História da América 1 Cederj
320 pág.

História da América 1 Cederj


DisciplinaHistória da América I1.169 materiais43.982 seguidores
Pré-visualização50 páginas
zonas nucleares da América. Ao longo de 
vários séculos, esses espaços concentraram as maiores densidades 
demográfi cas do continenente americano, tornando-se, portanto, 
grandes núcleos de populações que viveram nos diferentes Estados que 
fl oresceram e desapareceram ao longo de vários séculos de história.
Durante e após a conquista espanhola, as populaçãoes nativas 
da América enfrentaram uma brutal queda demográfi ca. Vários 
fatores concorreram para as altas taxas de mortalidade indígena: 
os deslocamentos forçados, a fome, a desestruturação social, 
religiosa e cultural e a violência dos consquistadores são elementos 
que explicam a grande queda demográfi ca entre os nativos. Mas 
a conquista trouxe também doenças até então desconhecidas 
pelos nativos americanos (sarampo, gripes e doenças respiratórias, 
entre outras), que não resistiram diante da invasão de germes para 
os quais não possuíam defesas. A propagação das epidemias 
transmitidas pelos europeus foi, sem dúvida, a principal causa 
 23
Aula 1 \u2013 As Américas antes da conquista \u2013 temas e questões
da intensa mortalidade indígena ao longo do primeiro século da 
conquista. Toda e qualquer refl exão a respeito da construção da 
sociedade colonial nas Américas deve levar em conta que o mundo 
dos nativos estava enfraquecido não apenas pelas derrotas militares 
diante da invasão dos europeus. De fato, tais sociedades precisaram 
se adaptar à conquista em meio a muitas mudanças e violências, 
particularmente dramáticas, por ocorrerem em meio ao caos das 
doenças e da intensa mortalidade nativa.
Informação sobre a próxima aula
Na próxima aula, vamos discutir os principais traços das 
sociedades mexica e inca no período que antecedeu a conquista 
espanhola das Américas. 
Até lá!
Aula 2
Os índios antes da 
conquista \u2013 o caso 
dos mexicas e dos 
incas
26 
História da América I
Meta da aula
Apresentar aspectos da expansão dos Estados mexica e inca no período anterior à 
conquista hispânica nas Américas.
Objetivos
Eperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de:
caracterizar aspectos relativos à formação e ao expansionismo guerreiro do Estado 1. 
mexica na Mesoamérica;
caracterizar aspectos relativos à organização e expansão do Estado inca na 2. 
região andina antes da conquista;
Pré-requisito
Para melhor acompanhar o desenvolvimento desta aula, é importante que você tenha 
em mãos um atlas histórico. Uma sugestão acessível é o Atlas Histórico Básico, de José 
Jobson Arruda, publicado pela Editora Ática.
 27
Aula 2 \u2013 Os índios antes da conquista \u2013 o caso dos mexicas e dos incas
INTRODUÇÃO
Um livro originalmente publicado em 1982 tornou-se uma 
referência para os estudantes universitários de História na época 
em que eu estava na faculdade, no começo dos anos 1990. 
Trata-se do livro de Tzvetan Todorov, intitulado A conquista da 
América: a questão do outro. O autor, um fi lósofo nascido na 
Bulgária e com carreira construída na França, afirmava, na 
introdução da obra uma das razões de ter-se voltado para o estudo 
da descoberta e da conquista da América: para ele, a descoberta 
dos americanos havia sido marcada por um sentimento radical de 
estranheza. Estranheza de ambos os lados, deve-se notar, pois o 
isolamento relativo das Américas fez com que europeus e nativos 
se ignorassem totalmente até o fi m do século XV. 
Ao chegarem ao continente americano, os europeus não 
sabiam muito sobre os povos que habitavam as regiões mais 
densamente povoadas daquela área, tampouco estavam seguros 
sobre os modos de conduzir as guerras de conquista. Não sabiam, 
na verdade, que estavam prestes a enfrentar Estados fortemente 
hierarquizados e organizados em torno da expansão guerreira, 
como era o caso dos mexicas e incas às vésperas da conquista. 
Como nos lembra Todorov, o encontro entre o Velho e o Novo Mundo 
assumiu uma forma bem particular: foi uma guerra, ou como se dizia 
então, uma conquista.
Você certamente deve estar especulando intimamente 
sobre uma questão de fato inquietante: o resultado imediato do 
combate. Ora, como explicar a vitória dos europeus, se os nativos 
eram tão superiores em número e lutavam em seu próprio solo? 
Há muitas formas, na verdade, de responder a essa questão. 
As doenças trazidas pelos europeus foram devastadoras e causaram 
muitas mortes desde os primeiros contatos, enfraquecendo as 
defesas nativas. Havia também uma inegável superioridade bélica 
favorecendo os espanhóis, na medida em que seus arcabuzes 
28 
História da América I
e canhões eram mais efi cientes que as armas utilizadas pelos 
adversários nativos. Além disso, como bem adverte Todorov, as 
formas de compreender o mundo eram muito diferentes entre índios 
e europeus e, para os primeiros, a chegada daqueles homens vindos 
do mar foi percebida de acordo com os mitos conhecidos desde 
muitas gerações antes da chegada dos espanhóis. Alguns desses 
mitos falavam do retorno de deuses civilizadores, e é provável que 
os europeus, ao menos inicialmente, tenham sido confundidos com 
esses deuses, enfraquecendo a capacidade de defesa dos índios.
Uma boa sugestão de leitura sobre a percepção dos 
espanhóis como deuses que retornavam é o artigo de 
Nathan Wachtel, \u201cOs índios e a conquista espanhola\u201d, in 
Bethell, Leslie. História da América Latina: América Latina 
colonial, volume I.
Há ainda um outro argumento, sempre ressaltado pelos 
historiadores que se debruçam sobre as razões da vitória dos 
europeus: as rivalidades próprias do mundo dos índios. Na qualidade 
de estados em expansão, os incas e os mexicas estavam envolvidos 
em confl itos com os povos subjugados, provocados pelas guerras que 
dividiam o mundo dos nativos antes da conquista. Para alguns desses 
povos, que consideravam os mexicas e os incas como usurpadores, 
os europeus foram encarados como aliados. Com os próprios nativos 
como aliados, a vitória europeia foi certamente mais facilitada. 
Nessa aula, eu gostaria de discutir a organização dos 
Estados mexica e inca a partir de três questões em particular: como 
esses Estados se formaram? Como a historiografi a explicou seu 
expansionismo? Que aspectos em comum podem ser percebidos na 
história desses dois Estados às vésperas da conquista espanhola? 
 29
Aula 2 \u2013 Os índios antes da conquista \u2013 o caso dos mexicas e dos incas
O expansionismo mexica
Em diversos livros, encontramos a palavra 
\u201castecas\u201d para designar o povo que aqui estamos 
chamando de \u201cmexicas\u201d. Na verdade, trata-se do mesmo 
povo, mas o correto é chamá-los de mexicas, pois esse 
era o termo usado na época da conquista. 
No início do século XIV, o centro do México antigo era 
ocupado por diversas etnias. Foi nessa época que se instalaram no 
vale os mexicas, a partir da fundação da cidade de Tenochtitlán. 
Tempos depois, já no século XV, os mexicas aliaram-se a outras 
cidades \u2013 Texcoco e Tlacopán \u2013, formando uma Tríplice Aliança. 
Tenochtitlán \u2013 a capital dos mexicas cuja população rondava os 
400.000 habitantes na época da conquista \u2013 dominava essa 
aliança e comandava a expansão militar sobre os povos vizinhos. 
Entre o século XV e as primeiras décadas do século XVI, observou-se 
ali um movimento de expansão guerreira e domínio político sobre 
uma vasta região, marcada por certos traços em comum, mas 
também por traços de diversidade cultural e linguística. Gostaria 
de considerar o expansionismo mexica 
buscando compreender, especifi camente, 
como esse povo buscava legitimar o controle, 
muitas vezes frágil, exercido sobre uma área 
tão vasta. É certo que havia muita resistência 
à expansão do domínio mexica, conforme