História da América 1 Cederj
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capacidades de adapatação, criatividade e inovação no mundo 
dos índios, apesar de toda a aniquilação. No vale do México \u2013 
área estudada pelo historiador francês Serge Gruzinski \u2013, em meio 
a toda destruição material e cultural, os índios tiveram que realizar 
uma readaptação completa de suas antigas práticas: realizaram 
antigos cultos em segredo, aprenderam mecanismos jurídicos dos 
espanhóis para defender as terras de suas aldeias, alteraram 
cálculos de população de suas comunidades para driblar as 
exigências de braços para o trabalho por parte dos espanhóis. 
Antigos chefes do mundo indígena, por sua vez, aprenderam o 
idioma do conquistador e aderiram à nova ordem política para 
preservar alguns de seus antigos privilégios. O Novo Mundo dos 
índios foi um mundo de violência extrema e aniquilação, mas 
também de mestiçagens e de adaptações frente aos imperativos 
da conquista. É essa a visão de autores como Serge Gruzinski e 
Steve Stern, por exemplo.
A mestiçagem, deve-se notar, é um conceito comum a 
diversos autores que buscaram delimitar as ações e visões dos 
índios diante da conquista. A meu ver, a compreensão de como 
se conformou para os índios um novo mundo após a conquista 
implica pensá-los como atores sociais desse imenso processo 
de mudanças desencadeado pelo emblemático ano de 1492. 
Emblemático para os espanhóis e, não menos, para as antigas 
sociedades nativas das Américas. 
Hispanização
O termo hispanização 
refere-se à adoção, por 
parte dos nativos, de 
hábitos, trajes e modos 
de vida próprios dos 
espanhóis.
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Aula 1 \u2013 As Américas antes da conquista \u2013 temas e questões
O termo índio é fruto de um equívoco geográfi co e de uma 
visão europeia generalizante sobre o complexo mundo dos 
nativos americanos. O equívoco geográfico deveu-se aos 
europeus terem imaginado, inicialmente, que haviam chegado às 
Índias Orientais, objetivo original das navegações dos espanhóis 
no fi nal do século XV. E, ao chamarem os habitantes do continente de 
índios, os estrangeiros expressavam também uma visão generalizante, 
pois deixava de lado a enorme variedade e complexidade dos povos 
nativos. Afi nal, como afi rmam S. Schwartz e J. Lockhart, o termo "índio" 
não correspondia, naquela época, a nenhuma unidade percebida 
pelos nativos. Nenhum dos povos tinha uma palavra em sua língua que 
pudesse ser traduzida pelo termo "índio", atestando que esse conceito 
era inteiramente desconhecido pelos antigos habitantes do continente 
americano. Assim, mexicas, tarascanos, incas, arwaks, caribes..., para 
citar apenas alguns entre tantos povos nativos, não se reconheciam 
inicialmente sob a genérica identidade de índios, inventada pelos 
europeus no processo de conquista das Américas. 
Mas, ao longo da experiência colonial, e mesmo após o fi m do 
colonialismo, o termo "índio" passou a ser apropriado por muitos grupos 
nativos, principalmente na esfera pública e na demanda por direitos 
políticos específi cos para suas comunidades. A historiadora brasileira 
Maria Regina Celestino já demonstrou, por exemplo, que os nativos 
escreviam petições ao rei de Portugal, no século XVIII, valorizando 
exatamente a identidade de índios. Ao fazê-lo, reivindicavam direitos 
\u2013 principalmente à terra \u2013 garantidos nas leis ibéricas aos chamados 
índios aldeados. Como afi rma a autora, \u201cdiante do caos instalado nos 
sertões pelas epidemias, guerras coloniais e escravizações em massa, 
os índios ingressavam nas aldeias buscando o mal menor, e o faziam 
através de acordos que, geralmente, lhes acenavam com promessas 
de terra, proteção e outras vantagens, sobretudo para as lideranças\u201d. 
Assim, como demonstrou a excelente pesquisa de Celestino, evidencia-
se que os nativos souberam transformar-se e reelaborar seus valores, 
culturas, interesses e até mesmo suas identidades no contexto colonial. 
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História da América I
CONCLUSÃO
No início desta aula, formulei algumas perguntas sobre 
a interação entre índios e europeus nos primeiros tempos da 
conquista: tratou-se de um econtro de culturas? De um confronto? 
De um processo de aniquilação? Creio que todas essas possibilidades 
se aplicam às profundas transformações desencadeadas pela 
conquista. Para os europeus, a América era um novo mundo a 
ser conquistado e evangelizado através de um processo que foi 
marcado por profunda violência e aniquilação. Para os índios, 
o impacto dessa aniquilação evidenciava-se por meio da intensa 
queda demográfi ca, das epidemias e da imposição de formas de 
vida e de trabalho totalmente desconhecidas até então. 
Contudo, o termo "aniquilação" deve ser usado com cuidado 
pelos historiadores e professores de História, pois sugere, à primeira 
vista, que toda a capacidade de resistência dos índios foi minada 
pela conquista. Afi rmar isso seria desconsiderar os nativos como 
agentes históricos capazes de se mobilizar e agir politicamente 
na defesa dos interesses de suas comunidades. Reconhecer essa 
capacidade é uma condição para o estudo da história dos índios e 
dos europeus na América após a conquista. Dessa forma, é possível 
ressaltar a ação dos nativos diante do brutal processo de conquista, 
revelando capacidades de adaptação, criatividade e inovação no 
mundo dos índios, apesar de toda a aniquilação.
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Aula 1 \u2013 As Américas antes da conquista \u2013 temas e questões
Atividade Final 
Atende ao Objetivo 2
Nesta atividade, gostaria de provocar um pouco sua refl exão sobre a tarefa de ensinar 
História das Américas para o público jovem dos segmentos fundamental e médio. 
O trecho citado em seguida é de autoria do historiador brasileiro Ronaldo Vainfas, que, após 
tratar brevemente das noções de \u201cíndio\u201d e de \u201cAmérica\u201d, lança um pergunta provocadora. 
Responda-a, preferencialmente, sob a perspectiva de um professor de História.
Os povos que habitavam o continente descoberto por Colombo foram chamados de 
índios porque (...) Colombo pensara ter chegado às Índias, quando desembarcou nas 
Antilhas, em 1492 (...) E também a própria palavra América não passa de uma invenção 
dos europeus. Homenagem que se prestou a um grande navegador daqueles tempos, 
Américo Vespúcio, que chegou inclusive à costa brasileira. Mas se não havia índios 
na América, e nem havia América antes que os europeus inventassem esses nomes, 
devemos abandonar essas palavras? (VAINFAS, 1993, p. 29-32). 
Comentário
Essa foi uma questão para despertar a sua refl exão, como estudante de História e também 
como futuro professor dessa disciplina. Assim, por se tratar de uma questão relativamente 
pessoal, vou reproduzir neste comentário a resposta proposta pelo próprio Ronaldo Vainfas. 
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História da América I
A visão dele é também a minha sobre a utilização dos referidos termos no ensino de 
História. Assim escreveu Vainfas, após perguntar se devemos abondonar esses termos: 
\u201cNão cheguemos a tanto. Vamos mantê-los para fi ns didáticos. Afi nal, a História consagrou 
essas palavras. Uma espécie de armadilha da qual é difícil escapar totalmente. Mas é 
preciso manter o senso crítico e ter a consciência de que são palavras colonialistas. Palavras 
inventadas pelos que fi zeram a colonização devem ser questionadas!\u201d 
RESUMO
No vasto espaço americano, duas regiões devem ser 
particularmente consideradas, pois foi nessas áreas que surgiram os 
Estados mais densamente povoados e politicamente hierarquizados a 
serem encontrados pelos espanhóis que chegaram ao continente: o 
Estado mexica e o Estado inca. A Mesoamérica (lar dos mexicas) e 
região andina (onde viveram os incas) são denominações atualmente 
usadas por historiadores e antropólogos para designar tais áreas, 
também conhecidas como