História da América 1 Cederj
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contra 
a encomienda, proibindo as prestações de trabalho, restringindo a 
hereditariedade do benefício e recolocando as aldeias sob o controle 
direto da administração colonial. De todo modo, a encomienda 
tendeu a desaparecer antes que fi ndasse o século XVI. No México, 
entre 1550 e 1560, a maioria das aldeias passou ao controle régio, 
o mesmo ocorrendo no Equador, Peru e Bolívia, na década de 1570 
e, ainda, na Colômbia, nos anos de l590.
O declínio da encomienda foi acompanhado pela redução das 
comunidades indígenas em circunscrições chamadas corregimientos de 
índios, localizados sempre próximos às cidades e minas. Ali, os índios 
deveriam trabalhar nos moldes tradicionais e vender os excedentes 
agrícolas, a fi m de abastecer a população colonial de mantimentos e 
obter os meios para o pagamento dos tributos. Deviam, contudo, continuar 
prestando serviços nas empresas coloniais através do repartimiento, 
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Aula 8 \u2013 O sistema econômico colonial: terra, trabalho e comércio
que abrangia todos os homens adultos das aldeias. Nesse sistema, 
cada comunidade deveria fornecer, periodicamente, uma quantidade 
de trabalhadores para as atividades coloniais, sendo cada turno de 
\u201crepartidos\u201d sorteado pelas chefi as aldeãs (isentas da tributação). 
Cuidava-se para que o sorteio e o envio de trabalhadores 
fossem adequados à disponibilidade da aldeia, de modo a não 
alterar a subsistência da comunidade \u2014 o que foi inviável a 
médio prazo. Uma vez sorteados, os índios eram conduzidos a um 
\u201cjuiz repartidor\u201d do corregimiento, e daí encaminhados para os 
interessados em contratá-los. Pelo trabalho no repartimiento, cujo 
tempo variava de semanas a meses, os índios deveriam receber 
um salário, parte do qual obrigatoriamente em moeda (ou metal), 
a fi m de que pudessem pagar o tributo régio. Veja-se, desde logo, 
a originalidade desta relação, conhecida como mita no Peru, e 
cuatéquil no México, que combinava práticas pré-coloniais de 
recrutamento aldeão com formas atípicas de assalariamento, sendo 
impossível confundi-la com a servidão medieval, a escravidão ou 
ao trabalho livre (VAINFAS, 1984, p.44).
A prática do repartimiento foi, contudo, variável de região a 
região, muito embora tenha sido a principal relação de trabalho na 
América espanhola até meados do século XVII, sobretudo em função 
da economia de mineradora. No caso de México, o repartimiento 
nunca foi tão importante como no Peru, e tendeu a esgotar-se entre 
os anos de 1630 e 1650. 
Ao contrário do Peru, onde as minas fi cavam próximas aos 
vales densamente povoados do antigo império inca, o México 
tinha as suas minas localizadas fora da região central (coração 
do império asteca), o que implicou o apelo a outras formas de 
trabalho. Ainda assim, muitas comunidades foram transferidas para 
Zacatecas e Guanajuato, e o cuatéquil foi bastante utilizado, mas o 
esgotamento das aldeias e as difi culdades de reposição acabaram 
por inviabilizar o sistema. 
Os mineiros tiveram, então, que atrair trabalhadores com salários 
relativamente altos, especialmente com o partido \u2014 direito de cada 
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História da América I
trabalhador receber uma parte do mineral produzido \u2014 o que levou 
muitos índios a abandonarem suas aldeias em direção ao norte mineiro. 
Mas não se deve exagerar a mobilidade dessa mão de obra, pois 
desde cedo os mineradores trataram de endividar os trabalhadores, 
manipulando as suas contas no armazém da mina (tienda de raya), a 
fi m de retê-los na unidade de produção. Desse modo, os trabalhadores 
\u201clivres\u201d das minas mexicanas convertiam-se em gafi anes, naboríos e 
Iaboríos \u2014 relações bem próximas à servidão pessoal \u2014 e poucos 
fi cavam realmente como assalariados.
No caso do Peru, a mita perdurou até inícios do século XIX, mas 
também aqui os mineradores trataram de reter a mão de obra em face 
da crise demográfi ca. Além de concederem o partido, costumavam 
oferecer um salário mais alto para que os índios permanecessem 
na mina ao invés de retornarem às aldeias, de forma que o índio 
trabalhava uma semana como mitayo, a 3 1/2 reales por dia, e a 
semana seguinte como mingado, a 4 reales diários. O sistema levava, 
como no México, ao endividamento do trabalhador junto ao armazém 
local e à sua retenção na unidade produtiva.
Também na hacienda praticou-se, largamente, o sistema de 
endividamento de trabalhadores, a fi m de retê-los na propriedade. 
A relação é amplamente conhecida como peonaje, na qual o 
trabalhador recebia como salário um crédito na tienda de raya 
(onde retirava alimentos, roupas etc.), além de um lote mínimo de 
subsistência. Suas contas eram manipuladas pelo hacendado de 
modo a tornar insolvente a dívida do peão, que fi cava obrigado a 
pagá-la com trabalho. 
Enfi m, muitos índios se dirigiam voluntariamente para as 
haciendas, sobretudo no século XVII, a fi m de escaparem do 
repartimiento, dispondo-se a trabalhar gratuitamente para os 
fazendeiros em troca de um exíguo lote de subsistência. Entre outros 
exemplos, citemos os terrazgueros, no México, os yanaconas, 
no Peru, os inquilinos, no Chile, os agregados, na Colômbia, os 
huasipungueros, no Equador etc.
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Aula 8 \u2013 O sistema econômico colonial: terra, trabalho e comércio
Assim, as relações de trabalho vigentes na América espanhola 
apresentaram enorme complexidade, combinando práticas tributárias 
pré-coloniais, formas atípicas e precárias de assalariamento e 
mecanismos de sujeição pessoal de trabalhadores. Em suma, foram 
construídas relações sociais diversas no espaço e no tempo, mas que 
convergiam, em diferentes graus, no sentido da servidão.
Nos territórios portugueses, assim como nos domínios espanhóis, 
o uso do trabalho indígena foi uma constante. Predominante até 
meados do século XVII, sem deixar de ser central em regiões como 
a Amazônia, o uso da mão de obra nativa reduziu-se em virtude da 
diminuição demográfi ca posterior à etapa de conquista e ocupação 
do território. A substituição do trabalho nativo pelo do escravo 
africano constituiu uma alternativa para a carência de mão de 
obra e para o incentivo da produção monocultora de características 
extensivas, que predominou nas áreas lusas da América.
Variável em suas fronteiras conforme as épocas, a escravidão 
negra veio a constituir-se como o principal sistema de trabalho nas 
regiões que compreendiam o atual sul dos Estados Unidos, o Caribe 
(inclusive as Guianas) e as colônias da América portuguesa, em 
especial as áreas produtoras de cana-de-açúcar. 
Segundo Ciro Flamarion,
As plantations e minas trabalhadas por escravos eram as 
formas mais importantes de empresas na Afro-América 
colonial. A grande diferença entre a reprodução indo-
americana e a afro-americana da força de trabalho consistia 
em ser interna no primeiro caso e externa no segundo \u2013 ligada 
à imigração forçada que era o tráfi co de cativos africanos. 
Isto porque, na imensa maioria das regiões escravistas latino-
americanas, a mortalidade sempre excedia tendencialmente 
a natalidade entre os escravos, por razões que incluíam as 
duras condições de vida, uma forte incidência da mortalidade 
infantil e o fato de que entre os cativos havia mais homens que 
mulheres (FLAMARION apud CARDOSO, 1995, p. 43).
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História da América I
Em comparação com áreas coloniais que se utilizavam da 
mão de obra indígena, as regiões escravistas se apresentam como 
um bloco menos complexo e mais homogêneo em suas estruturas 
elementares, principalmente porque a escravidão dependia, 
para manter-se, de certos parâmetros de organização que se 
generalizaram nas regiões já referidas. 
Esse fato, válido em termos gerais e comparativos,