História da América 1 Cederj
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escravos, também a 
partir do século XVII. Dirigindo-se prioritariamente para as áreas 
do desgastante cultivo do tabaco, os primeiros africanos a viverem 
nas colônias inglesas substituíram gradualmente os trabalhadores 
por contrato (indentured servants) europeus. Você certamente se 
surpreenderá ao descobrir as histórias de escravos que formavam 
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História da América I
famílias, obtinham bens, comercializavam com relativa autonomia, 
faziam petições e iniciavam processos em tribunais locais. Ao mesmo 
tempo, falaremos de imagens da escravidão certamente mais conhe-
cidas por você, quando tratarmos das áreas típicas de plantation, 
disseminadas no centro-sul da América inglesa no século XVIII. 
 
Modos indígenas
Ao lado das muitas diferenças que marcaram os povos nativos 
das Américas, há uma notável característica comum: o relativo 
isolamento em que essas sociedades se desenvolveram. Diante da 
ausência de contatos com povos, técnicas e doenças vindas de fora 
da América, o impacto da conquista foi drástico para os índios. 
O primeiro estágio das profundas mudanças sofridas pelos nativos 
americanos foi marcado exatamente pelo impacto das epidemias, 
que causaram enorme devastação entre populações sem defesas 
para as doenças trazidas por europeus e africanos. As epidemias, 
os deslocamentos forçados pela violência dos invasores, a fome e 
a desagregação sociocultural combinavam-se, formando o quadro 
geral de grande debilidade demográfi ca experimentado pelas 
populações originais das Américas. 
No caso da América do Norte continental, a invasão das 
doenças se fez sentir ainda antes da presença mais sistemática dos 
ingleses. Desde o século XVI, os espanhóis estabeleceram suas primeiras 
fortalezas na área da atual Flórida, abrindo a porta para contágios 
diversos. Tais contágios foram ampliados pela presença de franceses 
comercializando peles ao norte e pelo estabelecimento das primeiras 
colônias inglesas no litoral do Atlântico. Considerando as estimativas 
populacionais para a América no período anterior à conquista, W. 
Denevan propõe algo em torno de quatro milhões e meio de habitantes 
formando as nações nativas da América do Norte. Sabe-se hoje que 
algumas dessas nações desapareceram diante das primeiras epidemias 
e guerras. Como bem observou o historiador James Merrell, os nativos 
americanos não cruzaram oceanos nem povoaram terras distantes, mas 
também passaram a viver em um \u201cnovo mundo\u201d após os contatos com 
europeus e africanos no período colonial.
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Aula 12 \u2013 Nativos e escravos na América colonial inglesa
Figura 12.1: Nações indígenas da América do Norte colonial.
Para os que resistiram ao impacto dos micróbios e das guerras, 
as interações com o mundo colonial foram moldadas diante das 
especifi cidades locais. Para uma caracterização geral das formas de 
interação entre europeus e nativos na América do Norte, podemos 
privilegiar aqui três processos. São eles: a formação de alianças 
comerciais; as disputas pela terra; as migrações e a criação de 
comunidades de compromisso entre diferentes grupos de nativos no 
estabelecimento de formas de \u201cresistência adaptativa\u201d ao avanço 
da colonização. Alguns exemplos podem ajudar a compreender 
melhor estes aspectos.
O comércio chegava geralmente mais devagar do que 
as doenças e atendia às demandas dos colonos por peles, em 
especial. Estimulavam-se, assim, os confl itos entre as diferentes 
nações que disputavam territórios de caça para obter as valorizadas 
mercadorias. Em contrapartida, os nativos recebiam armas, bebidas, 
ferramentas e outros suplementos europeus que os envolviam em 
formas econômicas estrangeiras. No curso das trocas comerciais 
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História da América I
com os europeus \u2013 estabelecidas não apenas nas treze colônias, 
mas também nos territórios ocupados por franceses e espanhóis \u2013, 
a autossufi ciência que antes marcava a história das comunidades 
nativas tornou-se uma memória. 
À medida que os produtos europeus passaram a ser valorizados 
pelos índios, cresceram as disputas entre diferentes grupos nativos por 
recursos a serem comercializados com os europeus. Neste contexto, as 
guerras entre os índios propiciavam também a captura de prisioneiros 
vendidos como cativos aos colonos europeus. Outras vezes, os 
próprios colonos lutavam contra os índios para capturar escravos. As 
lutas movidas por proprietários da Carolina do Sul contra os índios 
tuscaroras e yamassees, para citar apenas um exemplo, permitiu a 
incorporação de grande número de índios capturados. Na segunda 
metade do século XVIII, de acordo com o historiador Ira Berlin, a 
Carolina do Sul contava com cerca de 1.500 índios escravizados 
trabalhando nas áreas de cultivo do arroz e do anil. 
Assim, pode-se afi rmar que os colonos visavam principalmente 
duas \u201cmercadorias\u201d dos índios: peles e escravos. Enquanto a 
demanda de colonos por índios escravos encorajava a expansão das 
guerras entre grupos nativos rivais, a demanda por peles promovia 
novas disputas por territórios de caça. 
 A questão da terra, entretanto, mais do que a disputa pelos 
trabalhadores indígenas, foi o principal foco de confl itos entre 
colonos e índios na América colonial. Para os colonos, valia o 
\u201cdireito de descoberta\u201d, fundado na ideia de que os conquistadores 
poderiam se apossar de territórios que não pertencessem a um 
\u201cpríncipe ou povos cristãos\u201d. Mas esta alegação dos colonos logo se 
confrontou com a realidade da reação dos grupos nativos, motivando 
acordos locais ou guerras declaradas. Foi este o caso dos nativos 
wampanoags: em 1675, declararam um confl ito aberto contra 
os ingleses, que havia quinze anos promoviam incursões em seus 
territórios. Conhecida como Guerra do Rei Felipe, a ofensiva dos 
índios chegou a destruir alguns povoados de colonos na região de 
Massachusetts, até que o armamento superior dos europeus mudou 
o rumo das batalhas, selando a vitória inglesa em 1676.
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Aula 12 \u2013 Nativos e escravos na América colonial inglesa
Confl itos como este geralmente empurravam os índios para as 
migrações, para a venda de suas terras ou para o estabelecimento de 
acordos com os colonos. Pelos acordos, os nativos mantinham-se em 
áreas reservadas de seus territórios originais, espécies de enclaves 
formados em meio ao avanço da colonização. Aqueles que migravam 
dirigiam-se geralmente para além da cadeia de montanhas conhecidas 
como Apalaches, localizada na costa leste do continente. Defronta-
vam-se, então, com perdas socioculturais enormes. Deve-se pensar, nesse 
sentido, que o estabelecimento em uma nova localidade demandava o 
tempo exigido para a reconstrução de formas de governo, de sustento 
e de organização dos rituais em território estranho. 
\u201cMilhares de europeus passaram a viver como índios, mas não 
há exemplos de nativos que tenham escolhido tornarem-se 
europeus.\u201d Esta curiosa afi rmação foi feita pelo fazendeiro e escri-
tor de origem francesa Hector de Crèvecoeur, em 1782. A opinião 
deste colono, residente em Nova York, permite-nos abordar uma 
situação pouco conhecida, mas razoavelmente usual na América colonial. 
Trata-se dos chamados \u201cíndios brancos\u201d, ou seja, dos colonos capturados 
por nativos que desejavam permanecer com seus captores, mesmo 
quando tratados de paz lhes garantiam a oportunidade de retornar a 
seus lares originais. O jovem de 14 anos John McCullough viveu entre os 
índios shawnees por oito anos, quatro meses e dezesseis dias, segundo 
as contas de seus pais, colonos ingleses. Quando um acordo de paz foi 
selado com os índios, o jovem teve suas pernas amarradas à barriga de 
um cavalo e os braços atados às costas,