História da América 1 Cederj
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promovendo a depredação das propriedades ofi ciais, saques e 
perseguição aos coletores de impostos. 
Neste ponto, cabe uma observação fundamental: como 
o desenrolar da revolta mostrará, a multiplicidade social que 
caracterizou o Movimento Comunero se traduziu em igual pluralidade 
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História da América I
de interesses e uma fl uidez nos acordos fi rmados entre os grupos. 
Neste sentido, quando a revolta começa a tomar um rumo mais 
\u201cpopular\u201d, através das atitudes e popularidade de José Antônio 
Galán, as elites se apressam para fi rmar um acordo com a coroa. 
Galán, mestiço de aproximadamente trinta e dois anos, foi 
um destacado líder da revolta que, por onde passava, levantava 
os ânimos da população, chegando mesmo a declarar a liberdade 
dos escravos em uma mina na cidade de Mariquita. Temerosa dos 
caminhos que poderia tomar aquela revolta, que já contava com 
aproximadamente vinte mil adeptos, tratou de negociar um acordo 
com as autoridades espanholas em junho de 1781. 
Por outro lado, consciente do papel de Galán, o aparelho 
repressivo, bem como seus antigos \u201ccompanheiros\u201d de luta, 
precisamente os líderes comuneros criollos saem à sua perseguição. 
Assim, em 1782, Galán e outros líderes populares foram enforcados e 
esquartejados, tendo as partes de seus corpos distribuídas por várias 
partes, para que servissem como exemplo. Na época moderna, essa 
era uma prática comum. O suplício e o castigo funcionavam como 
mecanismos de dominação (CHECCHIA, 2000, p. 5).
Neste sentido, podemos concluir que os líderes criollos 
preferiram optar por manterem-se leais à coroa, que acabou não 
cumprindo com as promessas feitas em 8 de junho de 1781, a 
perder o controle sobre a situação. A elite criolla tinha como base do 
seu poder a defesa permanente dos valores e princípios espanhóis 
estabelecidos ao longo dos anos na América. Era melhor pagar as 
taxas do que perder o poder local. 
Outro caso em que as elites criollas viram seu poderes 
ameaçados ocorreu anos antes no Vice-reinado do Peru. O 
movimento liderado por Juan Santos também não pode ser 
considerado como um movimento de luta \u201cnacional\u201d, sendo mesmo 
um exemplo temido pelas elites. Isto porque tinha como objetivo fi nal 
expulsar os espanhóis e retomar o controle da América reinstalando 
o reinado Inca. 
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Aula 09 \u2013 O século XVIII na Europa e nas América: confl itos
Juan Santos intitulava-se o Inca de Cuzco, Atahualpa que vinha 
cobrar da coroa o que Pizarro e os demais espanhóis lhe tomaram, 
matando seus padres e enviando suas cabeças para a Espanha. A 
região em que esta revolta ocorrera, tradicionalmente, era muito 
hostil à presença espanhola e, apesar das tentativas do século XVI, 
pouco se tinha tirado dali. Assim, a partir do século XVII, outro 
tipo de entradas passou a ser realizado nas 
selvas andinas. Naquela época, as missões 
evangelizadoras, como o apoio dos soldados 
espanhóis, caminhavam para implementar o 
projeto colonizador. \u201cA cruz e a espada\u201d 
enfrentavam contínuos levantamentos como 
o do cacique do pueblo de San Antonio 
de Catalipango que matou vários padres 
franciscanos em um ataque surpresa (TORRE 
Y LÓPEZ, 1992, p. 518-519).
Mas voltando a Atahualpa, a primeira 
notícia de suas intenções chegou aos 
franciscanos espanhóis em 13 de junho 
de 1742 e, apesar das diversas tentativas, 
há apenas uma descrição direta de um 
encontro com Juan Santos, o que difi culta 
ainda mais as referências ao movimento 
e à pessoa de seu líder. Desta descrição, 
é possível saber que Juan, como os índios que o acompanhavam, 
tinham conhecimento do cristianismo. O Fr. Santiago Vazquez 
Caicedo escreveu que, ao chegar ao povoado às cinco da tarde, 
encontrou os índios dispostos em meia-lua e gritou \u201cAve, Maria!\u201d e 
eles responderam conforme o costume \u201cSem pecado concebida\u201d. Na 
sequência, o padre afi rma que, após saldar o suposto inca, fi zeram 
algumas orações em castelhano e rezaram o credo. 
Frei Santiago também afi rma que Juan Santos teria dito que, 
com a licença de Deus, iria sair a coroar-se em Lima, tomando 
apenas o reino que fosse seu, que não queria passar a Espanha. 
Fonte: Torre y López, Arturo Enrique de La. Juan Santos 
Atahualpa. Lima: PUC Fundo editorial, 2004.
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História da América I
Assim, era melhor o vice-rei deixar tomar posse do território, caso 
contrário iria tirar seu pescoço e o do seu fi lho. 
As autoridades espanholas, logo que informadas dessas 
intenções, organizaram a primeira campanha para impedir que 
Juan Santos saísse das montanhas e que a partir do cerco pudessem 
derrotar o movimento e capturá-lo. No entanto, o confl ito se alonga 
por dez anos com ataques que seguiram basicamente essas duas 
linhas de ação. A principal difi culdade foi a falta de informação 
sobre a localização exata dos rebeldes somada à incapacidade das 
autoridades em compreender a realidade do meio em que estavam 
fazendo suas investidas. 
Os repetidos insucessos das tropas vice-reinais acabaram 
por fortalecer as esperanças dos rebeldes e, no verão de 1751, 
pela primeira vez, acabam tomando a iniciativa. O ataque ao 
povoado de Sonomoro marcou uma nova fase na luta contra o 
movimento. Depois da ocupação desse povoado pelos rebeldes, 
as notícias sobre seu líder tornam-se cada vez mais raras, dando 
início à sua entrada na mitologia. Agora as tropas que podiam 
contar com outros grupos indígenas em suas frentes iriam combater 
não mais um homem concreto, mas a lenda de um reencarnado 
que continuava arregimentando índios para a luta à espera de seu 
retorno e fi nalmente refundar o império Inca. (TORRE Y LÓPEZ, 
1992, p. 530-531)
Assim, podemos perceber a partir dos dois estudos de caso 
apresentados, que, durante o século XVIII, conhecido como a 
\u201cmaturidade\u201d das Índias de Castela, ou seja, quando o domínio 
espanhol estava estabelecido e consolidado, os confl itos entre 
europeus e ameríndios não deixaram de ocorrer. Apesar de Juan 
Santos e seus companheiros desejarem reinstituir o Império Inca, o 
que signifi cava o rompimento com o domínio espanhol, esta não se 
apresentava como uma causa para as elites, que não apoiaram o 
movimento, mas sim sua repressão. 
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Aula 09 \u2013 O século XVIII na Europa e nas América: confl itos
Naquela época, os novos grupos sociais surgidos com a 
miscigenação e o desenvolvimento da sociedade colonial também 
confl itavam entre si, podendo, no entanto, estabelecer alianças que 
podiam resultar em revoltas, como a de Comunero, caracterizada 
pela diversidade social e de interesses. Por esta revolta, também 
fica claro que as alianças eram temporárias, gerando outros 
confl itos. Como vimos, as elites criollas, dado o caminho tomado 
pela revolta, passaram para o outro lado, reprimindo seus antigos 
\u201ccompanheiros\u201d. 
Portanto, durante o século XVIII, a existência de confl itos em 
nada pode ser entendida como um desejo de libertação nacional. As 
elites criollas, temerosas de perder o poder que exerciam localmente 
por muito tempo, ainda mantiveram-se leais à monarquia espanhola. 
Por outro lado, isso não signifi cou que os confl itos não existissem, 
mas, na maioria dos casos, podem ser sintetizados pela máxima de 
\u201cviva o rei e morra o mau governo\u201d.
Atende ao Objetivo 3
Os confl itos ocorridos na América Espanhola durante o século XVIII, de maneira geral, 
foram entendidos como \u201cum primeiro passo na cadeia evolutiva em radicalidade dos 
movimentos de contestação dos heróis da nação ou, em outra chave, do \u201cpovo colombiano\u201d, 
contra a dominação espanhola\u201d (CHECCHIA, 2000, p. 2). A partir dos estudos de caso 
apresentados nesta aula, desenvolva um texto conciso,