 
pela própria Lei Divina. Pois está escrito no Livro dos Provérbios: 
\u201cO tolo servirá ao sábio\u201d. Assim são as nações bárbaras e 
desumanas, estranhas à vida civil e aos costumes pacífi cos. 
E sempre será justo e de acordo com o direito natural que essas 
pessoas sejam submetidas ao império de príncipes e de nações 
mais cultivadas e humanas, de modo que, graças à virtude dos 
últimos e à prudência de suas leis, eles abandonam a barbárie 
e se adaptam a uma vida mais humana e ao culto da virtude. 
E se recusam esse império, é permissível impô-lo por meio das 
armas e tal guerra será justa assim como o declara o direito 
natural... Concluindo: é justo, normal e de acordo com a lei 
natural que os homens probos, inteligentes, virtuosos e humanos 
dominem todos os que não possuem estas virtudes (SEPULVEDA 
apud ROMANO, 1973, p. 85). 
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A partir da leitura desse fragmento, podemos perceber que 
Juan Ginés de Sepúlveda encara os povos nativos como animais, 
incapazes de se organizarem, estranhos à vida civil e aos costumes 
pacífi cos. Contudo, o que dizer das civilizações mexicanas e 
indígenas que possuíam uma capacidade de organização política 
e social impressionante até mesmo aos olhos dos europeus? 
A existência dos impérios asteca e inca esvaziava facilmente 
essa linha de raciocínio. No entanto, a distância que separava 
Sepúlveda desses povos lhe garantia a insensibilidade necessária 
para caracterizar os índios com um povo naturalmente inferior aos 
espanhóis, e, portanto, sujeitos ao domínio espanhol. Sepúlveda não 
preconizava a escravidão dos índios, mas uma forma paternalista 
em favor dos interesses deles próprios. Era favorável à tutelagem 
dos índios pelos encomenderos. 
Procurando rebater a posição dos colonos, Las Casas e os 
dominicanos afi rmavam que os povos indígenas: 
Têm o entendimento mui nítido e vivo; são dóceis e capazes 
de toda boa doutrina. São muito aptos a receber nossa santa 
Fé Católica e a serem instruídos em bons e virtuosos costumes, 
tendo para tanto menos empecilhos que qualquer outra gente 
do mundo. E tanto que começaram a apreciar as coisas 
da Fé são infl amados e ardentes, por sabê-las entender; e 
são assim também no exercício dos Sacramentos da Igreja 
e no serviço divino que verdadeiramente até os religiosos 
necessitam de singular paciência para suportar (LAS CASAS, 
1984; p. 28).
Além de uma visão idealizada dos indígenas, como povos 
simples, sem malícia, fi éis, pacífi cos, doces, sem ódios, entre outros 
adjetivos, podemos perceber que o interesse de Las Casas era 
defender e garantir a missão cristã. Para ele, os índios deveriam se 
tornar vassalos diretos da coroa, e a ela deveria caber o controle 
da evangelização. Assim, não deixa de defender a necessária tutela 
dos indígenas. 
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Nesse sentido, fi ca a pergunta: o que de fato esses homens 
defendiam? Certamente, não era a liberdade dos nativos. Apesar da 
violência do debate, uma vez que estava em questão considerar os 
indígenas como seres humanos ou animais, na verdade, não se colocou 
em questão o domínio da Espanha sobre a América e seus povos. 
A divergência entre Las Casas e Sepúlveda localizava-se na exigência 
do primeiro de que a missão fosse realizada por meios pacífi cos, e 
não por coerção, e desempenhada pela coroa e pelos missionários, e 
não mais pelos colonos. 
A crueldade com que eram tratados os índios não foi denunciada 
apenas por Las Casas, mas igualmente pelas cartas que chegavam das 
Índias, escritas por arcebispos, vice-reis, entre outros homens que se 
sensibilizavam com a condição imposta aos índios. A discussão, então, 
passa do plano da denúncia para a urgência de uma ação política. 
Nesse sentido, o rei espanhol Carlos V cria uma junta especial para 
lhe aconselhar na questão das encomiendas. Essa junta, formada por 
juristas e